Apesar de ser uma das enfermidades mais antigas conhecidas pela humanidade, a tuberculose (TB) persiste como um grave problema de saúde pública. Depois da pandemia mundial de Covid-19, a TB voltou a ser a principal causa de morte por doença infecciosa no mundo,
De acordo com o Relatório Mundial sobre Tuberculose de 2023 da Organização Mundial da Saúde (OMS), foram estimados 10,6 milhões de casos em todo o mundo, resultando em 1,3 milhão de mortes, incluindo 167 mil entre pessoas vivendo com HIV.
Na Região das Américas, estima-se que cerca de 325 mil pessoas adoeceram de TB, o que representou um aumento de 14% em comparação com 2015, com uma lacuna de 83 mil pessoas sem diagnóstico.
Da mesma forma, aproximadamente 35 mil pessoas morreram por essa causa (um aumento de 41% em comparação com 2015), das quais 31% (11.200) foram atribuídas à TB/HIV; a cada dia, 96 pessoas perdem a vida para a TB e cerca de 890 pessoas adoecem com esta doença prevenível e curável.
Com uma das mais altas taxas de incidência de tuberculose no mundo, o Brasil figura entre os 30 países prioritários da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o combate à doença. O país caminha na contramão das metas estabelecidas pela OMS para a erradicação da tuberculose até 2035.
Até 2023, o país registrava aproximadamente 70 mil novos casos a cada ano, mantendo uma incidência de 40 infectados para cada 100 mil habitantes, além de cerca de 4,5 mil mortes; uma média de 14 mortes por dia.
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Desafio de saúde pública no Brasil
Dados do Boletim Epidemiológico Tuberculose 2025, do Ministério da Saúde, mostram que 84,3 mil pessoas contraíram a doença no país em 2024 – uma incidência de 39,7 casos para cada 100 mil habitantes. Nesse período, foram contabilizados ainda mais de 6 mil óbitos.
Os maiores coeficientes de incidência foram observados no Amazonas (94,7 por 100 mil), no Rio de Janeiro (75,3 por 100 mil) e em Roraima (64,3 por 100 mil). Na mortalidade, considerando os dados consolidados de 2023, os destaques foram Amazonas, (5,1 por 100 mil), Pernambuco (4,8 por 100 mil) e Rio de Janeiro (com 4,6 por 100 mil).
Os dados mais recentes mostram que a tuberculose permanece como um crítico desafio de saúde pública no Brasil, com números que ainda distanciam a nação das metas globais de eliminação da doença. Embora a meta da OMS para 2025 previsse uma redução de 50% na incidência e 75% na mortalidade, os números epidemiológicos mostram uma tendência de crescimento iniciada em 2015.
O cenário afasta o país dos objetivos internacionais e acende um alerta sobre a necessidade de vigilância constante. Atualmente, o território brasileiro já responde por um terço das notificações feitas nas Américas e é o único país do globo listado em duas categorias prioritárias pela OMS: tuberculose e coinfecção por tuberculose e HIV.
Saúde Única: O impacto das desigualdades
Considerada uma doença negligenciada, ela está especialmente associada à pobreza, má distribuição de renda e populações vulneráveis. Apesar de ter cura e tratamento gratuito pelo SUS, a doença persiste devido ao estigma, diagnóstico tardio e alta taxa de abandono do tratamento.
A persistência da tuberculose está intrinsecamente ligada ao conceito de Saúde Única, que integra a saúde humana, animal e ambiental. Onde há moradia precária, desigualdade social e barreiras de acesso ao saneamento e à saúde, a doença encontra ambiente propício para se espalhar.
Para mudar este cenário, o combate deve ser intersetorial, focando especialmente em populações com maior risco biológico ou social, como:
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Pessoas vivendo com HIV;
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Populações indígenas e migrantes;
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Pessoas em situação de rua ou privadas de liberdade.
A doença, ainda considerada um problema de saúde pública, continua evidenciando desafios significativos entre a população, seja pela falta de diagnóstico precoce, pela dificuldade de acesso ao tratamento adequado ou pela sua não finalização, ou ainda pela desinformação sobre o tema.
Para especialistas, o principal obstáculo não é apenas clínico, mas social: o estigma. A associação equivocada da doença a condições de “falta de higiene” ou exclusividade de grupos vulneráveis faz com que muitos pacientes tardem a buscar ajuda médica por medo de discriminação, o que favorece a propagação da bactéria causadora da doença.
Esforços para combater o preconceito e a desinformação
Estigmas atrasam o diagnóstico de uma doença que tem cura e tratamento gratuito pelo SUS
De acordo com a Opas (Organização Panamericana de Saúde), é possível reverter a tendência da epidemia da doença por meio de aumento de investimentos, maior liderança e adoção mais ágil das novas recomendações da Opas) e da OMS. A tuberculose é uma das 30 doenças transmissíveis abordadas na Iniciativa OPAS para a Eliminação de Doenças nas Américas.
Os esforços globais para combater a TB salvaram aproximadamente 75 milhões de vidas desde o ano 2000. “Considerando a grande heterogeneidade da região, onde coexistem países em situações de baixa incidência próxima à pré-eliminação e outros com alta carga, é necessário redobrar os esforços para a eliminação da TB nas Américas”, diz a entidade.
Ainda segundo a Opas, a pandemia de Covid-19 também aumentou drasticamente a conscientização sobre a importância da saúde para a estabilidade social, econômica e política, e acelerou a adoção de inovações na prestação de serviços de saúde, criando oportunidades únicas para aumentar a resiliência dos sistemas de saúde diante das crises atuais e futuras.
Uma das principais causas de morte entre pessoas vivendo com HIV
A tuberculose é uma infecção bacteriana causada pela Mycobacterium tuberculosis, conhecida como bacilo de Koch, que ataca principalmente os pulmões, mas pode atingir outros órgãos e/ou sistemas. A forma extrapulmonar ocorre com mais frequência em pessoas que vivem com HIV.
Entre seus principais fatores de risco estão a baixa imunidade – apresentada por pessoas que vivem com HIV/AIDS, diabetes, fazem uso prolongado de corticoides e imunossupressores, por exemplo -, a desnutrição, doenças pulmonares pré-existentes, e a idade (sobretudo crianças e idosos, devido ao sistema imunológico mais frágil).
A tuberculose é uma das principais causas de morte entre pessoas que vivem com HIV, representando cerca de um terço dos óbitos por AIDS no mundo. Um dado crucial para essa população: o risco até 30 vezes maior de desenvolver a forma ativa da tuberculose. Para a população vivendo com HIV, a tuberculose latente é uma ameaça silenciosa. Somente no Brasil, o índice de coinfecção de tuberculose e HIV é em torno de 10%, de acordo com o Ministério da Saúde.
Transmissão e prevenção do vírus
A transmissão acontece por via respiratória, pela eliminação de partículas muito pequenas produzidas por tosse, fala ou espirro de uma pessoa com tuberculose ativa (pulmonar ou laríngea) sem tratamento.
O bacilo de Koch é sensível à luz do sol e a circulação de ar ajuda a dispersar as partículas infectantes. Por isso, ambientes ventilados e com luz natural direta diminuem o risco de transmissão. “A ‘etiqueta da tosse’, ou seja, cobrir a boca com o antebraço ou lenço ao tossir, também é uma medida importante”, informa o Ministério da Saúde.
Quando outras pessoas respirarem essas partículas, há a possibilidade de se infectarem. De acordo com o Ministério da Saúde, calcula-se que, durante um ano, em uma comunidade, uma pessoa com tuberculose pulmonar e/ou laríngea ativa sem tratamento e que esteja eliminando partículas com bacilos, possa infectar, em média, de 10 a 15 pessoas.
Segundo o Ministério da Saúde, com o início do tratamento, a transmissão tende a diminuir gradativamente e, em geral, após 15 dias, o risco de transmissão da doença cai drasticamente.
No entanto, o ideal é adotar medidas de controle de infecção até que o resultado da baciloscopia [exame para detectar a bactéria da tuberculose] se torne negativo – tais como cobrir a boca com o braço ou lenço ao tossir e manter o ambiente bem ventilado, com bastante luz natural.”
O perigo da tuberculose latente
Geralmente, seus principais sintomas são tosse por mais de duas semanas, podendo ser seca ou, em alguns casos, com catarro, febre baixa, sudorese noturna, cansaço, dor no peito e perda de peso. “Se uma pessoa apresentar sintomas de tuberculose, é fundamental procurar a unidade de saúde mais próxima de sua residência para avaliação e realização de exames. Se o resultado for positivo para tuberculose, deve-se iniciar o tratamento o mais rápido possível e segui-lo até o final”, concluiu o ministério.
O diagnóstico precoce da infecção latente – fase em que a bactéria está no organismo sem apresentar sintomas – surge como uma estratégia vital de prevenção. A detecção nessa fase permite o início de um tratamento preventivo, evitando que a doença se torne ativa, contagiosa e potencialmente fatal para quem tem o sistema imunológico vulnerável. Portanto, diagnosticá-la é uma intervenção que salva vidas. O tratamento preventivo é seguro, eficaz e interrompe a progressão para a doença ativa, reduzindo drasticamente o risco de complicações e mortalidade.
Após a fase assintomática, que pode se estender por anos, a tuberculose pode evoluir de forma grave e rápida a partir de uma queda imunológica, portanto, a busca sistemática dos casos da doença, mesmo que a infecção esteja inativa, é uma das maneiras mais efetivas de conter essa transmissão e erradicar suas ocorrências. A tuberculose pode apresentar diferentes fases a partir da contaminação e conforme evolui.
Por muitos anos, ela pode permanecer em estado latente, sem apresentar qualquer sintoma – a conhecida tuberculose latente, condição em que a pessoa carrega o bacilo no organismo, mas o sistema imunológico impede a progressão dos sintomas. A partir de uma queda imunológica, a pessoa pode começar a demonstrar sinais, evoluindo de forma grave e rápida. Por isso, identificar e tratar essa fase é crucial, especialmente em pacientes imunossuprimidos que tiveram contato com infectados, para evitar que a doença se torne ativa e transmissível.
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Em um contundente alerta emitido nesta data., organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) chamou a atenção para uma crise silenciosa: as crianças continuam sendo deixadas “no fim da fila” no combate à tuberculose (TB).
O Relatório Global sobre a Tuberculose da OMS destaca que, em 2024, foram relatadas 685.000 crianças menores de 15 anos com tuberculose, de uma estimativa de 1.2 milhão de casos, e 43% não receberam diagnóstico nem tratamento. A situação é ainda mais crítica para crianças menores de cinco anos, onde apenas metade consegue acessar os cuidados necessários.
Cortes no financiamento internacional e o aumento de populações deslocadas por conflitos têm agravado o cenário, resultando em mortes que seriam evitáveis com as ferramentas já existentes. Um dos maiores obstáculos é a dependência de testes laboratoriais que, em crianças, frequentemente apresentam resultados falsos-negativos.
Diagnóstico clínico: a chave para salvar vidas
Para mudar essa realidade, MSF defende a implementação imediata dos algoritmos de decisão terapêutica recomendados pela OMS. Esses sistemas de pontuação permitem que profissionais de saúde diagnostiquem a TB baseando-se apenas em sintomas clínicos e histórico de contato, sem a necessidade obrigatória de exames complexos. Pesquisas de MSF em países africanos mostram que essa abordagem tem o potencial de quase dobrar o número de crianças diagnosticadas.
As ferramentas existem, mas as crianças são empurradas para o fim da fila. Elas precisam ser priorizadas agora”, afirma Cathy Hewison, líder da plataforma de TB de MSF.
O impacto do atraso no diagnóstico é ilustrado pelo caso de Francisco, um menino de 11 anos em Moçambique. Ele apresentou os primeiros sintomas em julho de 2024, mas, devido à falta de exames sensíveis e à desconsideração da hipótese de TB pelos médicos, o tratamento só começou oito meses depois, quando a doença já havia evoluído para uma forma resistente a medicamentos.
Resultados que trazem esperança
Onde os novos protocolos são aplicados, os resultados são imediatos. No Níger, quase metade de todas as crianças menores de cinco anos diagnosticadas com TB em 2024 e 2025 estavam concentradas nos cinco distritos onde MSF apoia a implementação dos algoritmos da OMS. O país possui 72 distritos ao todo, o que demonstra o impacto que a expansão dessa estratégia teria em nível nacional.
MSF reforça que cada sinal ignorado aproxima uma criança da morte. A organização apela a governos e doadores para que garantam que as ferramentas de prevenção e tratamento cheguem a quem mais precisa, transformando a vontade política em ações concretas de saúde pública.
A organização tem fornecido cuidado relacionado à tuberculose (TB) há 30 anos, trabalhando ao lado de autoridades de saúde nacionais para tratar pessoas em uma variedade de cenários, incluindo áreas de conflito, comunidades urbanas empobrecidas, prisões, campos de refugiados e áreas rurais.
Em 2024, MSF tratou 25.000 pessoas com TB, incluindo 1.500 pacientes com tuberculose resistente a medicamentos, em mais de 35 países — a maioria na África (68%) e na Ásia (30%).
MSF está atualmente realizando o projeto TACTiC (sigla em inglês para Testar, Prevenir e Curar a Tuberculose em Crianças), visando inovar o cuidado de TB para crianças através da implementação das últimas recomendações da OMS e da geração de evidência sobre sua eficácia, viabilidade e aceitabilidade, além da defesa de sua implementação a níveis globais e nacionais.
O projeto abrange 12 países com alta incidência de tuberculose, nos quais MSF oferece cuidados de TB para crianças: Afeganistão, Filipinas, Guiné, Moçambique, Níger, Nigéria, Paquistão, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Somália, Sudão do Sul e Uganda.
Para saber mais sobre como apoiar as ações humanitárias e os protocolos de tratamento, visite o site oficial de Médicos Sem Fronteiras.
Com Assessorias e Agência Brasil (atualizado em 24/03/26)

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