Estimativas internacionais indicam que até 3,5 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), popularmente chamadas de infecções hospitalares. No Brasil, elas continuam sendo uma das maiores ameaças à segurança do paciente.
Estimativas recentes apontam que entre 5% e 14% dos pacientes em hospitais brasileiros adquirem alguma infecção durante a internação, impactando tanto qualidade da assistência quanto custos hospitalares. Estima-se que ocorram 400 mil casos de sepse em adultos anualmente nas unidades de terapia intensiva (UTIs) brasileiras.
Quando a infecção não é controlada rapidamente, ela pode evoluir para o choque séptico, uma condição crítica onde a pressão arterial cai drasticamente e os órgãos param de funcionar. Para cada infecção evitada, impede-se que o paciente evolua para quadros graves como a sepse e o choque séptico, que figuram entre as principais causas de morte em hospitais brasileiros.
Trata-se de um problema silencioso, mas de grandes proporções. É uma dor compartilhada por milhares de brasileiros. Segundo dados da Associação Médica Brasileira (AMB), são mais de 45 mil mortes por ano atribuídas às infecções hospitalares no país — um número que pode chegar a 100 mil, conforme estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A taxa de mortalidade pode ultrapassar 30% para sepse e 50% para choque séptico, chega a 60% em alguns cenários, bem acima da média global, de acordo com literatura e estudos médicos sobre o quadro epidemiológico nacional.
No Brasil, calcula-se que cada infecção evitada poupe aos cofres públicos entre R$ 60 mil e R$ 110 mil. No entanto, para quem está do lado de fora da UTI, o impacto do valor é incalculável. Para além dos números, a redução representa vidas preservadas e um alento para milhares de famílias que, diariamente, confiam o cuidado de seus entes queridos ao sistema de saúde.
Resultados positivos de um projeto que já demonstra impacto real
Projeto busca humanizar o atendimento e evitar tragédias familiares causadas por falhas na assistência hospitalar
A luta contra as infecções hospitalares ganhou um reforço estatístico de peso no Brasil. A redução dos casos em UTIs públicas deixou de ser apenas uma meta técnica e passou a representar um avanço concreto na proteção de vidas na rede pública.
Uma boa notícia surge com o projeto Saúde em Nossas Mãos: uma iniciativa colaborativa que atua em UTIs de hospitais públicos e conseguiu reduzir em 26% as infecções hospitalares entre setembro de 2024 e outubro de 2025 em UTIs adultas, pediátricas e neonatais da rede pública, gerando uma economia estimada em R$ 150 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS).
O projeto é desenvolvido por hospitais de excelência — como Albert Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz — que integram o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), capitaneado pelo Ministério da Saúde.s.
Um drama que atravessa gerações: quando o dado vira dor real
Números e projetos mostram que é possível melhorar, mas continuam muitas vidas em risco. Por trás das estatísticas, existem histórias interrompidas de forma precoce. Vida e Ação já publicou relatos de familiares que perderam entes queridos em decorrência de infecções hospitalares associadas a falhas assistenciais.
Aqui, esse tema é tratado com o rigor de quem conhece a dor da perda. No Vida e Ação, esse tema é tratado com o rigor de quem conhece a dor da perda. Eu mesma já tornei pública aqui a perda do meu pai, aos 51 anos, vítima de uma infecção hospitalar decorrente de erro médico.
Ocorrido em 1997, em um hospital filantrópico do interior do Rio de Janeiro, este caso ilustra como a ausência de protocolos eficazes e de vigilância ativa pode transformar uma internação em um desfecho fatal. Histórias como as que eu e minha família vivemos reforçam que cada percentual de redução representa vidas preservadas, sofrimento evitado e famílias que não precisarão enfrentar lutos que poderiam ter sido prevenidos.
Foco na prevenção de infecções graves em três frentes de combate
A redução de 26% alcançada com o novo projeto sinaliza que protocolos rígidos e a colaboração entre instituições de excelência podem mudar esse cenário. A iniciativa atua diretamente no enfrentamento das três principais causas de infecção em UTIs, que aumentam a mortalidade e o tempo de internação e são causadas por dispositivos invasivos, que são as portas de entrada para bactérias resistentes:
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Infecção primária da corrente sanguínea: associada ao uso de cateter venoso central.
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Pneumonia associada à ventilação mecânica: comum em pacientes que precisam de aparelhos para respirar.
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Infecção do trato urinário: associada ao cateter vesical (sonda).
De acordo com Claudia Garcia, coordenadora geral do projeto, explica que medidas simples de higiene e protocolos rígidos são eficazes. “Estamos falando de infecções graves que aumentam a morbidade e os custos, mas que podem ser evitadas com medidas eficazes de prevenção”.
Segundo ela, o “Saúde em Nossas Mãos” funciona como um hub de aprendizagem, no qual profissionais de diferentes regiões compartilham experiências e soluções práticas para um problema que afeta todo o sistema. ” O projeto gera um movimento onde todos os profissionais ensinam e aprendem a proteger o paciente”.
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Avanço importante, mas ainda insuficiente
O projeto Saúde em Nossas Mãos reforça exatamente esse ponto: prevenção baseada em ciência, padronização de processos e aprendizado coletivo. Além de reduzir custos, salva vidas e melhora significativamente os desfechos clínicos dos pacientes crítica e vulneráveis.
A iniciativa reacende debate sobre segurança do paciente, responsabilidade médica e políticas permanentes no SUS, Embora os resultados sejam expressivos, especialistas alertam que projetos como este não podem ser pontuais ou restritas a UTIs selecionadas. É fundamental para levar tecnologia e gestão às unidades públicas mais remotas.
Sabemos que o desafio ainda é estrutural e há muito o que fazer. Apesar do avanço, o desafio continua.
Prevenção não é tecnologia: é cultura
Vida e Ação vem alertando, ao longo dos últimos anos, que a maioria das infecções hospitalares não está ligada à falta de tecnologia, mas sim à ausência de protocolos bem aplicados, fiscalização contínua, treinamento das equipes e cultura de segurança do paciente.
Reportagens anteriores do portal já mostraram que práticas básicas — como higienização adequada das mãos, checagem rigorosa de cateteres, uso racional de antibióticos e comunicação efetiva entre equipes — são capazes de reduzir drasticamente eventos adversos evitáveis.
No Vida e Ação, o tema da segurança do paciente é tratado com profundidade e compromisso jornalístico e humano. Entre nossas matérias relacionadas, destacamos:
🔗 Infecções hospitalares: quando a internação vira risco invisível — visão técnica e relatos de profissionais de saúde sobre o impacto das IRAS e medidas de prevenção.
🔗 Sepse: um inimigo silencioso e letal — entenda riscos, sinais e tratamentos — guia completo sobre sepse, diagnóstico e caminhos para reduzir mortalidade.
🔗 Erros médicos e infecções hospitalares: o que muda com a responsabilização profissional — análise de casos e reflexões sobre segurança clínica.
A dor que se transforma em ação
O Ministério da Saúde espera chegar ao final de 2026 com uma redução de 50% nos índices de infecção hospitalar. A meta é ambiciosa, mas só será sustentável se houver:
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incorporação permanente dos protocolos no SUS;
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fiscalização contínua e transparente;
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responsabilização em casos de falhas evitáveis;
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valorização e capacitação das equipes de saúde;
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fortalecimento da vigilância epidemiológica hospitalar.
Por que o Brasil precisa ir além de projetos pontuais
Apesar dos resultados promissores, dados nacionais mostram que o desafio ainda é estrutural:
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Transparência insuficiente: embora a Anvisa colete e publique dados sobre infecções hospitalares, há falta de detalhamento por hospital, o que limita a responsabilização e o controle social.
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Alto custo humano e econômico: internações com IRAS podem aumentar o custo diário em até 55%, além de elevar o tempo de hospitalização e complicar tratamentos.
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Sepse e choque séptico continuam prevalentes: essa é uma das complicações mais graves decorrentes das infecções, com risco de mortalidade elevado e necessidade de diagnóstico precoce e manejo especializado para reduzir mortes evitáveis.
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O direito fundamental à vida
Frequentemente abordamos no Vida e Ação a segurança do paciente não apenas como uma métrica de gestão, mas como um direito fundamental. Por isso, a disseminação desses resultados é essencial para que o cidadão conheça seus direitos e para que a gestão hospitalar seja cobrada por padrões cada vez mais altos de segurança e humanização.
Vida e Ação seguirá acompanhando o tema, cobrando políticas públicas estruturais e dando voz a pacientes, familiares e profissionais comprometidos com uma assistência segura, humana e responsável. Porque quando falamos de infecção hospitalar, não estamos falando apenas de números — estamos falando de vidas que não podem ser tratadas como estatística.
Nossa experiência pessoal ilumina o compromisso do Vida e Ação: não é apenas cobertura — é compromisso com a verdade sobre um tema que segue sendo tratado com responsabilidade. Nossa luta é pela prevenção, uma mudança efetiva no cuidado de saúde no Brasil. Porque cada infecção evitada é uma vida — ou uma família — que segue inteira.
Para o leitor, fica o alerta: a segurança do paciente é um direito. Questionar a higienização das mãos e o cuidado com dispositivos médicos não é apenas um zelo, é uma medida que salva vidas.




