Fake news podem trazer de volta doenças já erradicadas

Modelo para o mundo, Programa Nacional de Imunização (PNI) completa 50 anos com desafio de enfrentar baixas coberturas vacinais

Gostou desse conteúdo? Compartilhe em suas redes!

As vacinas representam um marco essencial na história da saúde humana. De acordo com informações da Organização Mundial de Saúde (OMS), elas salvam a vida de três milhões de indivíduos a cada ano. A vacinação fortalece as defesas naturais do nosso organismo, prevenindo doenças graves. É uma estratégia segura e inteligente para se proteger contra doenças imunopreveníveis, ou seja, capazes de serem evitadas pelas vacinas, e manter nossa saúde e resistência em alto nível.

O Brasil celebra, em 17 de outubro, o Dia Nacional da Vacinação, que destaca a importância da imunização no combate às epidemias e pandemias. No Brasil, o Programa Nacional de Imunização (PNI), que completou 50 anos no dia 18 de setembro, é um dos mais bem-sucedidos programas de vacinação do mundo, mas hoje se vê ameaçado pela disseminação de fake news, que contribuem para as baixas coberturas vacinais na atualidade.

“Nos últimos dez anos, houve queda na procura, principalmente no período da pandemia da Covid-19. Para isso, contribuíram, além da pandemia, a infodemia de notícias falsas associada à falsa sensação de que não há mais doenças circulando”, afirma a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ), ao reforçar a necessidade de melhorar a cobertura de todas as 48 vacinas do Calendário Nacional de Vacinação.

Considerado uma referência pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o PNI eliminou doenças que, no passado, causavam milhares de vítimas no Brasil, como varíola e poliomielite, e ajudou a reduzir a transmissão de doenças imunopreveníveis. Mas, apesar da tradição do PNI, os índices têm sofrido quedas desde 2016, de acordo com o DataSUS. Desde 2019, nenhuma das vacinas oferecidas para crianças com até um ano atingiu o mínimo de 90% de cobertura, acendendo um alerta para o risco de um retorno de doenças já erradicadas, como o sarampo e a poliomielite.

“Apesar das conquistas ao longo de 50 anos, o PNI enfrenta desafios para o futuro. Infelizmente, nos últimos anos o Brasil perdeu a grande taxa de cobertura vacinal. Com a disseminação de notícias falsas sobre vacinação e o crescimento de movimentos antivacinas, as pessoas deixaram de se vacinar e, assim, de protegerem a si mesmas, filhos e a população. A taxa de cobertura vacinal no país que chegou a atingir 97% em 2015, encerrou o último ano em 72%”, diz Hugo Nisenbom, CEO da MSD (veja mais no artigo abaixo).

Risco de doenças se tornarem epidemias

Médica alerta para a sensação enganosa da população de que as doenças desapareceram e defende que campanhas em escolas, parques e ‘Dia D’ de vacinação aumentariam taxas

Recentemente, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou relatório mostrando que, entre 2019 e 2021, 1,6 milhão de crianças no Brasil não tomaram a primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (dT/dTpa). Porém, existe uma boa notícia: o Brasil registrou alta na vacinação infantil, com aumento dos índices em 2022, segundo pesquisa do Observa Infância – parceria entre a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Unifase.

Somado ao negacionismo e a desinformação que assolaram o país nos últimos anos, especialistas acreditam que a causa do problema é multifatorial, como afirma a médica pediatra e imunologista do Espaço Zune, Millena Andrade.

“Os motivos vão da percepção enganosa de parte da população, de que não é preciso vacinar porque as doenças desapareceram, a problemas com o sistema informatizado de registro de vacinação. Percebo também uma falha no calendário vacinal após a pandemia; muitas famílias começaram a questionar se realmente vale a pena atualizar o cartão”, diz.

Segundo ela, com a baixa adesão às campanhas de vacinação, o risco não é apenas de que as doenças voltem a aparecer, mas que se tornem epidêmicas. “Além de acometerem milhares de pessoas, o sistema de saúde acaba sendo sobrecarregado, o que também prejudica pacientes diagnosticados com outras doenças. Acredito que estratégias como a vacinação em escolas e parques e campanhas como o ‘Dia D’ de vacinação ajudariam a aumentar a taxa de vacinados”, defende a imunologista.

“Sempre oriento as famílias sobre a atualização do cartão vacinal e a conscientização sobre a importância da vacina é um assunto bastante discutido durante as minhas consultas. Não existe nenhuma contraindicação ou risco de vacinar as crianças a partir de seis meses de idade. Uma dica que vale para qualquer vacina: quando a criança está doente e apresenta um quadro febril, é preciso aguardar a melhora para que ela possa ser vacinada. Precisamos cuidar de nossas crianças, pois as vacinas salvam vidas”, finaliza a médica.

Como o RJ tenta reverter efeito danoso das fake news na saúde

Criado em 1973, o PNI se tornou, a partir de 1988, com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), ferramenta fundamental para garantia da saúde e da inclusão social da população brasileira e fez do Brasil referência mundial em imunização. A cada ano, distribui cerca de 300 milhões de doses de 48 imunobiológicos, entre vacinas, soros e imunoglobulinas.  O PNI também é responsável pela definição do Calendário Nacional de Vacinação, que contempla todas as vacinas de rotina – uma diretriz que acompanha os brasileiros desde o primeiro dia de vida.

O estado busca reverter a queda na procura por vacinas, principalmente contra a Poliomielite (VIP), a BCG e a Tríplice Viral, identificada pelo Ministério da Saúde de 2021 a 2023.  Entre as estratégias, está a capacitação para as equipes de imunização, Vigilância Epidemiológica e de Atenção Primária dos municípios. A pasta também orienta sobre a importância da busca ativa de não-vacinados, de visitas domiciliares e vacinação extramuros para atualização dos esquemas vacinais em atraso.
Como parte de sua estratégia para a universalização da vacinação no estado, a SES-RJ vai destinar R$ 920 mil por mês aos 92 municípios para que cada um deles tenha pelo menos uma sala de vacinação aberta todos os dias, incluindo os fins de semana e feriados. O repasse foi anunciado em 23 de agosto, durante lançamento da campanha nacional de multivacinação para crianças e adolescentes até 15 anos do Estado do Rio.
O subsecretário de Vigilância e Atenção Primária à Saúde do Estado do Rio de Janeiro, Mário Sérgio Ribeiro, destaca a importância da data e do PNI para todos os brasileiros e ressalta ainda que a vacinação é garantida de graça a todos e foi fundamental para melhorar a saúde no país.
“Quem deseja se proteger e proteger seus filhos pode procurar um posto de saúde e se prevenir de doenças que foram eliminadas, como poliomielite e sarampo, que correm o risco de ser reintroduzidas por conta das baixas coberturas. A gente precisa entender que o país evoluiu, a saúde do Brasil melhorou, a mortalidade infantil foi reduzida graças à vacinação. Vamos comemorar que esse é um direito a que toda a população tem acesso gratuitamente”, diz.

Vacinas são essenciais para mulheres, principalmente grávidas

A Federação Brasileira de Ginecologia Obstetrícia (Febrasgo) ressalta que, para o público feminino, existem vacinas específicas ao longo da vida que não devem ser negligenciadas, como a vacina contra o HPV.

Esta vacina é disponibilizada gratuitamente para meninas a partir dos 9 anos até os 14 anos, para mulheres que vivem com HIV, transplantados de órgãos sólidos, de medula óssea ou pacientes oncológicos na faixa etária de 9 a 45 anos. Nas clínicas particulares, a vacina quadrivalente está disponível para meninas e mulheres de 9 a 45 anos.

A ginecologista Cecília Maria Roteli Martins, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo, diz que a vacinação do HPV evita lesões benignas como as verrugas genitais em homens e mulheres, e que apesar de benignas, são extremamente infecciosas e desconfortáveis.

“As mulheres acima dos 15 anos que ainda não se vacinaram, podem se beneficiar da vacinação disponível na rede privada, em esquema de três doses”, complementa a médica.

A vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo, Nilma Antas Neves, explica que existem três vacinas primordiais para a imunização de gestantes – Influenza, Hepatite B e dTpa-tríplice bacteriana (difteria, tétano e coqueluche). 

A vacina dTpa é recomendada em todas gestações, é ela quem protege a gestante durante a gravidez e transfere anticorpos para o feto, protegendo-o em seus primeiros meses de vida até que possa ser vacinado.

“Os adolescentes e adultos estão sendo reconhecidos como as principais fontes de transmissão da coqueluche para os recém-nascidos e crianças ainda não vacinadas ou com sua imunização incompleta. As mães também têm apresentado uma participação relevante nessa transmissão”, explica Dra. Nilma.

Gestantes também são grupo de risco para as complicações da infecção pelo vírus da Influenza. “A gripe está associada ao aumento de hospitalizações e doenças de maior gravidade em gestantes e neonatos”, afirma a médica.

Sobre a importância da imunização de gestantes contra a Hepatite B, Neves complementa: “O objetivo principal da vacinação contra Hepatite B durante a gravidez é evitar a aquisição materna desse vírus e consequente proteção do seu recém-nascido.”

Vacinas disponíveis no SUS para bebês e crianças

Na época de tempo seco, aumenta a circulação de muitos vírus, por isso é importante estar com a vacina da gripe (influenza/23) atualizada. A médica  pediatra e imunologista Millena Andrade orienta estar com todo o cartão vacinal em dia, uma vez que todas as vacinas são importantes para a prevenção de doenças graves como tuberculose, pneumonia, otite e meningite.

·      Ao nascimento: BCG E HEPATITE B

·      2 meses: Pentavalente/Dtp (primeira dose), Vip/ Vop (primeira dose), Pneumocócica 10 Valente (primeira dose) e Rotavírus (primeira dose).

·      3 meses: Meningocócica C (primeira dose)

·      4 meses: Pentavalente/Dtp (segunda dose), Vip/ Vop (segunda dose), Pneumocócica 10 Valente (segunda dose) e Rotavírus (segunda dose).

·      5 meses: Meningocócica C (segunda dose)

·      6 meses: Pentavalente/Dtp (terceira dose), Vip/ Vop (terceira dose)

·      9 meses: Febre amarela

·      12 meses: Reforço pneumocócica 10 Valente, Reforço meningocócica C e Tríplice Viral

·      15 meses: DTP/Penta (primeiro reforço), Vop/ Vip (primeiro reforço), Hepatite A (primeiro reforço) e Tetra Viral

·      4 anos: DTP/Penta (segundo reforço), Vop/ Vip (segundo reforço) e Varicela (segunda dose)

·      Influenza e Covid: A partir de 6 meses

Palavra de Especialista

Meio século do PNI e a contribuição atemporal das vacinas para a saúde

Por Hugo Nisenbom, CEO da MSD*

Há mais de 300 anos, uma descoberta mudaria todo o rumo do cuidado com a saúde: o desenvolvimento da primeira vacina. Desde 1990, mais de 1,1 bilhões de crianças foram imunizadas contra doenças evitáveis ​​por vacinação, reduzindo a mortalidade infantil para metade e salvando 4 a 5 milhões de vidas por ano, e abrindo o caminho para o desenvolvimento de outras vacinas que iriam proteger a todos e erradicar doenças.

Não há dúvidas de que a prevenção é a estratégia mais eficaz para combater doenças. Não à toa, sempre que se enfrenta um surto de alguma enfermidade, ou busca-se proteção contra males de difícil cura e alto risco à vida, estuda-se uma forma de imunização. Hoje, por exemplo, estão sendo pesquisadas vacinas eficazes contra dengue, HIV e, até mesmo, contra tipos de câncer.

No Brasil, há 50 anos uma iniciativa do Ministério da Saúde transformou a saúde pública do país e salvou milhões de vidas: a criação do Programa Nacional de Imunização (PNI), em 18 de setembro de 1973. Referência mundial, sua atuação inclusiva disponibiliza as vacinas gratuitamente para toda a população, garantindo a equidade no acesso à saúde.

O programa contribuiu significativamente para a erradicação e controle de diversas doenças, como sarampo, poliomielite, difteria, tétano, entre outras. Além disso, tem desempenhado um papel fundamental na prevenção de epidemias e surtos de doenças infecciosas.

A indústria farmacêutica e de biotecnologia desempenha um papel fundamental na história do PNI. Desde o início, a parceria entre o setor público e privado foi crucial para viabilizar a produção e distribuição de vacinas em larga escala. Este trabalho conjunto permitiu que o PNI acompanhasse as evoluções científicas e tecnológicas, incorporando vacinas modernas e mais eficazes ao calendário nacional de imunização. E é com grande satisfação que a MSD é companheira da iniciativa do país, oferecendo vacinas contra diversas doenças. 

Celebrar os 50 anos de PNI é essencial, ainda mais neste cenário, no qual precisamos reforçar a importância de um programa de imunização sólido e eficiente, capaz de salvar vidas e proteger a população de doenças. Temos de exaltar o seu compromisso com a saúde pública brasileira e nos dedicarmos, entidades públicas, privadas e todos os cidadãos, para que o Brasil volte a ser referência na imunização de sua população e, consequentemente, na erradicação de doenças.

O Programa Nacional de Imunização é um legado de sucesso para o Brasil, um exemplo de colaboração entre diferentes atores e uma história de dedicação à saúde e ao bem-estar da população. Que os próximos 50 anos do PNI sejam marcados por avanços contínuos, inovações e, acima de tudo, pela proteção da vida de todos os brasileiros.

Com Assessorias

Gostou desse conteúdo? Compartilhe em suas redes!

You may like

In the news
Leia Mais
× Fale com o ViDA!