Enquanto o mundo acompanha com atenção os desdobramentos de um surto de hantavírus em um navio de cruzeiro no Atlântico, o Brasil lida com uma realidade diferente e persistente. A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) confirmou, nesta segunda-feira (11), a primeira morte pela doença no estado em 2026.
O caso, um homem de 46 anos residente em Carmo do Paranaíba, reforça o caráter endêmico da zoonose no país, que circula há mais de três décadas, especialmente em áreas rurais. Diferente da cepa Andes, identificada no cruzeiro e comum na Argentina e Chile, a variante que circula em território brasileiro não é transmitida de pessoa para pessoa. No Brasil, o contágio ocorre exclusivamente pelo contato com excrementos de roedores silvestres.
O cenário epidemiológico no Brasil
Dados do Ministério da Saúde mostram que, até o fim de abril de 2026, o país já registrou sete casos de hantavirose. O histórico brasileiro é preocupante: entre 1993 e 2025, foram 2.429 casos confirmados e 997 mortes. A letalidade média no Brasil é de 46,5%, o que significa que quatro em cada dez infectados morrem.
Essa taxa elevada é explicada pela agressividade do vírus, que causa uma resposta inflamatória intensa, e pela dificuldade de acesso a hospitais em áreas rurais, onde ocorre a maioria das infecções.
| Região | Perfil dos Casos no Brasil |
| Principais focos | Sul, Sudeste e Centro-Oeste (áreas de Cerrado e Mata Atlântica). |
| Grupo de risco | Homens, entre 20 e 39 anos, trabalhadores da agricultura. |
| Causa principal | Inalação de poeira contaminada por urina ou saliva de roedores silvestres. |
Teste rápido: a esperança para reduzir mortes
Um dos maiores obstáculos no combate à hantavirose é a semelhança dos sintomas iniciais — febre, dor de cabeça e dores no corpo — com os da dengue, gripe ou Covid-19. Como a doença evolui rapidamente para a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), cada hora conta.
Para mudar esse cenário, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram um teste rápido que detecta a doença em apenas 20 minutos com uma gota de sangue. O exame, que já possui registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é fundamental para unidades de saúde em áreas remotas, permitindo o suporte clínico imediato antes que o quadro respiratório se agrave.
Como prevenir o contágio
A prevenção ainda é a melhor estratégia, especialmente para quem vive ou trabalha em zonas rurais. A SES-MG recomenda:
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Ventilação: Antes de entrar em locais fechados há muito tempo (galpões, paióis ou depósitos), abra as janelas e deixe o ar circular.
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Limpeza aegura: Nunca varra locais com presença de roedores a seco. Umedeça o chão com água e sabão ou água sanitária antes de limpar para evitar que as partículas do vírus fiquem suspensas no ar.
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Armazenamento: Mantenha alimentos e rações de animais em recipientes fechados e mantenha terrenos limpos e roçados ao redor das casas.
Embora o hantavírus não tenha potencial pandêmico como o coronavírus, sua gravidade individual exige atenção redobrada das autoridades e da população rural.
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OMS descarta indício de surto maior de hantavírus após evacuação de navio
Operação complexa em Tenerife repatria últimos passageiros; entidade recomenda monitoramento rigoroso até 21 de junho
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta terça-feira (12) que não há evidências de que o episódio de hantavírus identificado no navio MV Hondius esteja evoluindo para um surto de grandes proporções. A declaração ocorre no momento em que a Espanha conclui uma complexa operação de evacuação e repatriação de 94 pessoas que estavam a bordo da embarcação, ancorada em Tenerife.
Até o momento, foram relatados 11 casos da doença, com três óbitos confirmados — um casal holandês e um cidadão alemão. Nove desses casos foram identificados como sendo da cepa Andes, a única conhecida por permitir a transmissão entre humanos em condições de contato muito próximo.
Detalhes da repatriação e novos casos
A retirada dos passageiros e tripulantes foi concluída nesta segunda-feira (11), 41 dias após a partida do navio do sul da Argentina. A operação contou com o apoio da Unidade Militar de Emergências (UME) da Espanha e exigiu que os viajantes utilizassem trajes de proteção especiais durante o desembarque.
Mesmo com o fim da evacuação, novos diagnósticos surgiram entre os repatriados:
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França: Um passageiro francês testou positivo após o desembarque e apresenta piora no quadro clínico.
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Estados Unidos: Um dos 17 norte-americanos repatriados teve resultado positivo para a cepa Andes, enquanto outro apresenta sintomas leves.
Monitoramento e quarentena até junho
Apesar de Tedros Adhanom ter minimizado o risco de contaminação para a população geral de Tenerife, a OMS alerta que o longo período de incubação do vírus exige vigilância. A recomendação oficial é que todos os ocupantes do cruzeiro permaneçam em monitoramento ativo até o dia 21 de junho — prazo de 42 dias após a última exposição possível.
O acompanhamento deve ser feito pelos países de origem, seja em instalações de quarentena ou em isolamento domiciliar. O navio MV Hondius, após ser reabastecido, seguirá viagem para o porto de Rotterdam, na Holanda, apenas com uma tripulação reduzida de cerca de 30 pessoas.
Entenda a cepa Andes
O hantavírus é uma doença zoonótica geralmente transmitida por roedores. Na cepa Andes, a transmissão entre pessoas pode ocorrer pelo contato com saliva ou secreções respiratórias, mas apenas em casos de proximidade prolongada. Os sintomas iniciais incluem febre, dores pelo corpo e cefaleia, podendo evoluir para cansaço excessivo e grave dificuldade respiratória.
Diferente de outras variantes do hantavírus, o vírus Andes, comumente registrado na Argentina e no Chile, possui potencial de transmissão de pessoa para pessoa em situações de contato próximo e prolongado. Por essa razão, todos os casos suspeitos e confirmados no navio permanecem sob rigorosa supervisão médica para minimizar riscos de propagação.
A infecção geralmente começa com febre, dores musculares e cefaleia, podendo evoluir rapidamente para síndromes respiratórias agudas. A OMS segue trabalhando em colaboração com especialistas dos países afetados para o sequenciamento viral completo e suporte aos pacientes.
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Com informações da Agência Brasil e BBC Brasil




