Condenado e preso pela trama golpista de 8 de janeiro de 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro, de 70 anos, afirmou, durante audiência judicial, que sofreu um “surto” motivado por paranoia e confusão mental, supostamente desencadeadas por medicamentos comuns contra soluço e vômito, associados a medicamentos psiquiátricos . O episódio, que gerou ampla repercussão pública e política, levantou dúvidas sobre os reais efeitos colaterais desses remédios e sobre o uso indiscriminado de termos técnicos ligados à saúde mental.

Para esclarecer o que realmente está em jogo em situações como essa, o médico Thyago Henrique, pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein, explica que há uma definição clínica precisa para o chamado “surto psiquiátrico” — e que ela difere, em muito, do uso popular do termo.

Quando falamos em ‘surto psiquiátrico’, estamos nos referindo a uma alteração aguda do funcionamento mental, com perda do contato com a realidade. É um episódio psicótico, caracterizado por delírios, alucinações e comportamento desorganizado. No cotidiano, qualquer explosão emocional vira ‘surto’, mas na psiquiatria, é algo mais grave, que compromete a segurança do indivíduo”, detalha o especialista.

Diagnósticos como metáfora: um risco invisível

Outro ponto que preocupa o especialista é a banalização de termos como ‘surto’, ‘bipolar’ ou ‘depressão’ no discurso público — especialmente quando associados a narrativas políticas, judiciais ou midiáticas.

Usar esses termos como metáfora desvirtua seus significados clínicos e reforça estigmas. Isso prejudica quem realmente sofre com transtornos mentais, enfraquece o entendimento social e transforma a psiquiatria em algo impreciso aos olhos da população”, afirma Dr. Thyago.

Para ele, figuras públicas devem redobrar o cuidado ao tratar de saúde mental em contextos de alta visibilidade:

Essas falas moldam percepções e influenciam milhões de pessoas. Quando a psiquiatria é usada como escudo ou recurso retórico, perdemos a oportunidade de promover informação séria e acesso ao cuidado especializado”, enfatiza o especialista.

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Sintomas psiquiátricos x efeitos adversos de medicamentos

De acordo com Dr. Thyago, a confusão entre sintomas psiquiátricos e efeitos adversos de medicamentos pode atrasar o diagnóstico e complicar o tratamento. Embora incomuns, reações como paranóia e confusão podem sim ser desencadeadas por medicamentos usados para sintomas físicos — sobretudo em pessoas vulneráveis, em doses elevadas ou em combinação com outros remédios.

Alguns fármacos usados para náusea, tontura ou soluço podem atuar no sistema nervoso central e gerar agitação, alterações cognitivas ou mesmo sintomas semelhantes a delírios. Esses efeitos são exceção, mas estão descritos na literatura médica. Daí a importância de evitar automedicação e sempre buscar orientação profissional”, alerta.

Enquanto um surto psicótico típico apresenta delírios estruturados e perda de crítica sobre a realidade, reações medicamentosas costumam causar rebaixamento de consciência, sonolência e desorientação — sintomas mais flutuantes e reversíveis.

A diferença pode ser sutil, mas essencial. Por isso, só uma avaliação médica cuidadosa consegue estabelecer o diagnóstico correto”, reforça o psiquiatra.

O que fazer em situações de confusão mental?

Segundo o médico, o caminho ideal para lidar com alterações súbitas de comportamento — seja qual for a origem — começa com uma avaliação clínica completa, que deve incluir exames físicos, laboratoriais, histórico médico e análise psiquiátrica detalhada. A partir daí, é possível diferenciar um episódio psicótico de uma reação tóxica ou medicamentosa, e indicar o tratamento mais adequado.

Mais importante do que especular ou rotular, é garantir que qualquer pessoa — seja ela figura pública ou não — tenha acesso a um diagnóstico responsável, baseado em evidências e conduzido com ética”, conclui.

Com Assessorias

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