Seca no Rio Negro alerta para desafio das mudanças climáticas

Se nada for feito, ‘nossos dias estão contados’, diz vice-governador do RJ. Milícias e especulação imobiliária também ameaçam estado

Seca nos rios do Amazonas preocupa autoridades e ambientalistas em todo o Brasil (Foto: Cadu Gomes VPR)
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A tragédia da seca no Rio Negro preocupa autoridades e ambientalistas do Brasil e do mundo. De acordo com o Cemaden, unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o período de estiagem na Amazônia deve durar pelo menos até dezembro quando o fenômeno El Niño atingirá a sua máxima intensidade. Até lá, são esperadas chuvas com volumes abaixo da média na região. Diante de previsões como esta, o que esperar da vida no planeta e, consequentemente, da saúde de quem vive especialmente nas grandes cidades?

Para discutir o tema ‘O futuro da água e da energia nas cidades sustentáveis’, o Instituto Onda Azul promove, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a oitava edição da Conferência Cidades Verdes. Durante a abertura, nesta terça-feira (dia 17), o vice-governador e secretário estadual do Ambiente do Rio, Thiago Pampolha (foto abaixo), fez uma previsão pessimista. Para ele, a situação no Amazonas deve servir de alerta para o Rio de Janeiro, apesar da riqueza natural aparentemente infindável do estado, e também para todo o país.

“Nossos dias estão contados, estão caminhando para o fim. Esta é uma frase dura, difícil de ouvir e mais difícil ainda de falar. Mas, se não encararmos (as mudanças climáticas) com realidade, se não constrangermos a sociedade, se não dermos esse foco aos nossos pensamentos e ações, não vamos reverter a realidade que as mudanças climáticas estão impondo”, declarou.

Milícias, especulação imobiliária e construções irregulares também preocupam

Além das mudanças climáticas, segundo Pampolha, o Estado do Rio tem que enfrentar a força das milícias, da especulação imobiliária e das construções irregulares ameaçando áreas de Mata Atlântica que deveriam ser preservadas. O secretário ainda citou crises de abastecimento que aconteceram no passado e as tragédias das chuvas, como as de 2022 em Petrópolis, como consequências das mudanças climáticas na geografia acidentada do estado.

“Se a gente já tem uma Mata Atlântica desafiada pela milícia, pelas construções irregulares e pela falta de compreensão, de entendimento ou de educação da população, pela ambição e pela especulação imobiliária, também temos os efeitos que as mudanças climáticas nos impõem”, declarou.

Para  o vice-governador, é hora de “arregaçar as mangas”, com apoio de especialistas e de muitos estudos, mas sem perder o foco na ação.  “O Fundo da Mata Atlântica traz um horizonte não só de restauração florestal, mas de desenvolvimento verde, gerando empregos verdes, oportunidade de resgate de carbono, enfrentamento de gargalos na área de sustentabilidade visando ao desenvolvimento”, disse Pampolha.

Ele lembrou que o Rio se prepara para sediar o encontro do G-20 no ano que vem e jogar luz sobre as iniciativas em andamento que precisam de apoio internacional. Pampolha ainda citou a limpeza feita em mais de 400 rios e o investimento de R$ 250 milhões para evitar efeitos das inundações.

Chuvas abaixo da média desde maio no Amazonas

Mapa de percentil de umidade do solo para o mês de setembro. As áreas em tons de vermelho indicam os locais onde a umidade do solo está abaixo da média para setembro (Imagem: MCTI)

Segundo comunicado emitido no começo de outubro pelo Cemaden, desde o mês de maio, parte dos estados do Amazonas e do Pará vem registrando chuvas abaixo da média. A situação pode ser uma consequência do inverno mais quente provocado pelo El Niño. O déficit de chuvas registrado entre julho e setembro no interior do Amazonas e no norte do Pará foi o mais severo desde 1980.

“ Em grande parte do Amazonas, Acre e Roraima, observa-se uma anomalia de chuvas de -100 a -150 milímetros. Devido ao déficit acumulado de precipitação, a umidade do solo alcançou níveis críticos ao longo do mês de setembro”, informou o Cemaden.

O Cemaden alerta ainda que o início da estação de chuvosa, entre novembro e dezembro, costuma elevar os níveis dos rios. Contudo, com previsões abaixo da média, alguns rios podem não atingir os níveis normais em 2023. “Grande parte dos rios da região Norte, entre os estados do Amazonas e Acre, encontra-se com níveis muito abaixo da média climatológica”, diz o órgão.

Exclusão social: famílias no RJ não têm como pagar contas de água

Seminário do Instituto Onda Azul na Firjan discute água e energia nas cidades (Foto: Divulgação)

Ainda na abertura da Conferência Cidades Verdes, o enfrentamento da exclusão social foi o tema central do presidente da Cedae, Aguinaldo Ballon, ao citar o grande número de famílias que dependem do Bolsa Família para sobreviver e não têm condições de pagar contas de água, luz ou gás. “Tampouco têm condições de garantir uma educação formal adequada para fazer um uso correto de água e energia, ter a consciência de como seus hábitos impactam o meio ambiente”, ressaltou.

“A exclusão social deve permear nossas discussões sempre, em todo e qualquer planejamento. A coleta de resíduos pode ser seletiva em um ponto de uma cidade, mas em outros sequer há coleta de lixo, condições de saneamento. Se a gente quer pensar em um ambiente sustentável e em cidades verdes, precisamos ter uma sociedade mais justa, olhar para os indivíduos”, disse Ballon.

Segundo ele, a empresa precisa de um ambiente sustentável para captar água de qualidade. “Nossa preocupação é ter um ambiente ecologicamente preservado.” Ballon citou a importância de garantir a segurança hídrica para toda a população e a construção da nova estação de tratamento do Guandu para ampliar o abastecimento da Baixada Fluminense, dentro de um programa de segurança hídrica que envolve mais de R$ 5 bilhões de recursos públicos e privados.

Os painéis desta terça abordaram a universalização do acesso à água, gestão integrada de recursos hídricos e os impactos das mudanças climáticas no uso desse recurso vital. A abertura do evento contou também com o presidente do Conselho Empresarial de Infraestrutura da Firjan, Mauro Viegas Filho, e com a pesquisadora da UFRJ Aspásia Camargo.

Hidrogênio verde e descarbonização na pauta

De olho no impacto das mudanças climáticas nas cidades e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 e 7, cerca de 40 especialistas renomados debatem durante a Conferência Cidades Verdes os objetivos, as metas, os desafios e as oportunidades da Agenda 2030 e o plano de ação assinado pelos 193 países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) por um mundo melhor.

Nesta quarta-feira, segundo e último dia, os debates serão sobre “Energia e Mobilidade”, com destaque para a revolução do hidrogênio verde e as mudanças nos transportes públicos para reduzir emissões de carbono. Entre os palestrantes estão Luciano Paez, secretário municipal do Clima de Niterói, os professores Paulo Emílio Valadão de Miranda (Coppe/UFRJ), Gláucia Vieira (Universidade Federal do Tocantins) e Amanda Schutze (FGV-SP), e o coordenador sênior de Energia no Instituto Clima e Sociedade (iCS), Roberto Kishimani. 

O evento será encerrado por Ilan Cuperstein, diretor para a América Latina do C40 Cities – Grupo de Grandes Cidades para Liderança do Clima. As apresentações começam às 8h30 e vão até 17h30. Há transmissão ao vivo pelas mídias sociais do Instituto Onda Azul e seus parceiros.

A expectativa da 8ª Conferência Cidades Verdes é atrair cerca de 300 pessoas para acompanharem os oito painéis no Centro de Convenções da Firjan, no Centro do Rio. Veja aqui a programação completa e se inscreva gratuitamente para acompanhar o evento pelo site.

Mais sobre a Conferência Cidades Verdes

O evento pretende ser um “catalisador de transformações” e alinhar os eixos do desenvolvimento sustentável nas metrópoles às práticas ESG, envolvendo poder público, iniciativa privada, academia, parlamento e sociedade civil, conforme explica André Esteves, diretor-executivo do Instituto Onda Azul.

A organização da sociedade civil sem fins lucrativos, que atua na gestão de projetos socioambientais, realiza o evento desde 2011, reunindo especialistas e representantes de empresas, universidades, governos e ONGs. “Com isso, a expectativa é que as ideias se transformem em ações para que, juntos, sejamos capazes de construir um futuro mais verde e sustentável”, pontua.

Esteves fez uma homenagem ao idealizador do Cidades Verdes, o pioneiro Alfredo Sirkis, que morreu em 2020. “Sirkis dizia que as cidades são a natureza transformada, para o bem e para o mal. Que este evento contribua para que essa transformação seja para o bem”, disse Esteves.

Entre os palestrantes das quatro mesas estavam ainda o vice-presidente da Anamma (Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente), Antônio Marcos Barreto; a subsecretária de Recursos Hídricos e Sustentabilidade do Estado, Ana Asti, os diretores da Rio+Saneamento, Leonardo Righetto, e da Iguá, Leonardo Soares, o presidente do Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico, Sérgio Besserman, e o diretor do Instituto Rio Metrópole, Bruno Sansson.

O evento tem patrocínio da Eletronuclear, Ceda e Semove-RJ (Federação das Empresas de Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro) e apoio de instituições como Coppe/UFRJ, Anamma, C40 e a ONG internacional Iclei (Governos Locais para a Sustentabilidade).

Com informações do Instituto Onda Azul, Firjan e MCTI

Agenda Positiva

Ciência e tecnologia para a solução de problemas socioambientais

A Agência Bori está com inscrições abertas até esta segunda-feira (16) para o workshop “Inovação para quê? Ciência e tecnologia para a solução de problemas socioambientais”. O encontro é gratuito e online e vai acontecer pelo Zoom na quarta-feira, dia 18, das 10 às 11h30. Inscrições neste link.

Os especialistas André Wongtschowski, diretor de inovação da World Transforming Technologies (WTT), e Maria Angélica Jung Marques, gestora de ciência, tecnologia e inovação da WTT, explicarão como a metodologia de inovação orientada por missões pode ser aplicada em diversas áreas, como saúde, transição energética e agricultura de baixo carbono.

 

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