O Carnaval de Rua do Rio de Janeiro é tradicionalmente conhecido pela alegria e pluralidade de seus foliões e reafirma sua vocação como espaço de transformação social e inclusão. Mas a cada ano que passa ele se torna mais engajado com temas como diversidade, acessibilidade e sustentabilidade. 

Este, aliás, é o tripé da formação do Sereias da Guanabara, um bloco LGBTQIA+ criado em 2017 que arrasta uma multidão no Aterro do Flamengo. Os integrantes procuram usar materiais reciclados nas fantasias, aproveitando a “potência festiva do lixo”. Tudo é reaproveitado.

Durante a passagem do bloco, seus fundadores, Leo Solez e Jorge Badaue, que atuam como DJs no trio elétrico, estão sempre conscientizando os foliões sobre a importância da coleta do lixo, para deixar novamente o Aterro em condições de uso para os próximos usuários do local. No ano passado, o bloco ganhou o Selo Verde de Sustentabilidade.

A história do bloco, que celebra este ano seu nono aniversário, está relacionada à fabulação de um imaginário sobre a Baía de Guanabara, sofrendo poluição durante muitas décadas. Há consciência também sobre a potência de vida animal que existe na Baía de Guanabara e que alimenta a cidade do Rio de Janeiro e a região metropolitana.

Para a gente fazer o bloco no Aterro é muito simbólico porque a Praia do Flamengo foi despoluída e está sendo agora muito usada pelos cariocas. Essa sempre foi uma pauta nossa durante o bloco, procurar falar sobre conscientização das pessoas em relação ao lixo”, citou Leo Solez.

Um dos princípios do bloco, segundo sublinhou Jorge Badaue, é que existe o entendimento de que a Baía de Guanabara, apesar de sofrer muito com a poluição, não morre. “A gente refletiu muito sobre essa resistência da vida, apesar de questões adversas”.

21/01/2026 - Rio de Janeiro - Blocos LGBTQIA+ do Rio de Janeiro pregam alegria e pluralidade. Djs do Bloco Sereias da Guanabara (Leo Solez e Jorge Badaue) Fonte: acervo do bloco
 Djs Leo Solez e Jorge Badaue, do Bloco Sereias da Guanabara – Acervo do bloco

Diversidade da fauna marinha é a marca do bloco

Outra característica do bloco é a diversidade, “até porque a fauna marinha é diversa”, dizem os organizadores. Além das pessoas LGBTQIA+, o Sereias está aberto à participação de pessoas de todos os gêneros. “Tem pessoas trans, pessoas cis, héteros também são bem-vindos. Nos nossos eventos, a gente também preza por acessibilidade, que é um pilar nosso”, afirmaram os sócios.

A ampla e diversa fauna marinha virou uma marca do bloco.  “De cima do trio elétrico a gente vê muito azul, verde-água. A galera compra legal essa ideia do universo marinho. Além de ser a cara do Rio de Janeiro, que tem um vínculo muito forte com o mar e natureza”.

Jorge Badaue acrescentou que o público abraça a ideia do universo marinho, porque ele envolve uma certa fantasia, lúdica, carnavalesca, de sereias. Acaba sendo um universo muito rico para se explorar em termos de figurino e fantasia”. 

O primeiro desfile do Sereias da Guanabara foi realizado no dia 20 de janeiro de 2017, no período pré carnaval. Essa data é considerada a fundação do bloco, cuja criação ocorreu no final de 2016. O bloco de rua  também sai no dia 17 de fevereiro, com concentração às 14h, no Aterro do Flamengo, próximo ao estacionamento do Assador Rio’s, churrascaria de rodízio instalada nas imediações.

Aceitem ou respeitem: Banda das Quengas, a mais antiga, cobra respeito

Devido ao contingente de pessoas que atrai – no ano retrasado foram 47 mil pessoas – a Banda das Quengas, uma das bandas carnavalescas LGBTQIA+ mais antigas do Rio de Janeiro, não sai mais pelas ruas da Lapa. Fica parada, distribuindo alegria para os foliões.

Nossa banda é imprevisível. Ela pega multidões. É a banda LGBT da diversidade que atrai não só os que estão com a gente, mas os afins também. É uma banda família em que todo mundo vai para se divertir”, diz Tbengston Martins, na vice-presidência há dez anos.

A temática do carnaval 2026 é a mesma dos últimos oito anos: Aceitem ou nos respeitem. Tbengston Martins reforça: ninguém é obrigado a aceitar, “mas respeitar, com certeza é”. A fantasia é livre. No passado, a banda chegou a produzir abadás para distribuir a alguns convidados, mas ficou muito caro. “As pessoas vão do jeito que acharem melhor e à vontade”, determinou o vice-presidente.

Tbengston Martins já foi adepto da banda, quando começou, depois padrinho, rainha da banda em 2018. “Hoje, sou vice-presidente e dou a vida pela banda, porque gosto de carnaval. E nossa banda nos realiza nesse período”. O som começa às 16h e a banda segue até as 22h. “Todo mundo que passa o carnaval no Rio para na terça-feira na Lapa para brincar com a gente”

A referência era o Bar das Quengas, que foi reformado e ganhou outro nome: Bacurau. “Mas não tem nada a ver com a banda”, garante o vice-presidente. A banda completa 35 anos no dia 13 de fevereiro, mas a comemoração será na terça-feira (17), com concentração a partir das 15h na esquina da Rua Washington Luiz com Avenida Mem de Sá, na Lapa.

Sai Hétero: brincadeira como resposta ao preconceito

21/01/2026 - Rio de Janeiro - Blocos LGBTQIA+ do Rio de Janeiro pregam alegria e pluralidade. Bloco Sai Hétero. Foto: Saulo Costa/ Bloco Sai Hétero© Saulo Costa/ Bloco Sai Hétero

A partir de uma brincadeira de carnaval, o Rio de Janeiro ganhou no dia 4 de março de 2018 o bloco Sai, Hétero, nascido como resposta ao preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ em outros espaços carnavalescos.

Hoje, ele é um projeto cultural, consolidado no carnaval do Rio e que recebe mensagens de gente de Roma, Paris, da galera de Manaus vindo para o Rio de Janeiro e querendo saber a data do desfile para se programar”, conta o fundador e presidente do bloco, Vitor Ribeiro.

O bloco tem um público bem fiel, estimado entre 10 mil e 20 mil pessoas. Os eventos têm camarotes, open bar e diversas atrações e artistas, além da bateria da Escola de Samba Unidos da Tijuca. Os eventos do bloco são realizados sempre na região central da cidade. No ano passado, por exemplo, ocorreu na Praça Marechal Âncora.

Este ano, os participantes apostam que o centro do Rio “vai ferver no ritmo do carnaval mais colorido, diverso e animado da cidade”. “É um evento bloco, com fantasia livre”, disse Ribeiro.

Neste sábado (dia 24/1), o Sai, Hétero fará seu primeiro “esquenta” oficial do carnaval de rua, reunindo artistas e convidados na Marina da Glória, dentro do Parque do Flamengo, com tema sempre voltado para as pessoas LGBTQIA+. Informações podem ser encontradas no Instagram do bloco.

21/01/2026 - Rio de Janeiro - Blocos LGBTQIA+ do Rio de Janeiro pregam alegria e pluralidade. Bloco Sai Hétero. Foto: Saulo Costa/ Bloco Sai Hétero
 Bloco Sai Hétero sai na terça-feira de carnaval – Saulo Costa/ Bloco Sai Hétero

Mas a celebração maior do carnaval 2026 do Sai, Hétero ocorrerá no dia 17 de fevereiro, embora ainda sem local definido, que é sempre fora da programação do carnaval de rua da prefeitura.

A gente prefere fazer um evento fechado por motivos de segurança porque, no carnaval, as pessoas ficam muito expostas e acontecem muitos acidentes em eventos abertos”, explicou Vitor Ribeiro.

Enxota Que Eu Vou: bloco para todos os gêneros

21/01/2026 - Rio de Janeiro - Blocos LGBTQIA+ do Rio de Janeiro pregam alegria e pluralidade. Bloco Enxota que eu vou. Foto: Enxota Que Eu Vou/ Bruno Santos
Bloco Enxota que eu vou. Foto: Enxota Que Eu Vou/ Bruno Santos – Enxota Que Eu Vou/ Bruno Santos

Tudo começou quando um grupo de amigos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), boêmios que gostavam muito de sambas-enredo, iam para os lugares tocar e cantar, mas acabavam enxotados dos lugares, porque eram os últimos a ir embora, lembrou Camila, que integra a agremiação desde o primeiro ano de criação do Enxota Que Eu Vou, em 2010.

“Vão embora, vão embora, eles ouviam”. Daí, por brincadeira, o nome do bloco ficou sendo Enxota Que Eu Vou, cujo foco são os sambas-enredo clássicos das escolas de samba do Rio de Janeiro, desde 1900 até os sambas atuais. No carnaval 2026, o bloco comemora 15 anos de reunião e festa na Praça Tiradentes, região central da capital fluminense.

Ao contrário do que muita gente pensa, o Enxota Que Eu Vou não é um bloco majoritariamente LGBTQIA+. “Nós não somos um bloco exclusivo LGBTQIA+. O nome dá a entender isso, às vezes. A gente se considera um bloco de todos, diverso e aberto a todos os gêneros. Nós nos consideramos amigos das pessoas que lutam pelas causas LGBTQIA+ e, inclusive, defendemos que o carnaval seja plural, diverso, com respeito”, disse a presidente da agremiação, Camila Mendes.

O Enxota Que Eu Vou é um bloco parado, com público que gira entre mil e duas mil pessoas.  A bateria do bloco, batizada Bateria Penetrante, tem participantes LGBTQIA+ e sua rainha é Wallace Terra, drag queen cujo nome artístico é WQueer.

O tema do Carnaval 2026 são os 15 anos do bloco. “Neste carnaval, a gente vai trazer os sambas que mais tocamos nesses 15 anos, que fizeram sucesso, mas também trazendo sambas antigos”. A concentração está marcada para as 13h do dia 17 de fevereiro, na Praça Tiradentes, com evolução a partir das 15h.  

Divinas Tretas faz retificação de prenome e gênero

A festa momesca deste ano vai além da música, promovendo ações de retificação de documentos para pessoas trans e o fortalecimento da moda sustentável feita pela comunidade LGBTI+. O bloco Divinas Tretas, herdeiro do histórico Toco-Xona (fundado em 2007), desfila no dia 15 de fevereiro, na Praia do Flamengo, com uma missão que ultrapassa o repertório de pop e axé.

Em uma iniciativa inédita, o bloco promoverá a requalificação e retificação de prenome e gênero para pessoas trans e não-binárias em situação de vulnerabilidade. A ação é parte do ecossistema cultural Carnabendita, que conecta 13 blocos cariocas. Segundo a diretora Natália Guimarães, o objetivo é utilizar o Carnaval como ferramenta de justiça social. “Decidimos concentrar esses esforços no Divinas Tretas para garantir que o carnaval seja, além de festa, um instrumento de cidadania”, afirma.

Para o desfile, a estrutura contará com:

  • Contratação prioritária: Equipes compostas majoritariamente por profissionais LGBTQIA+, trans e não-binários.

  • Acessibilidade e Segurança: Espaço reservado e gradeado, intérpretes de Libras e sanitários inclusivos (com articulação junto à Riotur para replicar o modelo nos banheiros públicos externos).

  • Conscientização: Campanhas contra a violência feminina (Ligue 180), divulgação da Lei Maria da Penha via QR Codes e distribuição de preservativos.

Universo Spanta e Escola de Divines: moda e renda

Paralelamente à folia de rua, o festival Universo Spanta 2026, na Marina da Glória, consolidou uma parceria estratégica com a Escola de Divines, projeto do programa Rio Sem LGBTIfobia. A colaboração foca na economia criativa e na geração de renda para 17 alunos — em sua maioria mulheres trans e travestis.

Os participantes das oficinas foram responsáveis pela criação de brindes (necessaires, cartucheiras e bolsas de praia) e pelos figurinos dos apresentadores do festival, Vic e Alex. O diferencial está na matéria-prima: todo o material utilizado é reciclado da cenografia da edição de 2025 do próprio festival.

Queremos mostrar ao grande público a contribuição que a população trans oferece à sociedade através da sustentabilidade e do aprendizado técnico”, destaca o estilista Almir França, coordenador da Escola de Divines.

Os produtos exclusivos estarão disponíveis na Loja do Spanta, localizada na Marina da Glória, durante todo o período do evento, aberto no dia 12 e que termina neste domingo (26/1).

Da Agência Brasil, com Assessorias e Redação

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