Na semana dedicada ao Dia Mundial do Rim, celebrado na última quinta-feira (12), especialistas alertam para a necessidade de cuidados estruturais para a promoção da saúde e prevenção da Doença Renal Crônica (DRC) e a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da doação de órgãos. A DRC é caracterizada pela perda progressiva e irreversível da função renal ao longo de três meses ou mais, podendo, nos casos mais graves, exigir um transplante para garantir a sobrevida do paciente.

Sem conseguir filtrar o sangue adequadamente, o organismo acumula líquido e toxinas, gerando um quadro clínico potencialmente fatal. São necessárias sessões regulares de hemodiálise, geralmente duas ou três por semana, com duração em torno de quatro horas cada, para substituir a função dos rins. Para a maioria dos pacientes, a diálise se torna um tratamento contínuo, com implicações no cotidiano, em vista da frequência das sessões e eventuais efeitos adversos.

Profissionais de saúde e instituições em todo o mundo reforçam um alerta importante: as doenças renais estão entre os problemas crônicos que mais crescem entre a população. O número de pacientes com doença renal crônica que precisam de diálise registrou um salto de 57,6% nos últimos 10 anos, chegando a mais de 155 mil brasileiros, segundo o Censo da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Em muitos casos, esses problemas evoluem de forma silenciosa, sem sintomas perceptíveis nos estágios iniciais.

Cálculos renais e insuficiência renal crônica

Os casos mais comuns incluem os cálculos renais (pedras nos rins) e a insuficiência renal crônica, um quadro em que os rins perdem a capacidade de filtrar o sangue e equilibrar os níveis de água, sais e minerais do organismo. De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2023 foram registrados mais de 91 milhões de atendimentos relacionados a cálculos renais e insuficiência renal crônica no país, sendo cerca de 200 mil internações. Em 2024, o número de internações ultrapassou os 221 mil, com mais de 52 mil apenas no estado de São Paulo.

No Brasil, os números chamam a atenção não só pela alta demanda de atendimentos, mas também pela relação direta com hábitos que podem ser prevenidos. O avanço é reflexo dos principais fatores de risco, que também registraram alta nos últimos anos e seguem em crescimento.

A crescente incidência de DRC reflete uma questão estrutural de saúde, que está diretamente relacionada ao aumento de fatores de risco como obesidade, diabetes, hipertensão e o envelhecimento da população. Dados recentes mostram que mais de 56% dos brasileiros estão com excesso de peso, e cerca de 10% da população vive com diabetes, com um aumento de um ponto percentual em apenas dois anos.

Já a hipertensão arterial afeta 27,9% dos brasileiros, sendo mais prevalente entre os idosos, com 62,5% dos maiores de 65 anos diagnosticados com essa condição. Estudos também indicam a poluição atmosférica como um fator adicional que pode prejudicar a saúde renal. Pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Amsterdã identificaram o impacto negativo da poluição no funcionamento dos rins, ampliando as preocupações sobre o ambiente como um fator de risco.

Demanda por tratamento reacende debate sobre acesso

Apesar do cenário, a Anadem (Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética) afirma que o Ministério da Saúde optou por não incorporar à rede pública o medicamento finerenona, utilizado para proteger a função renal de pacientes com diabetes tipo 2 que já apresentam sinais de comprometimento dos rins. O medicamento também pode reduzir o risco de agravamento da insuficiência cardíaca e de morte por causas cardiovasculares, o que reacende o debate sobre acesso a tratamentos e políticas públicas voltadas à prevenção da progressão da doença.

Para o advogado especialista em direito médico e presidente da Anadem, Raul Canal, a discussão sobre a incorporação de terapias ao sistema público deve considerar os princípios constitucionais relacionados ao direito à saúde.

Quando a Constituição estabelece que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, ela impõe ao poder público a responsabilidade de adotar políticas que reduzam riscos e evitem o agravamento das doenças. Isso significa reconhecer que a proteção à saúde deve ser tratada como um direito fundamental que precisa ser efetivamente garantido pelo Estado”, afirma.

Segundo Canal, a avaliação sobre a inclusão de novos medicamentos também deve considerar impactos de longo prazo no sistema de saúde. “Medidas que retardam a evolução da insuficiência renal podem reduzir internações e a necessidade de diálise. Do ponto de vista do direito à saúde, é fundamental que essas análises sejam feitas com foco na proteção da vida e da dignidade do paciente”, conclui.

Patologias são silenciosas e perigosas, alertam nefrologistas

Dia Mundial do Rim reforça a importância do acompanhamento médico para identifica alterações que podem levar à falência do órgão. Geralmente, assintomática no início, a doença renal crônica (DRC) causa a perda lenta, progressiva e irreversível da função dos rins.

A diretora do Serviço de Nefrologia do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE),  Melissa Pinheiro, explica o porquê da dificuldade da detecção dos sinais da doença pelo paciente. “A doença renal crônica começa a apresentar algum sintoma quando está em estágios mais avançados”, afirma.

Com o agravamento da doença, surgem os sintomas como presença de espuma na urina, inchaço nas pernas, falta de ar, falta de apetite e fadiga. Por isso, é fundamental estar atento a sinais como inchaços, alterações na urina, cansaço excessivo e dores na região lombar.

Ao identificar qualquer um desses sintomas, é recomendável buscar orientação médica e realizar exames laboratoriais que avaliem a função renal. “A identificação da doença renal crônica em estágios iniciais permite controlar fatores de risco e evitar a progressão do problema para estágios mais graves, que podem exigir diálise ou até transplante renal”, destaca a Dra Melissa.

É essencial que a população compreenda que as doenças renais muitas vezes se desenvolvem de forma silenciosa. A prevenção e o diagnóstico precoce fazem toda a diferença na qualidade de vida do paciente e na redução de complicações graves”, explica o nefrologista João Chang, da Santa Casa de São José dos Campos.

O diagnóstico requer atenção com exames de rotina. Auxiliam na identificação precoce de alterações no funcionamento dos rins exames simples, como o de urina e de dosagem de creatinina no sangue. “Exames simples são fundamentais para detectar precocemente a doença renal crônica, que pode exigir procedimento de diálise para filtragem do sangue”, diz a médica.

Check up deve incluir exame de creatinina

Os especialistas enfatizam ainda a importância dos check-ups regulares e da conscientização sobre a saúde renal, que deve ser uma prioridade tanto para os indivíduos quanto para os gestores de saúde pública e privada. O ideal é realizar as análises laboratoriais anualmente

Pacientes que possuem fatores de risco, como diabetes, hipertensão arterial, obesidade, histórico familiar de DRC e idade acima de 60 anos, devem incluir nos seus exames de rotina um teste de sangue para medir a creatinina—parâmetro que indica indiretamente a função dos rins (estimativa da taxa de filtração glomerular) – e um exame de urina para detectar a perda de proteína (albumina), um dos primeiros sinais de lesão renal.

A conscientização é o primeiro passo para reduzir os impactos das doenças renais na saúde pública. Neste Dia Mundial do Rim, o apelo é claro: cuidar dos rins é cuidar da vida”, conclui o nefrologista João Chang.

Prevenir é melhor do que remediar

Em resposta a esse cenário preocupante, especialistas destacam que a solução para a crise da DRC passa por mudanças nos hábitos de vida da população. Alimentação saudável, exercícios físicos regulares, controle de peso, monitoramento de doenças como diabetes e hipertensão, e envelhecimento saudável são medidas essenciais para prevenir e controlar o risco de danos aos rins.

A boa notícia é que a maioria das doenças renais pode ser prevenida com atitudes simples. Manter-se hidratado, controlar a pressão arterial, evitar o consumo excessivo de sal, realizar exames regulares e adotar uma alimentação equilibrada são cuidados essenciais para proteger os rins ao longo da vida”, conclui o nefrologista João Chang.

A prevenção da doença renal está diretamente ligada à adoção de hábitos saudáveis. Por isso, a nefrologista Melissa indica a adoção dos seguintes hábitos:

  • Praticar atividade física regularmente;
  • Controlar a pressão arterial;
  • Manter o diabetes sob controle;
  • Parar de fumar, no caso de pessoas tabagistas;
  • Adotar uma alimentação equilibrada, com redução do consumo de sal, menor ingestão de alimentos ultra processados e melhora no consumo de frutas e legumes.

Com Assessorias

 

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