Quem nunca recorreu à internet ao sentir um sintoma estranho? Para Renata de Oliveira, essa busca foi o divisor de águas que salvou a vida de seu marido, Renato Lombardi. Após anos de sofrimento, cirurgias para fraturas acidentais, diabetes súbita e mudanças físicas inexplicáveis, a resposta veio com uma frase simples digitada no Google: “doença do rosto redondo e vermelho”.

Em menos de cinco segundos, Renata encontrou o que mais de dez especialistas não conseguiram identificar: a Síndrome de Cushing. A descoberta em 2016 e a rotina de cuidados com a condição rara agora estão documentadas no livro “Ele é Raro”, escrito a quatro mãos pelo casal e lançado em 2021 pela Editora Letramento.

A Síndrome de Cushing é uma condição que se desenvolve pelo excesso de cortisol circulando no organismo, que pode ser causado por tumores produtores de hormônios ou medicamentos corticoides. É uma situação incomum que acomete apenas 10 a cada 1 milhão de pessoas. “Ninguém pensa em fazer parte de alguma estatística tão ínfima – mas isso aconteceu com eles sem justificativa ou preparo, do dia para a noite”, diz Renata.

O choque do diagnóstico e a busca por respostas

Na primeira parte da obra, Renata narra o misto de alívio e pavor ao nomear a enfermidade. “Fiquei entusiasmada com o resultado da pesquisa, que parecia ser promissora, mas, logo na primeira leitura, acabei tomando contato com uma palavra que assusta 99,9% da população mundial: tumor“, relata.

O termo, frequentemente associado a câncer, tratamentos agressivos e, inevitavelmente, morte, não fazia parte dos planos de uma jovem família. “Eu não estava preparada para aquela descoberta. Pensei que minha pesquisa levaria a um diagnóstico simples, que poderia ser tratado com AAS, Biotônico Fontoura ou Minâncora. Mas eu estava enganada, infelizmente”.

Dia Mundial da Síndrome de Cushing

A síndrome de Cushing ocorre devido ao excesso de cortisol no organismo, o “hormônio do estresse”. É uma condição incomum, afetando cerca de 10 em cada 1 milhão de pessoas. A iluminação especial amarela no Congresso Nacional, realizada anualmente em 8 de abril, marca o Dia Mundial da Síndrome de Cushing, em homenagem ao neurocirurgião Harvey Cushing, que descreveu a doença em 1912.

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Os principais sintomas incluem:

  • Ganho de peso acentuado no tronco e pescoço;

  • Rosto arredondado (“face em lua cheia”);

  • Estrias avermelhadas ou roxas na pele;

  • Fraqueza muscular e osteoporose;

  • Alterações emocionais, como ansiedade e depressão.

A precisão do diagnóstico: por que o exame salivar é essencial?

O diagnóstico precoce é o maior aliado para evitar a deterioração física. Segundo José Viana Lima Junior, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), o cortisol salivar é frequentemente o primeiro a apresentar alterações.

“A coleta de saliva é menos invasiva e permite detectar precocemente a perda do ritmo circadiano”, explica o médico. Diferente de outros métodos, ele não sofre interferência de proteínas carreadoras, sendo mais prático para o acompanhamento clínico.

Atenção ao horário: Para investigar o excesso de cortisol, a coleta salivar deve ser feita obrigatoriamente entre 23h e meia-noite, quando os níveis hormonais deveriam estar em seu ponto mais baixo.

Cuidados com o “check-up” de rotina

Dr. Viana faz um alerta importante: a dosagem de cortisol não deve ser um exame de rotina. “O cortisol não deve ser dosado em check-ups comuns sem suspeita clínica estabelecida. É fundamental tratar a clínica do paciente, não apenas os números nos resultados”, reforça o especialista.

Fatores como o uso de anticoncepcionais orais e condições como diabetes tipo 2 podem gerar resultados falsos-positivos.

Sobre o livro “Ele é Raro”

Escrito como uma alternativa terapêutica, o livro narra a trajetória da família de forma sensível e bem-humorada. A obra transcende o relato médico para promover reflexões sobre autocuidado, empatia e a fragilidade humana.

O psicanalista Renato Tardivo, que assina o posfácio, define a obra como universal: “É um paradoxo interessante: uma história sobre alguém ‘raro’ que toca em questões comuns a todos nós”.

Além do nome em comum, os autores são paulistanos e formados em contabilidade. Hoje, Renata é designer de interiores e Renato, empresário. Eles vivem  em São Paulo com seus filhos, Elisa e Vicente, transformando a dor do passado em informação e esperança.

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