No Brasil, a categoria da Enfermagem, que reúne cerca de 3 milhões de profissionais, conquistou avanços importantes nos últimos anos, como o piso salarial nacional, instituído pela Lei n.º 14.434/2022.  O texto prevê a remuneração mínima de R$ 4.750,00 para enfermeiros, 70% desse valor para técnicos de enfermagem e 50% para parteiras e auxiliares de enfermagem.

No entanto, quase quatro anos após a sanção da lei, a categoria da Enfermagem ainda enfrenta desafios para garantir a plena efetivação do piso nacional e sua segurança jurídica. Em 2025, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) recebeu mais de 11 mil reclamações sobre problemas no pagamento do piso, incluindo valores inferiores ao mínimo, descontos irregulares e atrasos.

Trata-se de um direito adquirido, resultado de anos de luta pelo reconhecimento da categoria. É preciso criar mecanismos mais efetivos de fiscalização e garantir que a lei seja cumprida em todo o país. Não podemos normalizar que profissionais essenciais para o funcionamento do sistema de saúde brasileiro trabalhem jornadas exaustivas e ainda sob esta insegurança constante”, argumenta Raul Canal, especialista em direito médico e presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem).

Atualmente, o pagamento integral do piso da enfermagem está vinculado a uma jornada de 44 horas semanais, ou seja, quem trabalha menos horas recebe proporcionalmente. Esses profissionais da saúde, no entanto, integram uma das categorias mais expostas a jornadas de trabalho exaustivas, desgastantes e marcadas por constantes riscos ocupacionais.

Luta por jornada mínima de 30 horas semanais; relator estabelece 36h

Na esteira do movimento pela aprovação da escala 6 x 1 para os trabalhadores brasileiros, a categoria da Enfermagem se mobiliza para buscar a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n.º 19, de 2024, que está pronta para deliberação no Senado Federal desde abril deste ano.

O texto, de autoria da senadora Eliziane Gama (PSD-MA), busca vincular o piso salarial de enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares de enfermagem e parteiras a uma jornada máxima de 30 horas semanais.  Também prevê um reajuste anual, que não será inferior ao índice de variação inflacionária acumulada no ano anterior.

A PEC 19/2024 foi aprovada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, no último 8 de abril, com emenda do relator, Fabiano Contarato (PT-ES), que estabeleceu a jornada de 36 horas semanais como referência, com o objetivo de ampliar a viabilidade da proposta no Congresso Nacional e garantir sua efetiva implementação.

Para o presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF), Elissandro Noronha, a jornada reduzida é essencial para proteger a saúde física e mental dos profissionais, garantindo assistência mais segura para a população. Além disso, a luta pelo reajuste anual do piso visa a construção de uma política permanente de valorização da enfermagem. “Não podemos permitir que o piso salarial perca seu valor ao longo do tempo ou fique sujeito a inseguranças jurídicas constantes”, argumenta.

Controvérsias e implementação do piso nacional

Ainda em 2022, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.222 resultou na suspensão liminar da lei no Supremo Tribunal Federal (STF), por falta de definição da fonte financiadora e riscos na empregabilidade no setor. Após a Emenda Constitucional n.º 127/2022, que assegurou fontes de custeio para o piso, e a Lei n.º 14.581/2023, que autorizou o repasse de recursos federais a estados, municípios e ao Distrito Federal, o ministro do STF Luís Roberto Barroso determinou, em julho de 2023, a aplicação do piso salarial nacional da enfermagem no setor público, até o julgamento definitivo do mérito. A medida condicionou sua implementação ao efetivo repasse de recursos federais, com prioridade para negociações coletivas no setor privado.

O grande problema hoje está principalmente no setor privado e filantrópico. O entendimento do STF de que o piso deve ser considerado como remuneração global, e não como vencimento básico, na prática, permite que gratificações e adicionais sejam incorporados ao cálculo, dificultando ganhos reais para os trabalhadores e esvaziando parte do impacto econômico esperado pela categoria”, explica o presidente do Coren-DF.

Na avaliação do assessor de Relações Institucionais do Cofen, Gilney Guerra, a centralidade assistencial da enfermagem ainda não se converteu, na mesma velocidade, em centralidade política. “O reconhecimento social cresceu, a categoria tem dimensão numérica e relevância estratégica, mas suas pautas estruturantes continuam submetidas a longas negociações legislativas, disputas orçamentárias e sucessivas controvérsias interpretativas”, comenta.

Agenda Positiva

Semana Mundial da Enfermagem é marcada por eventos no DF e RJ

Após a projeção relativa às vítimas da Covid-19, realizada na noite de segunda-feira (11), a fachada do Congresso Nacional foi iluminada de verde como referência ao Dia Internacional da Enfermagem, celebrado em 12 de maio. Além da homenagem visual, a Câmara dos Deputados realizará um debate sobre o piso salarial nacional da categoria na Comissão de Saúde, na terça-feira (12/5), às 10h, e uma sessão solene na quarta-feira (13/5), às 9h.

O tema definido pelo Cofen para a Semana da Enfermagem 2026, “Técnica, Ética e Política: Pilares Inegociáveis do Cuidado de Enfermagem, busca levantar a pauta de valorização material, proteção institucional e maior capacidade de incidência nas decisões do Estado.

Quando uma categoria essencial precisa conviver por tanto tempo com insegurança jurídica, atraso de pagamento e interpretações fragmentadas, quem perde não é só o trabalhador. Perde também a gestão pública e perde o sistema de saúde”, conclui Guerra.

Prêmio Anna Nery homenageia mais de 230 profissionais da Enfermagem

Sessão solene no Palácio Tiradentes reuniu lideranças da categoria em defesa da valorização profissional
No Dia Internacional da Enfermagem, o Palácio Tiradentes, sede histórica da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), recebeu uma sessão solene marcada por homenagens, emoção e defesa da valorização da categoria. Presidido pela deputada estadual Lilian Behring, o evento concedeu a Moção Honrosa à Personalidade Ética, Técnica e Política do Estado do Rio de Janeiro a mais de 230 profissionais da Enfermagem.
A cerimônia também celebrou o início da Semana Brasileira de Enfermagem e promoveu a entrega do Prêmio Anna Nery, maior honraria da categoria, concedido neste ano a Danielle Costa Carvalho Bartoly, Tereza Cristina Felippe Guimarães e Marli Rodrigues Tavares.
Celebrar a Enfermagem dentro da casa do povo, dando visibilidade e reconhecimento a quem sustenta diariamente o cuidado, foi motivo de muito orgulho. Valorizar a Enfermagem é reconhecer a força de profissionais que transformam vidas todos os dias”, afirmou a deputada Lilian Behring durante a solenidade.
Reconhecimento à categoria e defesa de mais espaços de poder
Além das homenagens individuais, a sessão reforçou pautas históricas da categoria, como valorização profissional, reconhecimento institucional e fortalecimento das políticas públicas de saúde. Para Lilian Behring, a grande participação da categoria no evento demonstra a força coletiva da Enfermagem e o reconhecimento da importância desses profissionais para o funcionamento do sistema de saúde.
A Enfermagem sustenta diariamente o cuidado em todos os espaços da saúde pública e privada. Ver o Palácio Tiradentes tomado por profissionais da categoria mostra que seguimos fortalecendo essa luta por reconhecimento, dignidade e valorização”, destacou a parlamentar.
A cerimônia reuniu representantes de importantes entidades da Enfermagem fluminense, além de lideranças políticas e profissionais da saúde. Compuseram a tribuna a presidente em exercício do Coren-RJ, Rosimere Maria da Silva; a representante da presidência da ABEn-RJ, Ivone Cabral; Luciano Pinheiro, representando o Satemrj, e Hélio Delatorre da Costa, representando o Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro.
Também presente no ato, a deputada federal Enfermeira Rejane destacou a importância da ocupação de espaços políticos pela categoria e reforçou a necessidade de transformar homenagens em avanços concretos.
Essa é uma categoria fundamental para a área da saúde. Essa Casa lotada mostra que a valorização da Enfermagem não pode partir apenas de nós. A homenagem é importante, mas precisa se transformar em ações concretas. O nosso trabalho, meu e da Lilian, é justamente esse: caminhar juntas pela categoria. O sistema de saúde tem muito a ganhar quando a Enfermagem é valorizada e ocupa os espaços de poder que sempre almejou”, declarou.
Com Assessorias

 

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