A tragédia provocada pelas chuvas intensas na Zona da Mata mineira, que resultou em 72 mortos em Juiz de Fora e Ubá e milhares de desabrigados em cidades da região gerou um alerta crítico das autoridades de saúde.
O cenário de emergência climática que atinge Minas Gerais e diversas regiões do Brasil traz um alerta duplo para a saúde pública. Se por um lado o contato com águas contaminadas acende o sinal vermelho para o surto de leptospirose, o acúmulo de água parada após os temporais acelera o ciclo de reprodução do Aedes aegypti.
O fator climático e a explosão de criadouros
Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2025, o país ultrapassou 840 mil casos apenas no primeiro trimestre. As projeções para 2026 são ainda mais preocupantes: um estudo do projeto internacional IMDC (InfoDengue-Mosqlimate Dengue Challenge), em parceria com a Fiocruz e a FGV, estima que o Brasil possa registrar 1,8 milhão de casos este ano, com São Paulo e Minas Gerais concentrando a maior parte das ocorrências.
A relação entre o clima e a doença é direta. Segundo a infectologista Tassiana Galvão, da Santa Casa de São Roque (unidade gerenciada pelo Cejam no interior de São Paulo), o excesso de chuvas amplia os focos de reprodução, resultando em maior circulação dos quatro sorotipos do vírus (DENV-1, 2, 3 e 4).
As mudanças climáticas, o aumento das temperaturas e a urbanização desordenada criam o “ambiente perfeito” para o mosquito. De acordo com Juliana Damieli, pesquisadora da Basf, o calor acelera o desenvolvimento do inseto, enquanto a umidade favorece a sobrevivência das fêmeas.
Os ovos do Aedes aegypti são resistentes e podem permanecer viáveis por meses em ambientes secos, eclodindo assim que voltam a ter contato com a água”, explica.
Como diferenciar a dengue de outras viroses
Com a circulação simultânea de diferentes vírus, o diagnóstico precoce é fundamental. A dengue costuma se manifestar com:
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Febre alta e mal-estar intenso;
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Dores fortes no corpo e de cabeça;
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Ausência de sintomas respiratórios (diferente da gripe e Covid-19, que apresentam tosse e coriza).
A atenção deve ser redobrada para os sinais de alarme, que indicam risco de gravidade: dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos e sonolência. Nestes casos, a busca por atendimento médico deve ser imediata.
Importante: A automedicação é um risco grave. Anti-inflamatórios e ácido acetilsalicílico (Aspirina) devem ser evitados, pois aumentam as chances de hemorragias.
Como estratégia complementar, a vacina Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan, surge como uma esperança. Aplicada em dose única, ela demonstrou eficácia de 100% contra hospitalizações nos estudos clínicos.
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Prevenção dentro de casa: o foco no ambiente
Cerca de 80% dos criadouros estão dentro das residências. O Cejam Ambiental, em articulação com o Programa Ambientes Verdes e Saudáveis (PAVS), tem intensificado visitas domiciliares para identificar focos negligenciados. Bruno Saito, gestor ambiental do Cejam, alerta que não basta trocar a água dos vasos; é preciso lavar os recipientes para eliminar ovos e larvas.
Uma dica prática para ralos pouco utilizados — como os de áreas de serviço ou banheiros externos — é a aplicação semanal de sal de cozinha, que ajuda a interromper o ciclo de vida do mosquito na caixa sifonada.
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O controle de zoonoses pós-chuvas à luz da Saúde Única
A tragédia em Minas Gerais evidencia que falhas no planejamento urbano e na gestão do território potencializam os fenômenos climáticos. Sob o pilar da Saúde Única (One Health), torna-se claro que a proteção da vida humana é inseparável da saúde ambiental e do controle de zoonoses. O combate à dengue não é apenas uma questão médica, mas um desafio que envolve saneamento, educação e equilíbrio dos ecossistemas.
A interconexão entre a saúde humana, o manejo ambiental e o controle de vetores animais é o único caminho sustentável para enfrentar o avanço de zoonoses e arboviroses em um planeta sob pressão climática. O aumento da temperatura e as chuvas extremas não apenas destroem infraestruturas, mas alteram o ecossistema, favorecendo doenças e afetando o bem-estar mental das comunidades. Integrar essas frentes — ambiente, animais e humanos — é a diretriz central para a adaptação climática e para as políticas de prevenção.
Com Assessorias

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