Grave problema de saúde pública, as hepatites virais já são responsáveis pela morte de 1,3 milhão de pessoas por ano em todo o mundo, aproximadamente 3,5 mil por dia, segundo recente alerta da Organização Mundial de Saúde (OMS). As hepatites B e C são as que mais preocupam – a OMS estima que 354 milhões de pessoas tenham essas formas da doença, que podem ser causadas por contato sexual sem proteção e outras formas de contato com sangue ou fluidos corporais infectados.
O que pouca gente sabe é que desastres naturais, como as enchentes e alagamentos ocorridas no Rio Grande do Sul recentemente, podem contribuir fortemente para a proliferação da hepatite A. Esse tipo de hepatite viral pode ser transmitido pelo contato com as fezes ou pela ingestão de água ou alimentos contaminados, em decorrência da ausência de saneamento básico. A doença apresenta sintomas como febre, mal-estar, náuseas e pele amarelada.
A falta de higienização de superfícies como latas de bebidas, uma vez ingeridas diretamente do recipiente, pode tornar-se um foco de contágio. Por isso, é necessário e estar atento aos fatores socioambientais que provocam a infecção, ter cuidado com a assepsia das mãos e evitar acessar áreas alagadas”, comenta a infectologista Lígia Raquel Malheiro de Brito, professora da Universidade Santo Amaro (Unisa).
Diferentemente de outros processos infecciosos, as hepatites apresentam um período longo de incubação. Na hepatite A, o período varia de 20 a 50 dias. Já nas hepatites B e C o tempo de incubação é ainda maior, de 28 a 160 dias. Por isso é importante a prevenção – o contágio desses tipos de hepatite pode ocorrer pelo compartilhamento de agulhas contaminadas e relação sexual sem o uso de preservativo. A doença também pode ser causada pelo uso excessivo de medicamentos ou ingestão de bebidas alcoólicas.
Surto de hepatite A em Curitiba
Apesar de não ter sofrido com as chuvas como o Rio Grande do Sul, a cidade de Curitiba (PR) vem passando por um surto de hepatite A, com mais de 360 casos registrados e cinco mortes em 2024, contra cinco casos no ano passado. Embora na maioria dos casos contaminação ocorra de pessoa a pessoa ou por meio de alimentos contaminados, a via sexual já está comprovada e tem sido o principal meio de contágio na capital do Paraná, segundo a Secretaria Municipal da Saúde.
As hepatites virais podem ser causadas por diferentes vírus, causando sintomas variados. Enquanto em crianças costuma ser assintomática, a hepatite A em adultos apresenta sintomas semelhantes aos de uma gripe, que se manifestam cerca de um mês após a infecção, e não costuma causar maiores complicações. Porém, segundo as autoridades curitibanas, o atual surto está levando muitos pacientes à internação hospitalar.
No período de 2000 a 2022, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde teve registrados 750.651 casos confirmados de hepatites virais no Brasil. Destes, 39,8% foram de hepatite C; 36,9% de hepatite B; 22,5% foram de hepatite A; 0,6% aos de hepatite D; e 0,2% ao tipo E. Entre 2000 e 2021, o país teve 85 mil óbitos por hepatites virais.
Hepatite C matou 62 mil pessoas no Brasil em 2021
Sem vacina disponível, a hepatite C é reconhecida como a mais severa entre os vírus, afetando um número cinco vezes maior de pessoas do que o HIV/Aids. Dados do Ministério da Saúde indicaram mais de 700 mil casos de diagnósticos positivos da doença de 2000 a 2021. Só por hepatite C, foram mais de 62 mil óbitos no período.
O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 1.311.475 atendimentos relacionados à hepatite C em 2023. No Brasil, as hepatites mais comuns são as dos tipos A, B e C. Com menor incidência, a hepatite D é mais comum na região Norte. Há, ainda, o tipo E, encontrado em países da África e Ásia.
Os tipos B, C e D, causam uma doença silenciosa, que se desenvolve ao longo dos anos, e que só apresenta sintomas quando o fígado já está comprometido. O diagnóstico precoce viabiliza tratamentos que prolongam a vida do paciente e podem até eliminar o vírus, a depender do tipo.
Segundo a OMS, sem tratamento, as hepatites B e C podem levar a cirrose, insuficiência hepática e câncer hepático, sendo responsáveis por 96% de todos os óbitos por hepatites virais.
Leia mais
Hepatite mata mais que Aids: a cada 30 segundos, uma vida se perde
Hepatites A e B: o que fazer para se proteger?
Números de casos de hepatite caíram até 85% em 9 anos no Rio
Julho Amarelo: agora oficial, campanha quer combater hepatites virais
Julho Amarelo
Este mês é marcado pela campanha Julho Amarelo, alusiva ao Dia Mundial de Combate às Hepatites Virais (28/7), para conscientizar a população sobre os riscos dessa doença e a importância da prevenção.
Neste ano, a mensagem é ainda mais urgente, já que milhões de pessoas convivem com o vírus da hepatite sem conhecimento, aumentando o risco de transmissão para outras pessoas e o desenvolvimento de doenças hepáticas graves, como cirrose e câncer de fígado.
No caso da hepatite C, trata-se de um processo infeccioso e inflamatório que pode se manifestar de forma aguda e crônica. Essa doença é caracterizada por uma inflamação persistente no fígado, que ao longo do tempo pode levar a complicações graves, como cirrose hepática e carcinoma hepatocelular (câncer do fígado“, diz a médica hepatologista da Santa Casa de Chavantes, Eloíza Quintela.
A Hepatite C é uma condição séria que muitas vezes passa despercebida por não apresentar sintomas evidentes. Sem diagnóstico e tratamento, aproximadamente 60% a 85% dos casos de hepatite C tornam-se crônicos, e em média, 20% evoluem para cirrose ao longo do tempo.
Uma vez estabelecido o diagnóstico de cirrose hepática, o risco anual para o surgimento de carcinoma hepatocelular é de 1% a 5%. O risco anual de descompensação hepática é de 3% a 6%. Após um primeiro episódio de descompensação hepática, o risco de óbito nos 12 meses seguintes é de 15% a 20%”, estima a especialista.
Leia ainda
Como as doenças hepáticas podem levar ao câncer de fígado
Esteatose hepática: um terço de adultos tem ‘gordura no fígado’
Fígado pode sofrer sérios danos com álcool em excesso
Hepatites virais: por que as doenças são conhecidas por letras?
Nem sempre a doença apresenta sintomas
A hepatite é uma infecção que acomete o fígado e pode causar sintomas leves, mas pode evoluir para um quadro grave. Os tipos A, B, C, D e E são causadas por diferentes vírus e apresentam variações em suas formas de transmissão, sintomas e tratamentos. O paciente pode apresentar sintomas como cansaço, febre, mal-estar, tontura, enjoo, vômitos, dor abdominal, pele e olhos amarelados, além da alteração na cor da urina e das fezes.
No caso da hepatite C, trata-se de um processo infeccioso e inflamatório que pode se manifestar de forma aguda e crônica. A Hepatite C é uma condição séria que muitas vezes passa despercebida por não apresentar sintomas evidentes. Essa doença é caracterizada por uma inflamação persistente no fígado, que ao longo do tempo pode levar a complicações graves, como cirrose hepática e carcinoma hepatocelular.
Segundo a médica hepatologista Eloíza Quintela, as hepatites A e E são transmitidas através do consumo de água ou alimentos contaminados e apresentam sintomas como febre, mal-estar, náuseas e pele amarelada. Já as hepatites B e C podem ser transmitidas por meio do contato com sangue, secreções corporais ou relações sexuais desprotegidas.
Em sua maioria, as hepatites B e C são assintomáticas, podendo se tornar crônicas e levar a complicações graves, como cirrose e câncer de fígado, caso não sejam tratadas adequadamente”, pontua.
Já a hepatite D (Delta) é uma infecção que ocorre apenas em pessoas que já têm hepatite B, pois o vírus da hepatite D depende do tipo B para se reproduzir. A transmissão ocorre da mesma forma que a hepatite B e pode levar a uma forma mais grave de doença hepática.
Medicas para prevenção das hepatites virais
- vacinação contra a hepatite A e B,
- uso de preservativos durante as relações sexuais,
- cuidado com a higiene pessoal e alimentar,
- não compartilhamento de objetos de uso pessoal, como seringas e escovas de dente, e
- controle de infecções em serviços de saúde, como hemodiálise e transfusão de sangue.
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a vacina para hepatite A para crianças com idades de 1 a 2 anos, para homens que tenham relação sexual com parceiros do mesmo sexo; e pessoas com doenças hepáticas.
Já o imunizante para o tipo B é oferecido pelo SUS para toda a população. No caso da hepatite C não há imunizantes por isso, cada tipo de hepatite requer um tratamento específico.
Tratamentos para cada tipo
Como trata-se de uma doença silenciosa, não há um tratamento específico para as hepatites. O tratamento varia de acordo com o tipo de vírus e a gravidade da doença, ocorrendo geralmente com medicamentos sintomáticos para febre, náuseas e dor.
Para a hepatite A e E, geralmente não é necessário tratamento específico, apenas repouso e cuidados alimentares. No entanto, em casos graves, pode ser necessário acompanhamento médico e tratamento de suporte. Já a hepatite B não tem cura. Entretanto, existem tratamentos disponíveis para reduzir o risco de progressão da doença e suas complicações. Para as hepatites causadas pelos vírus B e C são administrados medicamentos antivirais.
Nos casos mais severos da doença, que acomete de 3% a 5% dos pacientes, sem o tratamento adequado pode evoluir para alterações no fígado, cirrose ou até câncer. Por isso, em caso de suspeita deve-se buscar a orientação médica”, ressalta a médica infectologista.
Na hepatite C, mais de 90% dos casos em que o tratamento da infecção é iniciado precocemente e seguido corretamente têm cura. O tratamento é feito de 8 a 12 semanas por meio de medicamentos antivirais de ação direta via oral, os quais não apresentam efeitos colaterais.
Além disso, o vírus da hepatite D só é capaz de infectar pessoas já vivendo com hepatite B crônica e o tratamento visa controlar a infecção pelo vírus da hepatite B. A hepatite tipo E é o menos comum e, assintomática, não costuma evoluir para quadros crônicos, exceto em pacientes imunodeprimidos, como transplantados e HIV+. O tratamento é feito com medicação antiviral.
Com Assessorias