A tragédia em Minas Gerais expõe mais uma vez a urgência do debate sobre o enfrentamento ao ‘novo normal do clima’ no Brasil, sobretudo durante a temporada mais quente do ano. O verão é a estação do ano com maior registro de desastres nas últimas três décadas (44%). As projeções meteorológicas para o verão de 2026 já indicavam a ocorrência de temperaturas acima da média histórica e volumes elevados de precipitação em diversas regiões do país. Além dos impactos materiais, os efeitos dos fortes temporais e inundações sobre a população são expressivos.
Entre 1991 e 2023, os desastres relacionados às chuvas provocaram 4.247 mortes, deixaram 8,7 milhões de pessoas desabrigadas ou desalojadas e causaram ferimentos ou doenças em cerca de 654 mil brasileiros, como apontou recentemente um estudo da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica. O levantamento mostra que os desastres associados a chuvas extremas aumentaram 320% no país na atual década. Foram 7.539 eventos entre 2020 e 2023, contra 2.335 na década de 1990.
Este cenário amplia riscos sanitários e pressiona estruturas públicas e privadas responsáveis por serviços essenciais. Mesmo assim, governos estaduais e municipais não se prepararam para enfrentar os prejuízos materiais e perdas de vidas humanas. Para ambientalistas, o que está acontecendo em Minas Gerais é resultado de uma tragédia anunciada, assim como ocorreu no Rio Grande do Sul em 2024 e também na Região Serrana do Rio de Janeiro.
Governador de Minas culpa municípios pela falta de prevenção
Segundo Greenpeace Brasil, a ausência de políticas públicas de adaptação e mitigação efetivas para o enfrentamento às chuvas e demais eventos climáticos extremos contribuem para esse cenário devastador. Dados oficiais do Portal da Transparência de Minas Gerais, por exemplo, apontam que houve uma redução de 96% de investimentos voltados à infraestrutura de enfrentamento às chuvas no estado: entre 2023 e 2025, os valores destinados a essa finalidade passaram de cerca de R$ 135 milhões para pouco menos de R$ 6 milhões.
Questionado sobre a falta de investimentos em entrevista à Globonews na noite desta quinta-feira (26), o governador de Minas, Romeu Zema, preferiu dizer que no governo anterior, do PT, o investimento foi muito menor, sem detalhar números, e culpou a natureza, admitindo a existência das mudanças climáticas, o que por negacionistas do clima da extrema direita.
Zema ainda jogou a responsabilidade para os municípios dizendo que o Estado enviou aos municípios mineiros kits de prevenção de chuvas. A reportagem apurou que cada kit é composto por uma caminhonete 4 x 4, um notebook, uma trena digital e quatro coletes reflexivos. Como se isso fosse suficiente para evitar os danos causados pelas fortes chuvas, principalmente nesta época do ano.
Mais de 4,2 mil brasileiros morreram em decorrência de chuvas no Brasil entre 1991 e 2023
A Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica alerta que essa é a estação do ano com maior registro de desastres climáticos relacionados às chuvas no Brasil, concentrando 44% dos eventos ocorridos nas últimas três décadas. Além dos impactos materiais, os efeitos sobre a população são expressivos.
O estudo revela que 83% dos municípios brasileiros já enfrentaram ao menos um desastre associado às chuvas, proporção que mais do que triplicou desde os anos 1990. No total, 91,7 milhões de pessoas foram afetadas por esses eventos entre 1991 e 2023. Apenas entre 2020 e 2024, os prejuízos econômicos chegam a R$ 132 bilhões, valor 123 vezes maior do que o registrado na década de 1990.
Somente nos últimos 15 anos, 74% desses eventos estiveram relacionados a chuvas intensas. Nesse intervalo, os desastres resultaram em 3.464 mortes e causaram prejuízos superiores a R$ 151 bilhões. Somente entre 2020 e 2023, foram registrados 7.539 desastres relacionados às chuvas, número muito superior aos 2.335 eventos contabilizados ao longo de toda a década de 1990.
Chuvas cada vez mais intensas por conta das mudanças climáticas
O levantamento aponta ainda mudanças no regime pluviométrico brasileiro. Até o fim do século, as regiões Sul e Sudeste podem registrar aumento de até 30% nas chuvas, enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar redução de até 40%, de acordo com dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC).
O aumento não é apenas em frequência, mas também em gravidade. Os eventos estão mais intensos, mais destrutivos e atingem um número cada vez maior de pessoas”, explica Ronaldo Christofoletti, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), professor do Instituto do Mar da Unifesp e coordenador do estudo.
Segundo ele, a intensificação das chuvas extremas está diretamente relacionada às mudanças climáticas e tende a se agravar nas próximas décadas. Diante de um cenário de chuvas intensas e eventos extremos cada vez mais frequentes em função das mudanças climáticas, a implementação de soluções eficazes é indispensável para reduzir as vulnerabilidades existentes e garantir a segurança da população.
Para os pesquisadores, os dados reforçam a urgência de investimentos em prevenção, adaptação e planejamento urbano, além da adoção de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) — como jardins de chuva, áreas verdes e sistemas de drenagem sustentável — capazes de reduzir alagamentos, deslizamentos e perdas humanas.
Desastres em decorrência de eventos climáticos não são naturais, diz Greenpeace
Organização lembra que tragédias podem ser evitadas com políticas públicas de prevenção
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que as Regiões Sul e parte do Sudeste — incluindo o sul/litoral de São Paulo, Espírito Santo e parte de Minas Gerais, onde ocorreram os atuais desastres — registraram um aumento de cerca de 30% no acumulado de chuvas anuais no período de 1991 a 2020, em comparação com 1961 a 1990.
Desastres em decorrência de eventos climáticos, sejam os de agora em Minas Gerais ou os vistos na Amazônia e nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul recentemente, não são naturais.
Eles poderiam ser evitados com planos e políticas públicas de adaptação climática eficientes nos estados e municípios, com especial atenção para as comunidades periféricas, onde a vulnerabilidade e a falta de políticas públicas é ainda maior, refletindo o cenário de injustiça climática e racismo ambiental brasileiro”, afirma a coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Leilane Reis.
A ausência de investimentos compatíveis com a dimensão do problema nos municípios e estados destinados às ações e políticas climáticas também é uma barreira para evitar tais desastres. “Sem financiamento adequado para políticas de adaptação e para a implementação de medidas preventivas, as consequências dos eventos climáticos tornam-se mais catastróficas”, afirma Reis.
Diante do atual cenário de agravamento dos eventos climáticos, o Greenpeace Brasil classifica como fundamental que todos os municípios avancem com o desenvolvimento de suas políticas e planos de adaptação climática, alinhados ao Plano Clima, com apoio dos Estados e do Governo Federal.
Apenas 3,28% do orçamento federal para obras de redução e mitigação de desastres

Divulgado em janeiro de 2025, um levantamento do Greenpeace Brasil sobre a destinação do orçamento na Lei Orçamentária Anual (LOA) ao Programa de Gestão de Risco e Desastres mostra que o Brasil planejou, dentre as ações de prevenção nos últimos dez anos (de 2015 a 2025), em média, apenas 3,28% do orçamento federal para obras para redução e mitigação de desastres.
O estudo mostra que para ações de defesa civil, que contempla também resposta e emergência, a destinação foi de 37%. O levantamento do Greenpeace traz outros dados preocupantes sobre as ações de prevenção que foram destinados pela LOA nos últimos dez anos, como:
- Somente 2,1% em média do valor alocado foi para ações de monitoramento, sistemas de alertas e informações sobre riscos de desastres;
- Apenas 8,4% do orçamento federal foi destinado para obras de contenção de encostas em áreas urbanas;
- 25% foi para sistemas de drenagem urbana e manejo de águas pluviais em municípios sujeitos a eventos recorrentes de inundações, enxurradas e alagamentos.
- 6,67% para estudos, projetos e obras para contenção de cheias e inundações
Falta planejamento nos municípios, diz Trata Brasil
Falta de drenagem resulta em alagamentos que afetam a mobilidade urbana e geram prejuízos diretos à população
Durante o verão, é comum a ocorrência de maiores precipitações e chuvas intensas, o que evidencia a vulnerabilidade dos sistemas de drenagem e do manejo de águas pluviais nas cidades. Sem um sistema de drenagem adequado, frequentemente são registrados alagamentos que afetam a mobilidade urbana e, principalmente, invadem as residências da população, gerando prejuízos diretos para a vida das famílias.
Um estudo do Instituto Trata Brasil alerta que, entre os principais desafios para a efetiva integração da drenagem ao saneamento básico, está a necessidade de planejamento adequado por parte dos municípios. No Brasil, a responsabilidade pela operação dos serviços de drenagem e manejo de águas pluviais é majoritariamente do poder público, sendo conduzida, na maior parte dos casos, pelas administrações municipais diretas.
Diferentemente de outros componentes do saneamento básico, como abastecimento de água e esgotamento sanitário, que frequentemente contam com companhias estaduais ou privadas, os serviços de DMAPU são raramente delegados a entidades privadas ou mistas.
De acordo com o diagnóstico do Sinisa (ano-base 2023) sobre o setor, dos 4.958 municípios que responderam ao módulo de drenagem e manejo de águas pluviais do SINISA, 4.909 declararam que a operação do sistema é realizada pela Administração Direta, o que representa 99% do total.
É importante destacar que nenhum município informou a administração privada desses serviços, o que contrasta com os setores de abastecimento de água e esgotamento sanitário”, diz a Trata Brasil.
Para superar os desafios existentes nos sistemas de drenagem urbana e no manejo de águas pluviais, a entidade propõe o planejamento integrado desses serviços com os demais componentes da infraestrutura de saneamento básico.
Os entes responsáveis pela operação da drenagem urbana devem atuar na elaboração e implementação de planos diretores, compreendendo o grau de importância desses serviços para a qualidade de vida da população e a sustentabilidade das cidades”, diz a Trata Brasil.
Verão concentra 44% dos registros de desastres ambientais
Lançado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, o relatório “Temporadas das Águas: O Desafio Crescente das Chuvas Extremas”, coordenado pelo Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Unesco e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
De acordo com o Atlas Digital de Desastre no Brasil (2023), que reúne dados do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional no período, foram registrados 25,94 mil eventos hidrológicos de desastres. Ao todo. 91,7 milhões de pessoas foram afetadas desde 1991. O estudo mostra que 83% dos municípios brasileiros já enfrentaram algum evento extremo relacionado às chuvas. Os prejuízos econômicos chegam a R$ 132 bilhões entre 2020 e 2024.





