O Carnaval é uma festa de liberdade, mas especialistas e ativistas lembram que o respeito deve ser o principal acessório na avenida. O carnaval de 2026 chega com um grito de alerta e conscientização: a folia só é plena quando há respeito. O Ministério da Igualdade Racial (MIR) lançou no Rio de Janeiro a ampliação da campanha “Sem racismo o carnaval brilha mais”, que este ano ganha as ruas com adesivos, leques e ações presenciais para combater o racismo estrutural e as violências simbólicas.
A iniciativa ganha força diante de denúncias de ativistas sobre o chamado “blackface de cabelo”. O termo, cunhado pela página Samba Abstrato, critica o uso de perucas e penteados afro por pessoas brancas. Assim como as fantasias de “nega maluca” ou de povos indígenas, que ridicularizam identidades, tratar o cabelo crespo como um adereço descartável é considerado um ato racista.
De acordo com o coletivo, essas práticas reforçam estereótipos e desrespeitam a luta de mulheres negras que, durante o ano todo, enfrentam discriminação por exibirem sua estética natural. Especialistas alertam que tratar o cabelo crespo como um “adereço descartável” ou “fantasia” ridiculariza identidades e ignora o fato de que, fora da folia, pessoas negras ainda sofrem discriminação real por exibirem sua estética natural.
Ações práticas na Sapucaí e blocos de rua
Diferente de anos anteriores, em 2026 a campanha terá uma presença física robusta. No Rio de Janeiro, uma parceria inédita com a Liga RJ levará materiais educativos para os ensaios técnicos e desfiles da Série Ouro na Sapucaí. No dia 13 de fevereiro, o ministério desfilará com faixas ao lado de lideranças das escolas de samba para marcar posição contra a injúria racial.
Além do Rio, a mobilização ocorrerá na Bahia e em outros 30 municípios que integram o Programa Juventude Negra Viva. “Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro ou personagens negras. Isso não é o tipo de cultura que o brasileiro quer”, afirma Tiago Santana, secretário de Combate ao Racismo do MIR.
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O combate ao apagamento cultural
A campanha também busca frear o “embranquecimento” da festa. Historicamente construído por comunidades negras como forma de sobrevivência e resistência, o carnaval tem sofrido processos de apagamento, desde a escolha de jurados até o protagonismo nos desfiles.
Para a ministra Anielle Franco, a festa é um momento de diversão, mas também de cuidado: “Lançamos essa campanha para respeitar as mãos negras de quem faz o maior espetáculo da terra acontecer”.
A estética como resistência e não como fantasia
Para a diretoria da Samba Abstrato, existe uma contradição no comportamento de foliões que ignoram a luta antirracista no cotidiano, mas escolhem “se fantasiar” de mulher negra durante a folia.
Enquanto mulheres negras são discriminadas ou impedidas de trabalhar pelo crespo natural ou tranças, outras fazem da nossa estética uma fantasia. Chega o último dia de carnaval, tomam banho e voltam a alisar”, reflete o coletivo à Agência Brasil.
O professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da Unesp, explica que esse processo faz parte de um “aniquilamento social e cultural”. Segundo ele, o apagamento de pessoas negras de espaços de visibilidade e a negação de sua beleza são formas de exclusão que remontam ao período pós-abolição.
Dicas para um carnaval saudável e inclusivo
Para garantir que a festa seja alegre para todos, o Ministério da Igualdade Racial lançou a campanha “Sem racismo, o carnaval brilha mais”. O objetivo é educar a população sobre o impacto de fantasias ofensivas e violências simbólicas.
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Evite caricaturas: Não utilize elementos que ridicularizem características físicas de grupos étnicos (como pintar a pele ou usar perucas de cabelo crespo).
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Valorize a origem: Lembre-se que o carnaval brasileiro tem raízes profundas na cultura negra; respeitar essa herança é fundamental.
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Protagonismo: Apoie as comunidades e passistas que mantêm a tradição viva o ano inteiro.
Como denunciar
Se você presenciar ou for vítima de racismo ou injúria racial durante os blocos ou desfiles, não se cale. A saúde social do carnaval depende da segurança de todos:
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Disque 100: Central de Direitos Humanos.
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Ouvidoria do Ministério da Igualdade Racial: Envie um e-mail para
ouvidoria@igualdaderacial.gov.br. -
Boletim de Ocorrência: Procure a delegacia mais próxima. O racismo é crime e deve ser tipificado para que haja responsabilização.
Com informações da Agência Brasil






