Como maconha, tabaco puro e cigarro eletrônico afetam a saúde

Ao ViDA & Ação, neurocirurgião e professor da USP esclarece riscos de AVC e problemas pulmonares. Confira 5 danos do tabagismo à saúde, da pele aos rins

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Fumantes persistentes têm um maior risco de desenvolver um AVC (acidente vascular cerebral), mesmo que não tenham nenhuma doença cardiovascular. Esta é a conclusão de um estudo realizado pela American Heart Association, por meio de uma grande base de dados nacional, para analisar as internações hospitalares nos Estados Unidos. Para quem tem pré-diabetes o risco de sofrer um AVC é três vezes maior. O estudo analisou mais de 1 milhão de consumidores de tabaco, entre os 18 e 44 anos de idade.

Neste Dia de Não Fumar (16 de novembro), um time de especialistas de diversas áreas explica como o cigarro afeta as estruturas e o funcionamento do organismo. Ao Portal ViDA & Ação, Eberval Gadelha, neurocirurgião e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), esclarece os riscos associados ao consumo de tabaco em relação ao AVC e também o perigo da maconha de uso recreativo para a saúde pulmonar.

“O tabaco, a nicotina e o alcatrão presentes no cigarro afetam negativamente o cérebro, uma vez que o próprio consumo dessas substâncias é um fator de risco inerente ao acidente vascular cerebral. Então, mesmo se o paciente não seja hipertenso, não tenha diabetes, triglicérides e colesterol altos, o consumo isoladamente do tabaco já é um fator de risco”, esclarece. “Quando associamos a este risco os outros fatores que afetam a incidência de doenças cardiovasculares, esse risco é potencializado. Eles agem em conjunto, aumentando o risco de desenvolver o AVC e piorando os danos da doença” , pontua.

O especialista também comentou sobre o consumo do tabaco puro, usado em cigarros artesanais, que tem se tornado também uma “modinha” entre adolescentes e jovens, como alternativa que seria mais ‘natural’ ao consumo de cigarros eletrônicos.

“O tabaco puro é ainda mais danoso porque contém monóxido de carbono, dióxido de carbono, benzopireno – todos compostos cancerígenos, que fazem mal ao organismo, de forma geral. Algumas preparações têm mais nicotina e alcatrão. Portanto, fumar o tabaco puro é pior que o industrializado. E também porque o tabaco puro acende, queima e apaga muito mais facilmente. Se a pessoa está fumando o tabaco puro, o apagamento do fogo necessita de nova queima. O fato de acender novamente o tabaco vai produzir mais gases nocivos”, destacou.

Ele explica que a maconha tem na sua preparação também substâncias que fazem mal ao pulmão.

“Num primeiro momento o consumo de maconha causa uma bronco dilatação – ou seja, os broncos do pulmão se dilatam. Mas com o tempo, com o consumo frequente há uma reação inflamatória que pode causar bronquite crônica e enfisema (doenças hoje conhecidas como DPOC). Então, o consumo de maconha também está relacionado à maior incidência de problemas pulmonares, inclusive em alguns estudos, também o câncer”, afirma.

Crescimento do consumo de cigarros eletrônicos

O cigarro eletrônico – que vem se tornando uma febre no Brasil, especialmente entre os mais jovens – também potencializa o risco de AVC e problemas pulmonares. Os chamados vapes têm ganhado cada vez mais espaço entre os brasileiros. Segundo o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), o consumo desses dispositivos eletrônicos de fumar (DIFs) quadruplicou, entre 2018 e 2022, saltando de 500 mil para 2,2 milhões de usuários. Existem diversos tipos de cigarros eletrônicos.

Ao consumir, o usuário inala aerossóis gerados pelo aquecimento de um líquido que, geralmente, contém nicotina, além de outras substâncias tóxicas à saúde responsáveis por dar sabor ao fumo. Um dos grandes problemas do consumo é a alta concentração de nicotina presente no dispositivo.

De acordo com a Associação Médica Brasileira, fumar um cigarro eletrônico equivale a consumir 20 cigarros convencionais. Entre as lesões, a principal e mais perigosa é a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), onde 80% dos casos são causados pelo tabagismo, segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). Mas, infelizmente, tudo o que o Brasil ganhou recentemente no controle do tabagismo está sendo perdido em decorrência do uso dos cigarros eletrônicos entre os jovens.

Dia do Não Fumar: da pele aos rins, 5 danos do cigarro

Parar de fumar é o maior benefício e presente que você pode dar ao seu organismo. Isso por que os componentes tóxicos do cigarro estão relacionados a uma série de problemas no corpo. O cigarro é um dos vilões mais drásticos para a saúde como um todo.

Apesar de ser ligado a problemas no pulmão e no cérebro, seus riscos vão muito além, e podem causar diversos danos ao organismo, principalmente para o metabolismo, a pele, o coração, o rim e a circulação periférica. Confira esclarecimentos de quatro especialistas em diferentes áreas da Medicina:

Problemas de absorção de nutrientes

O hábito de fumar é capaz de influenciar até mesmo nos aspectos nutricionais do organismo.Por atuar no sistema nervoso central, o cigarro causa uma diminuição do apetite, pois afeta a atividade de neurotransmissores que são responsáveis pelo controle da fome, além de alterar o paladar e o olfato, reduzindo o gosto e o aroma dos alimentos.

“Além disso, o cigarro promove um efeito termogênico, acelerando o metabolismo, o que leva ao emagrecimento e reduz a oxigenação dos tecidos do organismo, que causa envelhecimento precoce e acelerado”, alerta a médica nutróloga Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

Inflamação da pele e complicações após tratamentos estéticos

Esqueça o cigarro, ele não combina com a saúde da sua pele. O cigarro acelera o envelhecimento, já que as substâncias tóxicas presentes estão associadas à vasoconstrição periférica, diminuindo o fluxo sanguíneo para o tecido cutâneo, o que afeta a entrega de nutrientes para essa região.

“Isso traz consequências na perda do viço e luminosidade da pele, além de favorecer o amarelamento do tecido; também há uma perda de firmeza por conta da oxigenação e nutrição diminuídas”, comenta a cirurgiã plástica Beatriz Lassance, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e da Isaps (International Society of Aesthetic Plastic Surgery).

O tabagismo também é extremamente prejudicial, por exemplo, para aqueles que se submeteram ou ainda vão passar por procedimentos estéticos e cirurgias “Existe uma maior incidência de complicações cirúrgicas em pacientes tabagistas devido à vasoconstrição causada pelo cigarro, incluindo trombose pulmonar, infecção, hematoma, necrose de tecidos e problemas com qualidade de cicatriz”, explica a médica.

“Alguns estudos apontam um aumento de até quatro vezes o número de complicações e intercorrências em decorrência do tabagismo, tanto no aparelho respiratório como risco de necroses e dificuldade de cicatrização da área operada”, completa.

Prejudicial ao coração

A médica nefrologista e intensivista Caroline Reigada, também especialista em Clínica Médica/Interna, que integra o corpo clínico de hospitais como São Luiz, Beneficência Portuguesa de São Paulo e Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que cada vez que você inala a fumaça do cigarro, sua frequência cardíaca e sua pressão arterial aumentam temporariamente.

“Seu coração tem que bater mais forte e mais rápido do que o normal. Os níveis de colesterol também ficam fora de controle, já que a fumaça do cigarro aumenta os níveis de LDL, ou colesterol ‘ruim’, e de uma gordura no sangue chamada triglicerídeos. Isso faz com que uma placa de gordura se acumule em suas artérias, aumentando o risco de ataques cardíacos”, explica a médica.

Logo, parar de fumar é uma excelente maneira de melhorar a saúde cardíaca. Segundo estudos, apenas 20 minutos depois de parar, sua pressão arterial e frequência cardíaca diminuem. “Em 2 a 3 semanas, seu fluxo sanguíneo começa a melhorar. Depois de um ano sem cigarros, você tem metade da probabilidade de sofrer com alguma doença cardíaca do que quando fumava. Depois de 5 anos, o risco é quase o mesmo do que de alguém que nunca acendeu um cigarro”, afirma a médica.

Doenças renais e câncer no rim

O tabagismo é um dos principais fatores de risco que podem levar à doença renal terminal. De acordo com a Associação Americana de Pacientes Renais (AAKP), estudos mostraram que fumar é prejudicial para os rins, podendo causar a progressão da doença renal e aumentar o risco de proteinúria (quantidade excessiva de proteína na urina). Estima-se que o tabagismo seja responsável por aproximadamente 17,4% dos casos de câncer de rim, pelve renal e ureter nos Estados Unidos.

“Algumas das possíveis maneiras pelas quais fumar pode prejudicar os rins são: aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca; redução do fluxo sanguíneo nos rins; aumento da produção de angiotensina II (um hormônio produzido no rim); estreitamento dos vasos sanguíneos nos rins; danos nas arteríolas (ramos de artérias); formação de arteriosclerose (espessamento e endurecimento) das artérias renais; e aceleração da perda da função renal.  Além do tabaco, fumar permite que outras toxinas entrem no corpo, como explica a médica nefrologista Caroline Reigada.

Ainda segundo ela, a fumaça do tabaco tem sido associada a mutações genéticas, inflamação e danos celulares, todos os quais alimentam o crescimento do câncer. Fumar também aumenta o risco de desenvolver carcinoma de células renais (CCR). “O risco aumentado parece estar relacionado ao quanto você fuma e ele diminui se você parar de fumar, mas leva muitos anos para chegar ao nível de risco de alguém que nunca fumou. Mas nunca é tarde para parar”, incentiva a Dra. Caroline.

Problemas de circulação

A circulação é uma das estruturas que mais sofre com o tabagismo. “O cigarro pode causar problemas circulatórios como arteriosclerose e tromboangeite obliterante, distúrbio que afeta as extremidades do corpo. Em ambos os casos, há riscos de ter de amputar os membros, como pernas, pés e mãos”, explica a cirurgiã vascular Aline Lamaita, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).

Além disso, a nicotina está ligada à diminuição da espessura dos vasos sanguíneos e o monóxido de carbono reduz a concentração de oxigênio no sangue. “Todo esse processo pode causar complicações para o normal funcionamento dos vasos, que ficam mais susceptíveis ao entupimento, podendo levar a processos de trombose, principalmente quando há fatores de risco envolvidos”, enfatiza a Dra. Aline.

Parar com o cigarro não é uma tarefa simples. “Estudos mostram que apenas 15% das pessoas que tentam parar de fumar sem ajuda profissional conseguem. O cigarro está muito ligado ao hábito, claro que existe uma dependência química ligada ao estresse, mas quando uma pessoa consegue identificar o gatilho que a faz ter vontade de fumar pode tentar acabar com estes gatilhos ou ainda mudar a resposta a eles”, explica Beatriz Lassance, também membro do American College of LifeStyle Medicine.

“Busque qualquer atividade que dê prazer. Tente começar uma atividade física, ela é o maior antioxidante que existe. O consumo de energia do corpo em movimento obriga nosso organismo a produzir antioxidantes de maneira enorme, que nos protege da ação dos radicais livres, e também ajuda a reduzir a ansiedade. Qualquer atividade física é importante. Quanto maior o número de músculos você mexer, melhor”, finaliza a Dra. Beatriz.

Com assessorias

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