Desigualdade social agrava epidemia de Aids no Brasil e no mundo

Entre 2010 e 2020 houve queda de 9,8% na incidência de Aids entre pessoas brancas, ao passo que entre negros a doença cresceu 12,9%

Entre os negros, houve um aumento nos casos de Aids em 10 anos (Foto: Picture Alliance/DPA)
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O dia 1º de dezembro foi designado como o Dia Mundial de Combate à AIDS, hoje ampliado para todo o mês de dezembro, chamado de “Dezembro Vermelho”. A data é voltada para lembrar as pessoas sobre a profilaxia da infecção e apoio às envolvidas na melhora da compreensão dessa infecção como um problema de saúde pública global.

O novo relatório do Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostrou que o aumento das desigualdades e das restrições financeiras têm agravado o enfrentamento da epidemia de Aids no Brasil e no mundo, permitindo que um maior número de pessoas evoluem da fase assintomática para a fase sintomática. Isto torna mais difícil o cumprimento da meta para que a doença deixe de representar uma ameaça à saúde pública até 2030.

Dados do Ministério da Saúde entre 2010 e 2020 apontam que houve queda de 9,8% na incidência de Aids entre pessoas brancas, ao passo que entre negros a doença cresceu 12,9%. A disparidade se repete na proporção de mortes causadas pela Aids, com redução de 10,6% na população branca e alta de 10,4% entre pessoas negras. A representante do Unaids no Brasil, Claudia Velasquez, afirmou que os números refletem o racismo estrutural, e classificou o quadro como “inaceitável”.

“De forma geral as minorias são mais expostas ao risco de se infectar pelo HIV por vários motivos, destacando basicamente acessos limitados à informação e aos cuidados profiláticos e terapêuticos. A combinação destes dois fatores eterniza as exposições de risco, o primeiro passo para aumentar as taxas da infecção neste segmento populacional”, destaca o ginecologista Geraldo Duarte, presidente da Comissão Nacional Especializada de Doenças Infectocontagiosas da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Ele explica que a Aids é causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), possuindo várias formas de transmissão, as quais podem ser agrupadas em três grandes categorias de exposição. A primeira é a exposição sexual, independente da manifestação da sexualidade (homossexual, heterossexual ou bissexual).

A segunda considera a exposição parenteral ou de mucosas a sangue/hemoderivados, instrumentos e tecidos contaminados pelo vírus. A terceira é representada pela transmissão perinatal, a qual pode ocorrer pela via transplacentária, durante o parto ou por meio da amamentação.

Sintomas

Sobre os sintomas, o médico da Febrasgo esclarece que a infecção pelo HIV se manifesta por fases. “Na fase aguda da infecção são poucos os casos que apresentam sintomas e quando ocorrem, são inespecíficos. Considera-se que sejam compatíveis com o que se chama de síndrome mononucleose-like, com febre baixa, gânglios aumentados e mal-estar. A fase seguinte é assintomática, assim vivendo por tempo variável de uma pessoa para outra.

Com o aumento da carga viral e declínio dos linfócitos T-CD4, a pessoa infectada começa a apresentar sinais e sintomas de Aids. “A linfoadenomegalia (aumento de volume dos linfonodos) generalizada e persistente, acompanhada de perda discreta de peso, caracteriza o início da fase sintomática da doença na grande maioria dos casos”, enfatiza Geraldo.

Com o tempo e, se não tratada, a doença evolui para estágios de maior gravidade. Dentre as manifestações clínicas mais comuns em pacientes nos estágios mais avançados da infecção (Aids) observa-se o emagrecimento intenso, fadiga, presença de infecções oportunistas, sudorese noturna e diarreia.

“A presença de úlceras aftosas bucais e de orofaringe, sinusopatia, leucoplasia pilosa oral e infecções herpéticas também são frequentes, mas não são tão constantes quanto aquelas citadas anteriormente. Felizmente, o sarcoma de Kaposi é raro entre mulheres”, acrescenta o especialista.

Prevenção

A prevenção da infecção pelo HIV entre adultos é um passo fundamental no controle da infecção. Resumindo, pode-se afirmar que a chave que abre o processo da prevenção começa com a informação e a consciência de nossa vulnerabilidade quanto aos hábitos considerados de maior risco. Dentre eles, destaque especial deve ser dado ao risco de uso comunitário de drogas injetáveis e à exposição sexual (nas suas várias formas de expressão) sem proteção.

Hoje, além da proteção com os preservativos (masculino e feminino), existe a profilaxia utilizando medicamentos antirretrovirais, denominadas de “profilaxia pré-exposição (PrEP)” e a “profilaxia pós-exposição (PEP)”. Para a profilaxia da transmissão vertical é necessário que a gestante se cuide para não se infectar, podendo utilizar os mesmos recursos já citados.

Tratamento

Uma vez portadora do vírus, existem protocolos específicos de uso de medicações antirretrovirais cujo objetivo é reduzir a carga viral, deixando-a indetectável. “Atualmente, já existem drogas injetáveis de longa ação, que pode durar até dois meses, facilitando muito a adesão tanto para a profilaxia quanto para o tratamento”, diz Dr. Geraldo.

O tratamento da infecção pelo HIV é feito à base de antirretrovirais, alertando que, do ponto de vista prático, ainda não há cura para esta doença. Os relatos de cura são raros e demandam outras intervenções terapêuticas. O esquema antirretroviral mais utilizado atualmente é a combinação tríplice, associando dois inibidores da enzima transcriptase reversa (tenofovir e lamivudina) com um inibidor da enzima integrase (dolutegravir).

 

 

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