O Carnaval do Rio de Janeiro é mundialmente conhecido por seus brilhos, mas sua face mais profunda reside na capacidade de abraçar todas as existências. Em 2026, os tradicionais blocos de saúde mental reafirmam o asfalto como um território de cura, trazendo para o centro da folia usuários da rede de atenção psicossocial, familiares e profissionais de saúde. Sob o lema do cuidado em liberdade, essas agremiações provam que a alegria é um direito fundamental e uma ferramenta poderosa de inclusão.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS-Rio), essas iniciativas são essenciais para o combate a estigmas. Para o superintendente de Saúde Mental, Hugo Fernandes, o movimento reafirma que pessoas em sofrimento psíquico pertencem à cidade. “Os blocos são espaços de expressão e cidadania, fundamentais para uma política de cuidado em liberdade”, pontua.
Zona Mental: a força do subúrbio e a herança nordestina
Abrindo o calendário no dia 6 de fevereiro, o bloco Zona Mental levará a Bangu a união entre a resistência da Zona Oeste e a riqueza cultural do Nordeste. Criado em 2015 para promover a reintegração social, o bloco homenageia em 2026 os migrantes nordestinos da região. O samba-enredo destaca o gênio Hermeto Pascoal, que foi morador de Bangu e faleceu no ano passado.
Para a musicoterapeuta Débora Rezende, que divide a presidência com a usuária Rogéria Barbosa, o objetivo é a integração total. “A ideia é essa: todo mundo junto e misturado”, afirma, destacando que a agremiação reúne cerca de 15 serviços de saúde e conta com o apoio de integrantes da Mocidade e da Unidos de Bangu.
Tá Pirando, Pirado, Pirou!: 25 anos de luta antimanicomial
No dia 8 de fevereiro, a Urca recebe o Tá Pirando, Pirado, Pirou!, que celebra um marco histórico: os 25 anos da Lei 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica). O enredo rende tributo ao psiquiatra italiano Franco Basaglia, cuja passagem pelo Brasil em 1979 foi decisiva para denunciar os horrores dos antigos manicômios, comparados por ele a campos de concentração.
Acompanhado pela bateria da Portela e pelos blocos Céu na Terra e Vem Cá Minha Flor, o desfile transforma a Avenida Pasteur em um manifesto vivo pela liberdade e pela valorização da vida, conforme destaca o fundador e psicanalista Alexandre Ribeiro.
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Império Colonial: a arte de Arthur Bispo do Rosário
Em Jacarepaguá, o Império Colonial desfila no dia 10 de fevereiro honrando a memória de Arthur Bispo do Rosário. O artista, diagnosticado com esquizofrenia, viveu quase meio século na Colônia Juliano Moreira e provou que a criatividade não conhece barreiras.
A diretora do Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira, Luciana Cerqueira, ressalta que, pela primeira vez, o bloco desfilará com alas estruturadas, fruto do amadurecimento da agremiação. O enredo, escrito pelo usuário Alex de Repix, convida o público a navegar “pelos 7 ares da imaginação”.
Loucura Suburbana: raízes no Engenho de Dentro
Encerrando a programação no dia 12 de fevereiro, o veterano Loucura Suburbana completa 26 anos. O bloco, que revitalizou o carnaval de rua do Engenho de Dentro, espera atrair mais de 3 mil foliões. O enredo “Baluartes, Território e Loucura” sintetiza a identidade do grupo e sua ocupação afetiva do espaço urbano.
A coordenadora Ariadne Mendes reforça que o bloco é um pilar da comunidade. Para garantir a inclusão de todos, o barracão oferece empréstimo de fantasias e maquiagem gratuita no dia do desfile. “É um lugar de encontro e alegria”, resume.
Agenda dos blocos – Carnaval 2026
| Bloco | Data | Horário | Local de Concentração |
| Zona Mental | 06/02 | 17h | Praça Guilherme da Silveira, Bangu |
| Tá Pirando, Pirado, Pirou! | 08/02 | 15h | Av. Pasteur, Urca (altura da Unirio) |
| Império Colonial | 10/02 | 14h30 | Praça N. Sra. de Fátima, Jacarepaguá |
| Loucura Suburbana | 12/02 | 16h | Inst. Municipal Nise da Silveira, Eng. de Dentro |
Fonte: SMS-Rio e Agência Brasil







