Reconhecida oficialmente a partir de agora no Brasil como uma deficiência oculta, a fibromialgia afeta de 2% a 3% da população, com maior incidência em mulheres entre 30 e 50 anos, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). É a segunda doença reumatológica mais comum, atrás apenas da osteoartrite, e pode causar um impacto funcional significativo, com elevado custo social e econômico.
Este Dia Mundial e Dia Nacional de Conscientização sobre a Fibromialgia (12 de maio) visa informar a sociedade e reduzir o preconceito em relação à síndrome, caracterizada pela dor musculoesquelética crônica e generalizada. Ela pode se apresentar nas costas, quadris, braços, pernas, juntas, pescoço e ombros (principalmente nesses dois últimos).
O quadro também é frequentemente acompanhado por fadiga, distúrbios do sono, disfunção cognitiva e alterações de humor. Mas como lidar com um problema tão difuso, que compromete a qualidade de vida de milhares de pessoas diariamente, sobretudo mulheres?
Atualmente, o tratamento da fibromialgia gerencia os sintomas da doença e mantém a qualidade de vida do paciente. A terapêutica é multimodal combina terapias farmacológicas (antidepressivos e anticonvulsionantes) e não farmacológicas (atividade física, alimentação equilibrada e terapia cognitivo-comportamental).
A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) publicou as novas Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Fibromialgia, com foco no monitoramento clínico, uso racional dos medicamentos e nas abordagens não farmacológicas. O documento atualiza as recomendações de 2010 e incorpora evidências científicas recentes para qualificar o cuidado de uma das condições reumatológicas mais prevalentes no país.
Entre os destaques, está a realização de exercícios físicos, especialmente programas que combinam atividade aeróbica e treinamento de força, associados à redução da dor e melhora funcional.
O documento aponta ainda que dor, fadiga e distúrbios do sono são os principais alvos terapêuticos, mas ressalta a importância de considerar também aspectos emocionais, cognitivos, funcionais e metabólicos, como a obesidade, por exemplo.
O manejo eficaz da fibromialgia exige uma abordagem interdisciplinar, contínua e centrada no paciente, uma vez que a síndrome está relacionada principalmente a alterações no processamento central da dor e costuma coexistir com quadros como ansiedade e depressão”, afirma José Eduardo Martinez, presidente da SBR.
Atividade física deve respeitar os limites de cada paciente
A prática regular de exercícios físicos ajuda a reduzir a sensibilização geral do corpo, tornando o organismo menos reativo aos estímulos dolorosos
Exercícios regulares, especialmente os aeróbicos e de baixo impacto, ajudam a modular a dor, melhorar a qualidade do sono e reduzir a fadiga causada pela fibromialgia. Especialistas do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) de São Paulo destacam a importância da atividade fíusica regular para a qualidade de vida dos pacientes.
A reumatologista Taciana Paula de Souza Stacchini reforça que a atividade física é um dos pilares fundamentais no tratamento da fibromialgia, pois a prática regular de exercícios ajuda a reduzir a sensibilização central, tornando o organismo menos reativo aos estímulos dolorosos. “É fundamental, porém a atividade deve ser iniciada de forma gradual, respeitando os limites de cada paciente, a fim de evitar a piora dos sintomas”, acrescenta.
Hidroterapia ajuda na qualidade de vida dos pacientes
A hidroterapia é indicada aos pacientes com fibromialgia porque a água reduz o impacto entre o corpo e o solo. Essa característica ajuda a evitar que a atividade física intensifique as dores relacionadas à doença. Essa condição proporciona, também, mais tranquilidade e confiança ao doente, que executa os exercícios com menos preocupações.
Entre os principais exercícios indicados aos pacientes com fibromialgia nas sessões de hidroterapia, estão pequenos saltos, movimentos para melhora da mobilidade física e fortalecimento muscular. Para o fisioterapeuta Guilherme Sobrinho, a hidroterapia é uma excelente prática para pessoas que vivem com a condição.
Os pacientes chegam à piscina com um quadro mais avançado, com dificuldade para realizar atividades básicas do dia a dia. Ao longo do acompanhamento, no entanto, passam a perceber a redução da dor e o ganho de mobilidade. Essa evolução e a melhora na qualidade de vida são graduais, mas consistentes”, diz o profissional do Iamspe.
Conheça outras diretrizes recomendadas
Uso racional de medicamentos, importância de abordagens não farmacológicas, monitoramento clínico e tratamento interdisciplinar são os destaques
Para além dos exercícios físicos, a SBR destaca que o tratamento da fibromialgia deve ser integrado e centrado no paciente, combinando terapias farmacológicas e não farmacológicas, com acompanhamento contínuo e metas realistas.
A entidade também reforça que o tratamento conduzido por equipes interdisciplinares, envolvendo médicos, fisioterapeutas, psicólogos, educadores físicos, nutricionistas e outros profissionais de saúde, apresenta resultados superiores em qualidade de vida quando comparado ao cuidado exclusivamente médico.
Elaboradas a partir de revisões sistemáticas, meta-análises e consenso entre especialistas, as novas diretrizes contribuem para padronizar condutas clínicas e qualificar o cuidado oferecido aos portadores de fibromialgia, além de reafirmar o compromisso da SBR com uma prática baseada em evidências científicas, adaptada à realidade brasileira e focada no cuidado integral do paciente”, diz a entidade.
As novas diretrizes recomendam o uso de instrumentos validados para avaliar a gravidade da doença e a resposta ao tratamento, destacando ferramentas como o Revised Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQR) e o Fibromyalgia Survey Questionnaire (FSQ), ambos disponíveis em português e amplamente utilizados na prática clínica.
Entre as estratégias apresentadas com melhor nível de evidência científica, além da prática regular de exercícios físicos, destacam-se:
- educação do paciente e familiares, considerada fundamental para melhorar adesão ao tratamento, autonomia e qualidade de vida.
- terapias psicológicas, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), eficazes no controle da dor, do sono e de sintomas emocionais;
- Técnicas de neuromodulação e Acupuntura, recomendadas para alívio da dor, sobretudo no curto prazo;
- Outras práticas complementares como Tai Chi Chuan, exergames (videogames que integram atividade física e exercício corporal), além de aspectos relacionados à espiritualidade e religiosidade, sempre como apoio ao tratamento convencional, também são indicadas.
Uso de medicamentos no tratamento da fibromialgia
Em relação ao tratamento farmacológico, é consenso entre os especialistas que os medicamentos têm como objetivo principal aliviar sintomas e melhorar a funcionalidade, já que nenhuma medicação isolada é suficiente para o controle completo da doença.
Entre os fármacos com melhor evidência científica estão a amitriptilina, indicada especialmente para dor e distúrbios do sono, a duloxetina, com eficácia moderada no controle da dor, e a pregabalina, que apresenta benefícios na dor, no sono e na qualidade de vida.
As diretrizes apontam que outros antidepressivos, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), bem como a gabapentina, não possuem evidência científica suficiente para recomendação formal. O documento também é enfático ao não recomendar o uso rotineiro de opioides, anti-inflamatórios, canabinoides, benzodiazepínicos e terapias intravenosas, por falta de eficácia comprovada e risco de efeitos adversos.
A fibromialgia não é uma doença autoimune
A Sociedade Brasileira de Reumatologia esclarece que a fibromialgia NÃO é uma doença autoimune, como o Lúpus Eritematoso Sistêmico, a Artrite Reumatoide, a Esclerose Múltipla, o Diabetes tipo 1 e outras. A SBR explica que a autoimunidade é um termo utilizado para designar um grupo de doenças em que o sistema imunológico (de defesa) ataca o próprio corpo.
Quer dizer, o sistema imunológico, responsável por defender o organismo contra bactérias e vírus invasores passa a acreditar que as proteínas das células de diferentes partes do corpo são invasoras e envia células de defesa para atacá-las e isolá-las, destruindo estruturas e causando diferentes sintomas nos pacientes”.
Uma casa com o alarme desregulado: entenda os sintomas
A médica do Iamspe explica que a doença altera e aumenta a percepção da dor. “Costumo usar o exemplo de uma casa com o alarme desregulado: qualquer pequeno estímulo acaba disparando o alarme. De forma semelhante, o cérebro da pessoa com fibromialgia passa a reagir de maneira exagerada aos estímulos”, exemplifica a reumatologista.
Por isso, o cérebro e a medula interpretam os sinais de forma amplificada, fazendo com que o paciente sinta dor de maneira mais intensa, mesmo sem uma lesão evidente. O diagnóstico de fibromialgia é clínico e baseado na presença de dor generalizada por pelo menos três meses, associada a outros sintomas como fadiga e distúrbios do sono. Pode haver uma associação com outras doenças, como depressão e osteoartrite. As alterações hormonais da tireoide devem ser excluídas.
De acordo com a SBR, os principais sintomas da fibromialgia são:
- Dor generalizada é o principal sintoma e pode estar presente em diversos pontos do corpo;
- Fadiga como falta de energia e cansaço excessivos, mesmo após dormir muitas horas;
- Distúrbio do sono reparador ou profundo;
- Sensação de formigamento em mãos e pés;
- Dificuldades cognitivas, como problemas para se concentrar por longos períodos de tempo;
- Ansiedade e ou depressão podem estar associados.
Leia mais
Agora é lei: fibromialgia passa a ser reconhecida como deficiência oculta
Fibromialgia passa a ser considerada deficiência no Brasil
Fibromialgia: só medicamentos para dor não bastam
Fibromialgia: mitos e verdades da doença de Lady Gaga
Agenda Positiva
Maio Roxo é marcado por Fórum Nacional de Fibromialgia
Evento on-line reúne especialistas do Brasil e de Portugal, lideranças de associações e pacientes para debater tratamento, diagnóstico, saúde mental e direitos das pessoas com fibromialgia
O Maio Roxo, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da fibromialgia, tem como marco o dia 12 de maio, Dia de Conscientização da Fibromialgia, e busca ampliar a visibilidade sobre uma síndrome crônica ainda marcada por desconhecimento, estigma e desafios no acesso ao cuidado.
Para marcar a mobilização no país, a Associação Fibromiálgicas(os) do Brasil realiza, entre os dias 9 e 30 de maio, o II Fórum Nacional de Fibromialgia. Gratuito e on-line, o evento conta com debates sobre ciência e inovação, dor e fadiga, cannabis medicinal, saúde mental e integrativa, políticas públicas e boas práticas na gestão de organizações sociais voltadas à causa.
O Fórum tem apoio da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), Universidade de Coimbra, Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Solve M.E., organização internacional voltada à pesquisa e ao advocacy sobre Síndrome da Fadiga Crônica, Encefalomielite Miálgica, pós-Covid e doenças crônicas complexas, além de outras instituições como o My Fibromyalgia – Instituto de Fibromialgia em Portugal.
O Fórum propõe aproximar pacientes, lideranças, profissionais de saúde e pesquisadores, criando um espaço de troca qualificada sobre tratamento, direitos, saúde mental e qualidade de vida. Queremos que o Maio Roxo seja também um momento de escuta e construção coletiva, para que a dor das pessoas com fibromialgia seja reconhecida e cuidada com seriedade”, afirma Daya Silva, fundadora da Associação.
Atividades voltadas para médicos e pacientes
A abertura ocorreu no último sábado, dia 9 de maio, com o Seminário Médico Fibromialgia: diagnóstico, pesquisas recentes e as novas diretrizes para tratamento. Voltado especialmente a reumatologistas, clínicos gerais, médicos de família e demais especialidades, o encontro teve participação dos médicos José Eduardo Martinez, da SBR e Eduardo Paiva, também da SBR e idealizador do Ambulatório de Fibromialgia em Curitiba.
No mesmo dia, o painel Fibromialgia – além do diagnóstico: ciência, vivência e caminhos reais propõe um mergulho completo na condição, ainda invisível para muitas pessoas. A atividade reuniu pessoas com fibromialgia e convidados, como José Pereira da Silva, da Universidade de Coimbra, em Portugal.
A programação segue no dia 12 de maio, Dia de Conscientização da Fibromialgia, com mesas redondas sobre dor, fadiga, exercício físico e saúde mental. Entre os temas previstos estão:
- Laboratório de Psicologia do Esporte e do Exercício: trajetória, pesquisas, impacto social e contribuições para a fibromialgia e o exercício físico;
- Exercício físico e saúde mental na fibromialgia: evidências e perspectivas atuais sobre o treinamento resistido; e
- Características clínicas, psicológicas e da prática de exercício físico de pacientes fibromiálgicos: uma pesquisa epidemiológica desenvolvida pelo Laboratório de Psicologia do Esporte e do Exercício UDESC/CEFID.
Cannabis medicinal, saúde mental e políticas públicas estão entre os temas
No dia 14 de maio, às 16h, o Fórum terá o painel Novas fronteiras do alívio: cannabis e terapias inovadoras, com discussão sobre ciência, acesso legal e alternativas terapêuticas que têm mudado o debate sobre dor crônica. A mesa terá participação de Flavia Rigou, professora da UNESC; Raphael Mariano Bittencourt, professor da UNISUL; Denise Tamer, jornalista especializada em cannabis; e Ubiracir Fernandes Lima Filho, mestre em química de produtos naturais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em vigilância sanitária pela Fiocruz.
A saúde mental também terá espaço na programação. No dia 18 de maio, às 19h, o painel Quando a dor não é só física: saúde mental na Fibromialgia discutirá os impactos emocionais da condição, com participação de Geison Marques, psicólogo do Ambulatório de Atenção à Saúde da Pessoa com Fibromialgia (Amasf) da Unesc, e Kálita Silveira Nunes, bacharel em fisioterapia no Amasf da UNESC.
No eixo de políticas públicas, o Fórum terá um painel para discutir o que mudou, o que falta e como avançar na regulamentação da Lei Federal nº 15.176/2025 para garantir acesso ao tratamento adequado e cuidado com pacientes. A data será confirmada em breve.
No dia 25 de maio, às 15h, o painel Experiências que estão transformando vidas apresentará práticas desenvolvidas por lideranças e organizações da sociedade civil que atuam com fibromialgia em diferentes territórios. A proposta é compartilhar iniciativas que possam inspirar outras associações, fortalecer a atuação em rede e qualificar o cuidado e a defesa de direitos das pessoas com fibromialgia.
Participam Giseli Cunha, presidente da Associação Girassóis Fibromiálgicos do Extremo Sul Catarinense (Girassóis); Silvia Ribeiro, presidente da Associação de Pessoas com Fibromialgia de Salvador (AFIBS); e Karen Freitas, vice-presidente da Associação Fluminense de Apoio aos Portadores de Fibromialgia de Niterói e Região (AFAPNIT).
A programação completa pode ser consultada nas redes sociais da Associação. Todos os painéis serão transmitidos exclusivamente dentro da Fibro Social, on-line com uma rede social própria e plataforma gratuita de cursos criada pela Associação Fibromiálgicas(os) do Brasil.
Inscrições abertas:
- Para pacientes: https://forms.gle/
eBbgGccavaAdLGc76 - Para líderes de associações (presidente, vice e diretoria): https://forms.gle/
9ppTiCbVB21E1bPLA - Para médicos: https://forms.gle/
kNXwsTx8jYdUeNG18 - Para outros profissionais de saúde: https://forms.gle/
o1GUwFnG7VMwRa6j6
Com Assessorias






