Dados reais, extraídos de diversos estudos e publicações, demonstram a desigualdade no atendimento médico no Brasil: pacientes negros esperam, em média, 10 minutos a mais para serem avaliados. Consultas com pacientes negros duram, em média, 47% menos do que com pacientes brancos.
Eles também têm menos chances de realizar exames de imagem ou raio-X, o que pode comprometer diagnósticos precoces e precisos. O tempo entre o diagnóstico e a cirurgia é, em média, 6,7 dias maior para pacientes negros, evidenciando um viés sistêmico que pode afetar diretamente a sobrevida e qualidade de vida dessa população.
Os dados são do Instituto Yduqs e Instituto de Educação Médica (Idomed) que lançaram o curta-metragem “Corpo Preto”, um filme baseado em dores verdadeiras. A produção revela a dura realidade do racismo no contexto da assistência e serviços de saúde no Brasil.
Corpo Preto é um curta-metragem comovente e necessário, inspirado em relatos e dados reais. Uma história que escancara como o racismo estrutural impacta o dia a dia de pacientes negros nos hospitais brasileiros. A obra revela, com sensibilidade e urgência, como o viés racial compromete diagnósticos, tratamentos – e vidas.
Invisibilidade do paciente negro no sistema de saúde
Com foco nas microagressões e discriminações sofridas por pessoas negras, a iniciativa questiona as diferenças no atendimento médico e os impasses raciais que afetam a qualidade de vida dessa significante parcela da população.
Com o intuito de provocar uma reflexão sobre as consequências do racismo estrutural na saúde, o curta acompanha a jornada de um homem negro enfrentando a indiferença e negligência de profissionais desta área.
A equipe de criação optou pelo uso de câmera desfocada para simbolizar justamente essa ausência de atenção, evidenciando a invisibilidade do paciente. O curta destaca o distanciamento e a falta de cuidado, mostrando de forma contundente as barreiras que pessoas negras enfrentam até no momento mais crítico de suas vidas.
Com pouco mais de 5 minutos de duração, o curta pode ser assistido aqui:
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Educação médica para enfrentar o racismo na saúde
O insight do filme surgiu baseado nos estudos do projeto Mediversidade, do Instituto Yduqs e Idomed, um programa pioneiro no Brasil criado para enfrentar o racismo na saúde por meio da educação médica. O projeto trabalha para incluir as diversas etnias e condições sociais nos cuidados de saúde.
’Corpo Preto’ é um relato emocionante que traz visibilidade a um problema que pessoas negras enfrentam diariamente no Brasil: o tratamento desigual em serviços médicos. Mais do que isso, estamos provocando um debate sobre o papel da educação na construção de uma sociedade mais inclusiva e consciente”, revela Claudia Romano, presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do grupo educacional Yduqs.
Silvio Pessanha, CEO do Idomed, diz que com o programa Mediversidade, a instituição reafirma seu compromisso com a inclusão e a diversidade em todas as 18 faculdades de medicina do grupo. “Acreditamos que um ambiente educacional diverso enriquece a experiência acadêmica e prepara melhor todos os nossos futuros médicos e médicas para atenderem às necessidades reais da sociedade,” afirma.
O Mediversidade é um programa que transforma nossas salas de aula, tornando-as mais diversas. Mas ele vai além: estamos modificando a prática médica, dando visibilidade a um problema estrutural da saúde e da sociedade. Estamos trabalhando para formar médicos mais preparados para enxergar e cuidar de todas as vidas, promovendo uma educação mais equitativa e, acima de tudo, humana”, completa Claudia Romano.
Livro evidencia origem do problema na formação dos médicos
Além disso, apenas 3% dos médicos no Brasil são negros, segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) de 2023. Paralelamente ao conteúdo audiovisual, foi desenvolvido um material inédito na medicina: o livro “Nigrum Corpus – Um estudo sobre racismo na medicina brasileira”. Baseado em depoimentos reais, o livro é um material educativo que evidencia os vieses dentro da área da saúde.
A obra aborda a origem do problema já na formação dos profissionais de saúde. O objetivo é que o material seja distribuído para as principais faculdades de medicina do país, a fim de priorizar a formação de médicos mais conscientes, empáticos e preparados para enfrentar o racismo institucional.
Mais sobre o filme ‘Corpo Preto’
O curta foi lançado no dia primeiro de abril no Cinema Estação do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro (RJ). Após a sua exibição, ocorreu uma mesa redonda com debate sobre o tema, com a presença de Amanda Machado, professora, médica e membro do Núcleo de Inclusão, Diversidade e Humanização (NIDH) do Idomed; e Nany Oliveira, diretora do curta. O papo foi intermediado por Annelise Passos, gerente de Projetos em Diversidade e Inclusão da Artplan – agência que produziu o filme.
Para ampliar a visibilidade do projeto, serão realizadas ações de comunicação focadas no letramento racial, incluindo exibições especiais do filme em cinemas nacionais, ativações com influenciadores digitais, palestras com especialistas e divulgação em mídias Out of Home (OOH).
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