A obesidade não é apenas uma questão de estética ou escolha individual; é a doença crônica mais prevalente do planeta. A dimensão do problema explica o tom de urgência: A obesidade ultrapassou a marca de 1 bilhão de pessoas afetadas globalmente, segundo os dados mais recentes da World Obesity Federation (WOF) – a Federação Mundial de Obesidade.

O cenário é de urgência: segundo a WOF, as projeções mostram que 4 bilhões de pessoas — metade da população global — deverão viver com excesso de peso e obesidade até 2035. Estima-se que atualmente a doença já seja responsável por 1,7 milhão de mortes prematuras anuais devido a doenças crônicas associadas ao excesso de peso.

No Brasil, o cenário desenhado em 2026 é de alerta máximo.  Os dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde mostram que o excesso de peso no Brasil é um fenômeno que atravessa gerações. 24,3% da população têm obesidade e 37,1% sobrepeso, de acordo com a pesquisa Vigitel de 2023.

O conceito One Health e a crise da obesidade

Comprometido com o tema, o PORTAL VIDA E AÇÃO reforça a seção Peso Saudável, em alusão ao Dia Mundial da Obesidade (4 de março), jogando luz sobre a urgência de encarar a doença como um problema estrutural que exige ação imediata de governos, empresas e sociedade.

Ao longo dos próximos dias, traremos diversas abordagens sobre o tema, dos impactos na saúde mental à febre das canetas emagrecedoras, incluindo casos de SuperAção de pessoas que lidam com a doença.

Nossa abordagem fundamenta-se no pilar editorial da Saúde Única (One Health), conceito que determina as relações intrínsecas entre saúde humana, animal e ambiental. Entendemos que o crescimento da obesidade está intrinsecamente ligado à degradação do ambiente urbano e às mudanças nos sistemas alimentares.

Cidades com altos índices de poluição, falta de espaços seguros para atividade física e a existência de “desertos alimentares” — locais onde é mais fácil encontrar um salgadinho ultraprocessado do que uma fruta fresca — demonstram que a saúde humana é indissociável da saúde do ambiente onde vivemos.

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Uma jornada de risco: do pré-natal à velhice

O impacto da obesidade no Brasil segue um curso preocupante ao longo da vida, como alerta a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). A janela de risco se abre antes mesmo do nascimento:

  • Gestação: 58,8% das gestantes acompanhadas pelo SUS apresentam excesso de peso.

  • 0 a 5 anos: 7% das crianças já apresentam peso elevado.

  • Adolescência: 35,7% dos jovens têm excesso de peso e 15,4% já vivem com obesidade.

  • Vida adulta: 73,6% estão acima do peso, sendo que 39,1% sofrem de obesidade.

  • Terceira idade: 53,4% dos idosos mantêm o padrão de sobrepeso, comprometendo a mobilidade e a autonomia.

Alimentação na infância causa maior impacto

O problema não começa no adulto, mas se forma ao longo do curso da vida e pode ser prevenido mais cedo, com sistemas mais justos, e o reconhecimento da importância de fatores como desigualdade, estigma, acesso a cuidado e ambientes que não favorecem escolhas saudáveis na construção do cenário atual”, afirma Bruno Halpern, vice-presidente da Abeso e presidente eleito da WOF para o biênio 2027-2028.

Na avaliação de Cynthia Valério, diretora da Abeso, além disso, o dado da primeira infância deve ser lido como alerta.

Quando falamos de 0 a 5 anos, estamos olhando para uma fase em que alimentação, rotina e ambiente familiar pesam muito. Ao chegar na adolescência, uma criança exposta por anos a um ambiente que favorece o consumo de ultraprocessados e o sedentarismo tende a carregar esse comportamento, e isso se reflete no salto do excesso de peso já nessa etapa”, avalia.

Na vida adulta, os números reforçam a escala do cenário. 15,5% dos já obesos estão em faixas associadas a um maior risco de complicações e necessidade de cuidado continuado (10,09% grau II; e 5,46% grau III). Para a especialista, o sobrepeso nas pessoas idosas (acima dos 60 ano) sugere a manutenção de um padrão de excesso de peso ao longo da vida.

A pessoa chega à velhice com impacto direto na qualidade de vida, com maior comprometimento da mobilidade e da funcionalidade, além do aumento do risco de comorbidades associadas”, acrescenta Cynthia.

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O custo bilionário da obesidade no Brasil: quais são as causas?

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Os números não pesam apenas na balança. O relatório Segurança Social 2035 – Obesidade, do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), revela que a condição consome até 3% do PIB brasileiro e custa mais de R$ 60 bilhões anuais ao país, entre gastos diretos com assistência e perdas indiretas de produtividade e longevidade.

O estudo utiliza esses números para fundamentar uma análise crítica sobre as causas estruturais e as consequências clínicas da doença (saiba mais no fim do texto). Especialistas defendem mudanças estruturais, como a tributação diferenciada de ultraprocessados para financiar o sistema de saúde, atacando o problema na raiz econômica.

Para a Abeso, a mensagem é de que não há solução única e que tratar a obesidade como uma falha individual apenas atrasa o enfrentamento.

A obesidade costuma ser naturalizada, diluída em rotinas urbanas e alimentação ultraprocessada. Nosso objetivo é mostrar que ela dá sinais na infância e ganha escala na vida adulta. A resposta precisa combinar prevenção desde cedo, ambientes alimentares mais saudáveis, incentivo à atividade física, redução do estigma e acesso real ao diagnóstico e ao tratamento quando necessário”, reforça Fábio Trujilho, presidente da Abeso.

Agenda Positiva

8 bilhões de razões para agir contra a obesidade

Sob o tema global “8 bilhões de razões para agir contra a obesidade”, a Federação Mundial de Obesidade (WOF) mobiliza o mundo para combater o estigma e promover sistemas mais justos. No Brasil, ações simbólicas e práticas marcam a data.

Em Brasília, acontece a iluminação especial nesta quarta-feira (4) na sede do Congresso Nacional. No Rio de Janeiro, o monumento ao Cristo Redentor. receberá a cor roxa nesta quinta-feira (5 de março) como um marco visual contra a doença, numa iniciativa da Abeso, ao lado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e do Consórcio Cristo Sustentável.

Membro da WOF, a rede Vozes do Advocacy, que integra 28 organizações de diabetes, realiza campanhas em 14 cidades brasileiras (como Jacareí, Fortaleza, Botucatu e Joinville), oferecendo desde cálculos de IMC e bioimpedância até rodas de conversa sobre alimentação consciente.

A ideia é que a campanha represente todas as pessoas afetadas pelo excesso de peso e pela obesidade  com um foco especial nas comunidades mais vulneráveis: as crianças”, diz a ONG.

Cidade Data Local/Ação
Rio de Janeiro 05/03 Iluminação do Cristo Redentor em roxo às 20h30.
Brasília 04/03 Iluminação do Senado e Câmara dos Deputados.
Fortaleza 04/03 Triagem e orientação na Praça da Igreja de Nazaré.
Jacareí 05/03 Ações educativas no Parque da Cidade (18h30).

Mais sobre o estudo do IESS sobre obesidade

O estudo do IESS vai muito além do “prejuízo” financeiro para os planos de saúde. Aqui estão os pontos fundamentais que o relatórioSegurança Social 2035 – Obesidade:

1. O impacto na longevidade e qualidade de vida

O relatório destaca que a obesidade é o gatilho para uma “cascata de doenças”. Ele mapeia como a condição reduz diretamente a expectativa de vida do brasileiro ao potencializar:

  • Doenças cardiovasculares e hipertensão.

  • Diabetes Tipo 2.

  • Apneia do sono e problemas osteomusculares (coluna e articulações).

2. Determinantes sociais e ambientais

Este é um ponto crucial do estudo: ele reconhece que o indivíduo não é o único responsável pelo seu peso. O IESS aponta que fatores do meio ambiente e da organização das cidades são determinantes:

    • Configuração urbana: Cidades que não favorecem o deslocamento a pé ou atividades físicas.

    • Desertos alimentares: Regiões onde a população tem fácil acesso a ultraprocessados baratos, mas encontra escassez de alimentos frescos e saudáveis.

    • Fatores sociais: O impacto direto da renda, educação e moradia no desenvolvimento da doença.

3. Produtividade e mercado de trabalho

O estudo analisa a “perda de capital humano”. Ele separa o custo em dois tipos:

  • Custos diretos: Gastos com internações, cirurgias bariátricas e medicamentos.

  • Custos indiretos: É aqui que o estudo fala das pessoas. Refere-se aos anos de trabalho perdidos, ao afastamento por invalidez e ao sofrimento das famílias com mortes prematuras.

4. Mudança de paradigma: prevenção X tratamento

A conclusão principal do IESS não é apenas “cortar gastos”, mas mudar a lógica do sistema de saúde. O superintendente José Cechin enfatiza que, sem políticas de prevenção e incentivos (como a tributação de alimentos nocivos), o sistema se tornará insustentável para atender a população que está envelhecendo com mais doenças crônicas.

Para saber mais sobre os impactos econômicos da obesidade, acesse o relatório completo no site do IESS e acompanhe as diretrizes de cuidado na página da Abeso.

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