Entenda o glaucoma, a doença de Marquinhos da Flauta

Músico e paratleta da Paraíba ficou cego aos 6. Oftalmologistas explicam riscos do glaucoma: exercícios físicos podem ajudar

Marquinhos da Flauta, de 15 anos, nasceu com glaucoma congênito e perdeu a visão aos 6 anos (Foto: Reprodução da TV Globo)
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O atleta paralímpico de atletismo da Paraíba José Marcos Martins Santos completa 15 anos esta semana. Ele nasceu com glaucoma congênito e aos 6 perdeu quase totalmente a capacidade de enxergar – hoje só tem 3% da visão de um dos olhos. Desde então, aprendeu a tocar nove instrumentos musicais e passou a ser conhecido como Marquinhos da Flauta. Seu estilo preferido é a música clássica.

“Conheço aproximadamente 1000 compositores heruditos, toco vários instrumentos, dentre eles, piano, flauta, ukulelê, teclado, escaleta , bateria, triângulo, pandeiro e pandeirola. Porém, a minha paixão é pelo piano e meu sonho é ter um piano de cauda”, escreveu Marquinhos da Flauta em sua campanha realizada em 2023 na Vakinha.

Na semana passada, o paratleta – Morador de Cabedelo, na região metropolitana de João Pessoa (Paraíba) – viajou a São Paulo para se apresentar ao lado de seu ídolo, o maestro João Carlos Martins, diante de mais de 400 pessoas na plateia integrar um ensaio geral com a Orquestra Filarmônica Bachiana do Sesi. Com sua flauta, o jovem tocou duas músicas, ambas composições do austríaco Franz Schubert Ave Maria e Serenata.

As cenas, mostradas pelo Fantástico, da TV Globo, no último domingo (10), emocionaram e também chamaram atenção para uma doença grave. O glaucoma é a enfermidade ocular que mais cega no mundo. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), afeta entre 1% e 2% da população com mais de 40 anos de idade em todo o mundo, o que representa cerca de 3 milhões de pessoas.

Fatores de risco e diagnóstico

O Dia Mundial do Glaucoma, celebrado em 12 de março, alerta sobre a importância do acompanhamento oftalmológico adequado. Por ser uma doença silenciosa e não apresentar sintomas na maioria dos casos, muitas vezes é diagnosticada quando o paciente já está na fase final, onde ocorre a perda da visão e do campo visual, de forma irreversível.

“Alguns fatores de risco favorecem o aparecimento do glaucoma, como idade avançada, hipertensão arterial, miopia elevada, diabetes, raça negra e hereditariedade. A prevenção se dá com visitas regulares ao oftalmologista para avaliação e detecção precoce do problema, como forma de evitar a cegueira por glaucoma”, explica Márcia Keiko Tabusemédica oftalmologista e consultora da Hoya Vision Care.

O glaucoma agudo ocorre quando a pressão do olho sobe de forma abrupta e o paciente refere sintomas como muita dor no olho, visão turva e pupila dilatada, por exemplo. Nesse caso, é necessária procura por um pronto socorro para o controle urgente da pressão ocular, com risco de perda da visão.

Mulheres são as principais vítimas

Uma curiosidade é que esse tipo de glaucoma é mais frequente nas mulheres. As evidências atuais sugerem que as mulheres mais velhas correm o risco de desenvolver glaucoma e cegueira devido à doença.

De acordo com estudos recentes, as mulheres superam os homens em casos de glaucoma em todo o mundo e correm maiores riscos de glaucoma de ângulo fechado, mas não há uma predileção clara por gênero para o glaucoma de ângulo aberto.

Além disso, curiosamente, existem algumas evidências que sugerem que os hormônios sexuais femininos podem proteger o nervo óptico. Também levanta-se a hipótese de que a diminuição da exposição ao estrogênio está associada ao aumento do risco de glaucoma de ângulo aberto, mas estudos de base populacional apresentam resultados inconsistentes.

“Atualmente, não há evidências suficientes para apoiar o uso da terapia de reposição hormonal na prevenção do glaucoma. Pesquisas apontam que as mulheres carregam um fardo maior de cegueira devido ao glaucoma por conta da longevidade e desvantagens nas crenças socioeconômicas e de saúde”, completa a profissional.

Alto grau de miopia pode levar ao glaucoma crônico

pessoas com alto grau de miopia, acima de 5 graus, têm maior probabilidade de desenvolver o glaucoma crônico, que é mais frequente e não oferece sintomas nas fases iniciais da doença. A doença pode ser diagnosticada pelo exame de pressão ocular e fundo de olho, que analisa o nervo óptico. Uma vez diagnosticada, a doença pode ser corrigida, quando necessária, por meio do uso de óculos ou lentes de contato.

Evidências comprovam o aumento da miopia em todo o mundo. Estima-se que terá impacto sobre mais da metade da população mundial até 2050, segundo dados da OMS. Desta forma, o controle rigoroso da miopia em crianças é fundamental para não alcançar graus altos com risco de glaucoma e perda da visão durante a fase adulta.

“Visitas de rotina ao oftalmologista desde a primeira infância, o uso comedido e regrado de dispositivos móveis, como smartphones, tablets e outros tipos de telas, e o estímulo às atividades ao ar livre consistem em estratégias importantes de prevenção à progressão da miopia. Adicionalmente, a implantação da correção adequada e/ou das terapias, também colaboram para conter o provável avanço de um quadro já existente”, aponta a especialista.

A Dra. Márcia destaca a eficiência de alternativas não invasivas, como é o caso das lentes de óculos de alta tecnologia e que já são opções importantes para a redução da miopia infantil.

“As pessoas com a miopia axial, quando passam a fazer uso contínuo desse tipo de lente, podem ter uma média de 60% na desaceleração da progressão da miopia, pois a estrutura da lente permite simultaneamente desacelerar o crescimento do globo ocular e proporcionar uma visão mais clara”, afirma a profissional.

Exercício físico pode ajudar pessoas com glaucoma

O exercício aeróbico é capaz de reduzir a pressão intraocular (PIO) em pessoas com glaucoma. Além deste benefício, as atividades físicas protegem as células ganglionares da retina e melhoram o fluxo sanguíneo para a retina e nervo óptico. Ou seja, há um fator de neuroproteção envolvido numa vida mais ativa. Estas foram as conclusões de um estudo publicado recentemente.

Segundo Maria Beatriz Guerios, oftalmologista geral e especialista em glaucoma, o exercício físico é parte essencial de um estilo de vida saudável para as pessoas em geral.

“Contudo, manter-se ativo é ainda mais importante para quem tem glaucoma e outras doenças crônicas. Aliás, vale dizer que a atividade física também reduz o risco de doenças que aumentam o risco de glaucoma, como diabetes e hipertensão”.

“Um ponto importante a ser destacado é que mesmo exercícios físicos leves e moderados trazem benefícios para a saúde ocular. Em outras palavras, o efeito neuroprotetor pode ser alcançado com caminhadas que aumentam os batimentos cardíacos entre 20 e 25%. O ideal é que que a prática seja diária. Caso não seja possível, o ideal é se exercitar pelo menos 4 vezes na semana”, comenta.

Mas estudos apontaram que quem realiza exercícios de forma mais vigorosa apresenta uma taxa de menor de perda de campo visual.

Além da caminhada

“Há quem não goste de caminhar. E para estes pacientes podemos recomendar outras atividades como correr, dançar, andar de bicicleta, optar pelas escadas em vez do elevador, jogar tênis, entre outros esportes. Os chamados treinos funcionais também são bem-vindos”, conta Dra. Maria Beatriz.

Por outro lado, há exercícios contraindicados para pessoas com glaucoma devido ao risco de aumento da pressão intraocular. “Embora a natação seja um excelente esporte, o uso dos óculos e a pressão embaixo da água podem aumentar a PIO. Isso vale para certas posições da ioga em que a pessoa fica com a cabeça abaixada”, alerta a oftalmologista.

O levantamento de peso nos treinos de força também tem o efeito de elevação da pressão dentro do olho, bem como agachamentos invertidos, abdominais e flexões.

“Como vimos, a prática regular de exercícios físicos é um recurso adicional importante para pessoas com glaucoma. Entretanto, é sempre importante conversar com o oftalmologista sobre o tipo de atividade mais adequada e entender os riscos envolvidos em alguns esportes”, finaliza a médica.

Com informações de Assessorias

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