O caso da jovem Fernanda Cristina Policarpo, 29 anos, dada como morta por uma equipe do Samu após atropelamento em Bauru, interior de São Paulo, e reanimada minutos depois por um socorrista da concessionária da Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP‑294),, expõe fragilidades críticas no atendimento pré-hospitalar e na verificação de óbito em cena.

Imagens divulgadas do acidente no último domingo (18) mostram testemunhas afirmando que a vítima “estava respirando” enquanto era mantida coberta. A Prefeitura de Bauru confirmou o afastamento da médica que constatou a morte por engano e informou que foi aberta uma sindicância para investigar o caso. A paciente segue internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base de Bauru.

Para a médica perita Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica e ex‑intervencionista do Samu do Rio Grande do Sul, o episódio expõe uma sucessão de falhas críticas no atendimento pré-hospitalar. Segundo ela, a constatação de óbito em via pública é um ato médico que exige exame minucioso e padronizado, especialmente em casos de trauma, como atropelamentos.

Em atendimento pré-hospitalar, não se declara morte por exclusão. É obrigatório verificar, de forma rigorosa, a ausência de atividade cardíaca, respiratória, resposta neurológica e comportar-se conforme protocolos do Ministério da Saúde. Na dúvida, a conduta deve sempre ser salvar a vida, nunca encerrá-la prematuramente”, afirma.

A médica explica que sinais vitais não podem ser negligenciados, mesmo que discretos.

Respiração mínima, pulso carotídeo fraco, sons cardíacos tênues, movimentação involuntária ou reatividade pupilar são sinais que obrigam a equipe a manter o atendimento. Em cenas ruidosas, com estresse elevado, o risco de erro humano existe — mas é exatamente por isso que protocolos de dupla checagem existem. Mais de um profissional deve examinar o paciente antes de declarar óbito.”

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‘Morte real é irreversível’, diz perita

A perita chama atenção ainda para um ponto-chave frequentemente confundido pelo público e até por profissionais: a diferença entre morte real e morte aparente.
“A morte aparente é reversível, ocorre quando os sinais vitais estão tão deprimidos que simulam ausência completa de vida. A morte real é irreversível. No trauma, a possibilidade de morte aparente existe e exige cuidado redobrado. Cobrir um paciente antes de confirmar definitivamente o óbito é antiético e inseguro.”

Questionada sobre as consequências jurídico-profissionais, Daitx é categórica:

Uma declaração equivocada de morte tem implicações legais e éticas severas. Pode configurar negligência, imperícia e responsabilidade administrativa, civil e até penal. Conselhos de Medicina podem instaurar processos disciplinares e o serviço pode ser responsabilizado por falhas institucionais e ausência de supervisão adequada.”

Com experiência direta em atendimento de alta complexidade, a médica destaca que episódios como o de Bauru expõem a necessidade urgente de educação continuada das equipes, padronização de condutas e fortalecimento da cultura de segurança do paciente.

No SAMU, um paciente só é considerado morto após avaliação criteriosa e, geralmente, após tentativas de reanimação conforme os protocolos internacionais. Esse caso mostra o quanto é essencial reavaliar procedimentos, treinar equipes e reforçar que, em ambiente pré-hospitalar, o protocolo precisa ser seguido à risca. Não há margem para interpretação individual.”

A perita conclui afirmando que, embora tragédias possam ocorrer em situações de emergência, erros como esse são evitáveis quando há preparo técnico e protocolos sólidos. “Esse caso precisa servir como alerta nacional. Uma vida quase se perdeu porque exame foi falho. A sociedade precisa confiar no sistema de emergência — e isso só é possível quando erros graves levam a mudanças estruturais”, finaliza.

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