Condenado e preso por tentativa de golpe e preso há dois meses na Papudinha, em Brasília, o ex-presidente Jair Bolsonaro, de 70 anos, foi internado às pressas nesta sexta-feira (13/03) na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital DF Star, em Brasília, e recebeu um novo diagnóstico que se soma aos anteriores: broncopneumonia bacteriana bilateral, possivelmente de origem aspirativa.
O hospital informou que ele apresentava febre alta, queda da saturação de oxigênio, sudorese e calafrios e iniciou tratamento com antibióticos por via venosa e suporte clínico não invasivo. O boletim é assinado pelo médico particular do presidente, o cardiologista Brasil Caiado, e também pelos médicos Antônio Aurélio de Paiva Fagundes Júnior, coordenador da UTI Geral, e Allisson B. Barcelos Borges, diretor geral do hospital.
O Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a entrada de celulares e dispositivos eletrônicos no quarto da UTI, mantendo a guarda policial 24h. O próximo passo será o novo parecer da PGR, que deverá avaliar se este episódio de broncopneumonia é uma intercorrência tratável ou se configura a “vulnerabilidade extrema” necessária para a prisão domiciliar.
Médico prevê pelo menos uma semana de internação
Parente do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, aliado político de Bolsonaro, o cardiologista Brasil Caiado classificou o quadro como “grave”, destacando que o acúmulo de comorbidades torna este o desafio clínico mais acentuado já enfrentado pelo paciente.
A tomografia confirmou a nossa suspeita inicial e mostrando uma broncopneumonia bilateral mais acentuada à esquerda. E o que chama atenção é que esta pneumonia é a maior, mais acentuada em relação às outras duas que ele teve no semestre passado. Isso requer um cuidado especial agora”, afirmou o médico à imprensa.
Apesar da suposta gravidade, o quadro é considerado estável. Bolsonaro está consciente e não precisou ser intubado, mas deve ficar hospitalizado pelo menos por uma semana.
Não temos prazo ainda para alta da UTI. Vai ficar o tempo necessário para receber a medicação e depois ir para o quarto. É um tratamento mais prolongado, diferente de uma pneumonia simples em que o paciente recebe a medicação oral e vai para casa”, disse o médico.
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Nem toda pneumonia é grave, alerta pneumologista
De acordo com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), a pneumonia, em suas diversas formas, figura como uma das principais causas de mortalidade em pessoas idosas e em pacientes hospitalizados.
Sobre o caso de Bolsonaro, o diagnóstico pode ser considerado potencialmente grave e “inspira cuidados”, mas “não quer dizer que a pessoa não vai curar ou que necessariamente será uma forma grave”, ponderou a pneumologista Marcela de Oliveira, membro da Comissão Científica de Infecções Respiratórias da SBPT, em entrevista à Agência Brasil,
Ela explicou que a pneumonia é a infecção das vias aéreas mais terminais, ou seja, quando o agente – geralmente uma bactéria ou um vírus – consegue vencer a primeira barreira, que é o nariz, a boca, a garganta, os brônquios, e chega às vias aéreas mais terminais, na última, que é o alvéolo.
Quando a infecção chega lá, é dita pneumonia. Essa é a forma realmente mais grave de infecção das vias respiratórias porque é lá onde ocorre a troca de oxigênio. Quer dizer que todo o sistema falhou em proteger a entrada desse microrganismo nas vidas respiratórias”, completou.
O que é a broncopneumonia bilateral de origem aspirativa?
Diferente de uma pneumonia comum, a broncopneumonia apresenta múltiplos focos de infecção espalhados pelos pulmões. A inflamação que atinge os alvéolos pulmonares e os brônquios de forma multifocal. A médica destacou que, no caso específico da broncopneumonia, não há distribuição anatômica de áreas infeccionadas nas vias aéreas. “São múltiplos focos de infecção em lobos diferentes.”
O quadro ocorre quando o conteúdo do estômago (suco gástrico ou restos alimentares) é “aspirado” para as vias respiratórias em vez de seguir para o esôfago. Ele causa uma irritação química e leva bactérias diretamente aos pulmões, gerando a infecção. No caso de Bolsonaro, o termo “bilateral” indica que ambos os pulmões foram comprometidos, dificultando drasticamente as trocas gasosas e a oxigenação do sangue (saturação).
A suspeita de origem aspirativa é particularmente relevante devido ao seu histórico de múltiplas cirurgias abdominais. que geraram aderências e obstruções recorrentes. As aderências abdominais podem causar lentidão no esvaziamento gástrico e refluxo gastroesofágico, condições que facilitam a entrada de conteúdo gástrico ou saliva nas vias respiratórias.
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O que observar nos próximos boletins médicos de Bolsonaro
O Hospital DF Star deve emitir novos boletins nas próximas 24 horas. O que deve ser monitorado nos próximos boletins:
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Resposta inflamatória (PCR e Leucograma): A queda nos marcadores inflamatórios indicará se o antibiótico está vencendo a barreira bacteriana nos pulmões.
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Curva térmica: A persistência da febre alta é o sinal de que o foco infeccioso ainda não foi controlado.
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Suporte respiratório: Verificar se o ex-presidente continuará apenas com suporte de oxigênio (cateter/máscara) ou se haverá necessidade de ventilação não invasiva (VNI) para expandir os alvéolos comprometidos pela bilateralidade da doença.
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FAQ: Por que cirurgias abdominais aumentam o risco de pneumonia?
1. O que é a broncoaspiração?
É a entrada acidental de substâncias (como alimentos, saliva ou suco gástrico) nas vias respiratórias. Em vez de seguirem para o estômago, esses resíduos “caem” nos pulmões, causando inflamação química e infecção bacteriana.
2. Qual a relação com as aderências e cirurgias abdominais?
Pacientes com histórico de múltiplas cirurgias abdominais, como o ex-presidente, costumam apresentar aderências (tecidos cicatriciais) que podem causar obstruções ou lentidão no funcionamento do sistema digestivo. Isso favorece o refluxo gastroesofágico. Quando o conteúdo gástrico retorna ao esôfago com frequência, o risco de ser aspirado para os pulmões durante o sono ou episódios de vômito aumenta consideravelmente.
3. Por que a pneumonia é “bilateral” nestes casos?
Na broncopneumonia aspirativa, o material infectado não se restringe a um ponto do pulmão. Ele se espalha pelos brônquios e pode atingir múltiplos lobos em ambos os pulmões, resultando no quadro bilateral, que é mais grave por comprometer uma área maior de troca de oxigênio.
4. Quais são os principais sinais de alerta em idosos?
Além da febre e tosse, deve-se observar:
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Queda súbita na oxigenação (saturação abaixo de 95%);
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Confusão mental ou sonolência excessiva;
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Cansaço extremo ao realizar pequenos esforços;
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Sudorese e calafrios.
5. Como é o tratamento em pacientes com comorbidades?
O tratamento é feito com antibióticos venosos de largo espectro. Em pacientes com hipertensão e aterosclerose, o monitoramento em UTI é essencial para garantir que a infecção não sobrecarregue o coração, já que o pulmão inflamado exige um esforço maior de todo o sistema circulatório.
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Novo quadro clínico deve aumentar pressão sobre o STF
A defesa já prepara uma petição urgente para anexar este novo prontuário ao processo que tramita no STF em mais uma tentativa de obter a a ‘prisão humanitária’. O novo quadro clínico surge em um momento de extrema tensão política, apenas um mês após laudos oficiais da Polícia Federal apontarem que a estrutura da Papudinha era “plenamente compatível” com o tratamento das comorbidades de Bolsonaro.
Especialistas acreditam que isso deve ser utilizado pela defesa como o “fato novo” necessário para reforçar a pressão de aliados e familiares sobre o ministro Alexandre de Moraes por uma transferência definitiva para o regime domiciliar.
A defesa agora deve argumentar que o ambiente carcerário — mesmo em uma Sala de Estado-Maior com ambulância 24 horas — não foi capaz de prevenir uma infecção aguda, grave e potencialmente fatal. Por outro lado, o STF deve avaliar se o episódio é uma intercorrência isolada (tratável com os antibióticos já prescritos na UTI) ou se indica uma fragilidade sistêmica que justifique a prisão domiciliar humanitária.
A conferir as cenas dos próximos capítulos da nova novela sobre a saúde do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado por liderar a trama golpista de janeiro de 2023.

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