Morte de menina em Rio das Ostras acende alerta para engasgos

Menina de 4 anos morreu em creche de Rio das Ostras. Estudo aponta aumento de 40% nos casos de engasgo em crianças. Saiba como socorrer

Anna Luz, de 4 anos, morreu engasgada na creche onde estudava: um caroço teria sido o motivo (Foto: Arquivo pessoal)
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A pequena Anna Luz Malta Gomes, de apenas 4 anos, morreu após se engasgar – possivelmente com uma azeitona ou semente de uma fruta – em uma creche de Rio das Ostras, no litoral norte fluminense. A tragédia ocorreu no mesmo dia em que o ex-piloto de Fórmula 1, Wilson Fittipaldi, morreu depois de complicações sofridas após também se engasgar com um pedaço de carne na ceia de Natal.

Durante o incidente, Wilsinho – irmão do também piloto Emerson Fittipaldi – ainda comemorava seu aniversário de 80 anos com a família. Ao engasgar, ficou sem respirar por alguns momentos e teve uma parada cardíaca. Ele foi reanimado, mas precisou ser hospitalizado e intubado. Passou dois meses internado no Hospital Prevent Sênior, na zona sul de São Paulo, e morreu no último dia 23 de fevereiro.

Ao contrário do ex-piloto, a morte de Anna Luz não ganhou os noticiários dos grandes veículos de imprensa no Brasil. Mas deixou em choque a população de Rio das Ostras – cidade que recebe muitos turistas do país inteiro no verão.

O caso, infelizmente, não é isolado e acende um alerta para um grave problema que atinge principalmente crianças: mortes por engasgo em crianças de até nove anos cresceram cerca de 40% de 2020 a 2022 no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde.

Bebê de 1 ano morreu após se engasgar com maçã em creche de Petrópolis

Maria Thereza morreu engasgada com pedaço de maçã em creche de Petrópolis (Foto: Reprodução de internet)

Em maio de 2022, Maria Thereza Vitorino Ribeiro, de apenas um ano e três meses, morreu após se engasgar com um pedaço de maçã servido no lanche na creche que frequentava, em Petrópolis, na Região Serrana. Na ocasião, diretora e professoras foram indiciadas pela Polícia Civil, que viu no caso “uma sucessão de erros”.

A morte da bebê de Petrópolis comoveu o país depois que apareceu no ‘Fantástico’, da Rede Globo. O programa voltou a falar no assunto neste último domingo (3), mostrando o caso de uma bebê que foi salva por bombeiros após engasgar, mas não citou a morte da menina de Rio das Ostras.

O programa trouxe ainda o depoimento da atriz Heloisa Perissé – que teve um câncer nas glândulas salivares em 2019. Ela revelou ao Fantástico que passou um aperto ao engasgar durante um almoço em família e foi salva pela sua fonoaudióloga, que estava à mesa.

Mãe de Anna Luz trabalhava na creche onde menina morreu

Anna Luz passou mal na sala de aula e foi atendida por técnicas de enfermagem que trabalham na unidade, para manobras de desengasgo. Ela chegou a ser levada por uma ambulância do Corpo de Bombeiros para o pronto-socorro da cidade, em menos de 10 minutos, mas não sobreviveu.

Laudo do Instituto Médico Legal (IML) identificou um objeto oval, que a Polícia Civil acredita ser um caroço de algum fruto. A escola diz que a menina não estava se alimentando e nem tinha alimentos nas mãos. A mãe de Anna Luz, Ludmilla Azevedo, é professora de Educação Física da escola e tinha saído duas horas antes do trabalho.

“A gente só quer saber o que aconteceu. Só isso! E a última mensagem que eu quero falar é que ela está olhando pela gente, certeza que ela está olhando para nós e ela está em um lugar bem melhor”, disse a mãe.

Segundo o delegado Ronaldo Tavares, foi determinada a realização de perícias tanto no endereço dos pais, quanto no colégio para que fosse verificada a existência na flora vocal de algum fruto que poderia coincidir com o que foi encontrado dentro da criança.

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Mortes por engasgo em crianças até 9 anos cresceram 40%

Um levantamento feito pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), a partir de dados do Ministério da Saúde, mostrou um dado alarmante: as mortes por engasgo em crianças de até nove anos cresceram cerca de 40% de 2020 a 2022 no Brasil.

Em 2022, foram 242 mortes por inalação e ingestão de alimentos ou outros objetos causando obstrução do trato respiratório — crescimento de 7,5% em relação ao registrado em 2021 (225 mortes) e de 39,8% em relação ao registrado em 2020 (173).
Do total de cada período, os alimentos são os maiores vilões, tendo sido a causa das mortes em 223 casos dos 242 registrados no ano passado, 191, em 2021 e 154, em 2020.
Os bebês até um ano de idade são as maiores vítimas, com 185 ocorrências em 2022. Na população de um a quatro anos foram 27 acidentes fatais, e de cinco a nove anos, 11 mortes. Os dados constam do Painel de Monitoramento da Mortalidade CID-10 (DataSUS), do Ministério da Saúde.

Pesquisa do SUS já tinha revelado altos números de engasgos

Anteriormente, um estudo do Sistema Único de Saúde (SUS) já tinha revelado que, entre 2009 e 2019, que das mortes por engasgo notificadas, 72% eram bebês menores de 1 ano. Além disso, de acordo com a pesquisa, o local onde ocorreram os engasgos que levaram a morte dos bebês são variados, mas em 35,98% dos casos foi no domicílio da família, e em 4,14% em outros locais.

O estudo do SUS também revelou um desconhecimento dos sinais que indicam engasgo nas crianças. Isso porque 41,8% das mães disseram que não reconheceram a crise de tosse como uma das manifestações do engasgo.

Outra questão é o despreparo para lidar com a situação. Quando o público são os profissionais de saúde, 70% disseram não saber o que fazer quando presenciaram um engasgo (mesmo os que já tinham participado de treinamentos).

Segundo o coordenador da Liga de Emergências e Primeiros Socorros da UVA, professor Vladimir Fernandes,engasgo requer uma atuação extremamente rápida em primeiros socorros, a fim de executar as manobras para a desobstrução das vias respiratórias.

“Estamos falando de minutos em que a criança fica sem respirar, o que pode ser fatal. Em todos os outros casos de acidentes, como quedas e queimaduras, é possível esperar a chegada da ambulância, mesmo que o primeiro atendimento não seja realizado”, explicou o professor.

Treinamento para pedagogos e profissionais de Enfermagem

A Liga de Emergências e Primeiros Socorros foi criada em 2017 com o objetivo de realizar atividades de ensino, pesquisa e extensão. Desde então, promove treinamentos para diversos cursos, incluindo uma disciplina eletiva para os alunos de Pedagogia, o curso de Suporte Básico de Vida. De acordo com o coordenador do curso de Enfermagem da UVA no campus Tijuca, professor Elson Santos Oliveira, todos os alunos da Pedagogia já se formam com esta capacitação.

“Para os alunos de Enfermagem também é mais uma oportunidade profissional, porque podem oferecer seus serviços nas escolas particulares, quando é terceirizado. O primeiro atendimento no trauma é o que vai fazer a diferença no prognóstico”, comentou.

O curso de atendimento básico em Primeiros Socorros visa capacitar os profissionais para lidar com situações de emergência que envolvam engasgo, afogamento, queimaduras e fraturas. Outros acidentes que podem acontecer nas escolas são convulsões e picadas de mosquitos. O objetivo é prestar o primeiro atendimento com suporte básico de vida à vítima até a chegada dos socorristas.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) também oferece cursos para treinar qualquer pessoa interessada em prestar atendimento em situações de emergência, mesmo não sendo um profissional da área da saúde. Treinamentos oferecidos pela SBC permitem o atendimento em casos de obstrução de via aérea (engasgo) e identificação de sinais de um possível infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular encefálico (AVE) e parada cardiorrespiratória, através de cenários práticos de simulação. Os Centros de Treinamento ficam no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

Lei Lucas obriga escolas a incluir técnicas de primeiros socorros

Entre os diversos riscos de acidentes a que as crianças estão expostas, o que requer uma atuação mais imediata no atendimento é o engasgo. Em 2018,  Lucas Begalli, de apenas 10 anos, morreu por sufocamento ao ingerir um cachorro-quente durante uma excursão da escola.
Nenhum dos professores que acompanhavam os alunos sabia técnicas de primeiros socorros, o que poderia ter salvado a vida do menino até a chegada da ambulância.

Alessandra, mãe de Lucas, passou a lutar para criar uma legislação que obrigasse as escolas a terem profissionais capacitados em atendimentos de urgência, e, assim, evitar que outras mães passassem pelo que ela passou ao perder seu único filho.

Em 2018, foi criada a Lei Lucas (Lei 13.722),que obriga escolas públicas e privadas, assim como estabelecimentos de recreação infantil, a terem profissionais treinados em primeiros socorros.

O curso deve ser oferecido a cada dois anos por entidades municipais ou estaduais especializadas em práticas de auxílio imediato e emergencial ou profissionais habilitados. Há penalidades para quem não cumprir a lei.

Maioria das vítimas tem até 4 anos

De acordo com a médica pós-graduada em Pediatria Ana Jannuzzi, a faixa etária que tem maior risco de engasgos é a das crianças abaixo de 4 anos. Isso porque elas têm o maior hábito de levar objetos na boca.

“Elas também não têm ainda os dentes molares, que servem para a mastigação de certos alimentos. Além disso, ainda falta a elas o mecanismo de coordenação da deglutição aprimorado. Junto a tudo isso, a laringe que é mais elevada e o reflexo de tosse que ainda não está plenamente desenvolvido”, explica.

Sabendo destes fatores, tão fundamental quanto saber resolver um engasgo é saber como diminuir seus riscos. Algumas medidas de proteção contra engasgos são:

evitar a introdução alimentar antes dos seis meses da criança,

não oferecer alimentos redondos (cortar em quatro pedaços, na vertical),

não alimentar a criança na frente da televisão ou celular, para que ela não se distraia durante a refeição,

evitar alimentos muito duros e difíceis de cortar com o dente,

ter atenção aos pequenos objetos que podem se soltar e serem levados à boca

Socorro de bebês deve ser imediato

“É importante identificar os sinais de engasgo. O bebê fica arroxeado, não consegue emitir sons, fica paralisado e faz uma cara de desespero. No caso de um engasgo parcial, pode haver uma crise de tosse. Identificados esses sintomas, ele precisa de ajuda imediata. Não adianta soprar o bebê, colocar os braços dele para cima ou gritar com a criança. Isso tudo só piora a situação e você perde tempo”, esclarece a médica.

Nesses casos, o tempo é essencial. “O primeiro passo é sempre manter a calma e pedir ajuda. Grite. Chame os vizinhos. Avise sobre o engasgo. E comece a realizar a manobra ao passo que você se dirige para um local de saúde. Se você já conhece a manobra, antes mesmo que ocorra algum caso de engasgo, teste o procedimento para ter certeza de que você sabe o que fazer”, conclui a médica Ana Jannuzzi.

Como é feita a Manobra de Heimlich

No caso do engasgo em crianças ou adultos, utiliza-se uma técnica chamada Manobra de Heimlich. A pediatra Ana Jannuzzi explica que nos casos de engasgo em bebês e crianças é essencial saber como usar a técnica. Entenda como ela é feita

Em crianças acima de 2 anos:

1) Posicione-se atrás da criança, sendo que ela fica de pé e o adulto ajoelhado.

2) Abrace a criança e apoie uma mão fechada na altura do estômago e a outra mão aberta apoiada sobre a mão fechada.

3) Pressione com força moderada a barriga da criança para dentro e para cima ao mesmo tempo.

Em bebês:

1) Coloque o bebê de bruços apoiado no antebraço e com a cabeça virada para baixo.

2) Dê cinco tapas no meio das costas e entre os ombros não muito fortes

3) Se o engasgo persistir, o bebê deve ser virado de barriga para cima, sobre o outro antebraço, pressionando cinco vezes com os dois dedos indicadores no meio do peito do bebê, entre os dois mamilos.

4) Caso chore, vomite ou tussa, é sinal que conseguiu desengasgar. Se continuar engasgado, repita o procedimento até que consiga desengasgar.

Uma fonte de pesquisa para saber como atuar no caso de engasgos, é uma cartilha, feita pela Universidade de São Paulo

 

Com informações de assessorias e do Rio das Ostras Em Foco 

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