A fronteira entre o entretenimento digital e o vício patológico está cada vez mais tênue para os jovens brasileiros. A rápida expansão das apostas esportivas online rompeu uma barreira histórica que limitava os jogos de azar ao universo adulto. Hoje, crianças e adolescentes são expostos a publicidades constantes em redes sociais, transmissões esportivas e ambientes digitais de entretenimento, normalizando a prática como uma forma de “ganho fácil”.
Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), baseados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), indicam que 17,8% dos adolescentes entre 13 e 17 anos já participaram de jogos com apostas. O dado mais alarmante, contudo, vem de um levantamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR): 58% dos jogadores compulsivos fizeram sua primeira aposta antes da maioridade.
Apostas online barram o acesso ao ensino superior para quase 1 milhão de jovens
Levantamento revela que 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos adiaram o sonho da faculdade por estarem com a renda comprometida com os jogos de azar
O avanço das apostas virtuais no Brasil está cobrando um preço alto do futuro do país. Um levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) acende um alerta vermelho: cerca de 986 mil jovens desistiram ou adiaram o início da graduação em 2025 devido ao comprometimento financeiro com as “bets”.
O impacto é ainda mais severo entre as populações mais vulneráveis. Nas classes D e E, o índice de jovens que abriram mão dos estudos chega a 41%. Regionalmente, o Nordeste (44%) e o Sudeste (41%) lideram as estatísticas de evasão ou adiamento educacional motivado pelas apostas.
Um problema de saúde pública em expansão
Para o médico pediatra José Luiz Setúbal, presidente da Fundação José Luiz Setúbal, esse novo cenário representa um risco concreto ao desenvolvimento psíquico. “O jogo online rompeu a barreira que protegia os jovens. Hoje, eles são impactados por mensagens que vendem a aposta como diversão, ignorando os riscos de dependência”, alerta.
A preocupação com o impacto das “bets” na juventude já mobiliza debates internacionais. Em janeiro de 2026, senadores dos Estados Unidos solicitaram mais pesquisas sobre o tema, um sinal de alerta que também deve mobilizar o Brasil.
Amanda Gregorio, analista de projetos da Fundação, reforça que o transtorno do jogo está diretamente associado ao agravamento de quadros de ansiedade, depressão e risco de suicídio. “As apostas já não podem ser tratadas apenas como entretenimento individual; estamos diante de um problema de saúde pública cujas consequências recaem sobre os sistemas de saúde e populações vulneráveis”, pontua.
Por que o cérebro jovem é mais vulnerável?
Para o psicólogo Danilo Suassuna, doutor em Psicologia pela PUC-GO e diretor do Instituto Suassuna, a glamourização da vitória fácil e a ausência de filtros eficazes criam um ambiente propício ao vício. “A ludopatia tem características semelhantes à dependência química. O jogo se transforma em um ciclo de compulsão e culpa, com impactos profundos nas esferas emocional e financeira”, explica.
Diferente dos adultos, o cérebro adolescente ainda está em fase de maturação, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle de impulsos.
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Apelo visual e social: Anúncios focam em “grandes vitórias” e silenciam as perdas.
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Plataformas ilegais: Sites não regulamentados facilitam o acesso de menores e os expõem a fraudes, bloqueio de saques e ausência de proteção ao consumidor.
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Sensação de controle: Muitos jovens acreditam que, por “entenderem de futebol”, têm controle sobre o resultado da aposta, o que é uma ilusão perigosa.
A adolescência é uma fase de maior impulsividade. A presença ativa da família, mais do que a vigilância pura, é o principal fator de proteção”, conclui o Dr. José Luiz Setúbal.
O impacto devastador do endividamento rápido
Especialistas alertam para o risco de suicídio e endividamento crônico
A velocidade com que as apostas online consomem o patrimônio e a saúde mental é impressionante. Um caso relatado pela Revista Pesquisa Fapesp exemplifica a gravidade: um jovem acumulou R$ 10 mil em dívidas em apenas três semanas, apresentando ideação suicida logo em seguida.
Uma epidemia silenciosa na saúde mental
Para Mario Lopes, especialista em saúde mental, o fenômeno configura uma “epidemia silenciosa”. As plataformas, que funcionam como cassinos de bolso disponíveis 24 horas por dia, não afetam apenas o bolso, mas a estrutura psíquica dos jovens.
As bets são gatilhos poderosos para transtornos como ansiedade, depressão, insônia e compulsão. Não podemos tratar o vício como uma escolha individual; é uma questão de saúde coletiva”, reforça Lopes.
O perfil mais atingido compreende adultos entre 26 e 35 anos — muitos já inseridos no mercado de trabalho e com responsabilidades familiares —, que veem o esgotamento emocional e o afastamento social como subprodutos da dependência.
Por que as plataformas digitais são mais perigosas?
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Operação 24 horas: O acesso é ininterrupto, sem barreiras físicas.
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Recompensas intermitentes: Usam estratégias similares às redes sociais para manter o usuário conectado.
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Baixo valor inicial: Facilita a entrada de jovens com pouco recurso, que buscam multiplicar o dinheiro rapidamente.
Do “moralismo” de 1946 à evidência científica atual
O debate sobre a proibição dos jogos no Brasil não é novo. Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os cassinos no país, influenciado por convicções religiosas da primeira-dama, Dona Santinha, que associava o jogo à desestruturação familiar.
“O que era intuição moral à época, hoje é respaldado pela ciência”, afirma Suassuna. Ele destaca que a preocupação histórica com o endividamento e o sofrimento psicológico agora é confirmada por pesquisas contemporâneas: indivíduos com transtorno do jogo têm até 15 vezes mais chance de cometer suicídio em comparação com a população geral.
A urgência da regulação e educação nas escolas
Embora a Lei nº 14.790/2023 já regulamente as apostas de quota fixa no Brasil, especialistas apontam lacunas na proteção de usuários vulneráveis e no combate à publicidade abusiva.
O Estado precisa intervir com responsabilidade e prevenção. Não se trata apenas de proibir, mas de reconhecer que o que começou como uma questão moral no passado é, hoje, uma emergência em saúde mental”, conclui Danilo Suassuna.
A frente de combate mais urgente, segundo o doutor, é a implementação de educação emocional e financeira nas escolas para fortalecer a resiliência dos jovens contra o apelo das bets.
Sinais de alerta: como saber se seu filho está viciado em apostas
Identificar precocemente a mudança de comportamento é a forma mais eficaz de evitar o endividamento e o sofrimento mental
O vício em jogos online, ou ludopatia, muitas vezes é silencioso. Diferente de outras dependências, não há sinais físicos óbvios, mas o comportamento do adolescente muda drasticamente.
A prevenção dentro do ambiente familiar continua sendo a ferramenta mais eficaz. Conversar abertamente sobre os riscos matemáticos e emocionais das apostas é essencial para proteger a trajetória acadêmica e profissional das novas gerações.
Fique atento aos seguintes indicadores:
Mudanças no comportamento financeiro
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Pedidos constantes de dinheiro: O jovem passa a pedir “empréstimos” com justificativas vagas para lanches, saídas ou materiais escolares que nunca aparecem.
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Venda de objetos pessoais: Itens como roupas de marca, eletrônicos ou jogos de videogame desaparecem ou são vendidos rapidamente.
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Uso escondido de cartões: Monitorar faturas de cartão de crédito e extratos de contas digitais é essencial. Fique atento a transferências via Pix para nomes de empresas desconhecidas ou processadoras de pagamento.
Alterações emocionais e sociais
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Irritabilidade e ansiedade: O adolescente demonstra nervosismo acentuado, especialmente quando está longe do celular ou do computador.
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Isolamento social: Perda de interesse por hobbies anteriores, esportes ou convivência com amigos e familiares para passar mais tempo em plataformas de apostas.
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Queda no rendimento escolar: Dificuldade de concentração nas aulas, faltas injustificadas ou sono excessivo durante o dia (devido a apostas feitas durante a noite).
Sinais psicológicos e verbais
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Mentiras recorrentes: O jovem começa a mentir sobre onde esteve, com quem falou ou como gastou o próprio dinheiro (mesada).
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Preocupação excessiva com esportes: O interesse pelo jogo deixa de ser técnico ou recreativo e passa a ser focado apenas em estatísticas, “odds” (probabilidades) e resultados de apostas.
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Ciclo de euforia e depressão: Mudanças bruscas de humor dependendo do resultado de uma partida ou de uma aposta específica.
O que fazer ao identificar esses sinais?
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Mantenha a calma: O tom punitivo pode afastar o adolescente e fazê-lo esconder ainda mais o problema.
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Abra o diálogo: Mostre que você está ciente da situação e que deseja ajudar, tratando o vício como uma questão de saúde mental e não de falta de caráter.
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Limite o acesso: Utilize ferramentas de controle parental e, se necessário, faça a autoexclusão do CPF do jovem nas plataformas de apostas.
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Busque ajuda profissional: O teleatendimento do Meu SUS Digital e plataformas como a Aposta Zero oferecem suporte especializado para interromper o ciclo da compulsão.
O que os pais podem fazer
A prevenção começa dentro de casa, com diálogo aberto e sem tom punitivo. A orientação é tratar o adolescente com respeito, estimulando o senso crítico sobre o que ele consome na internet.
| Estratégia de Prevenção | Como aplicar |
| Estimular o senso crítico | Use anúncios de TV para discutir a realidade por trás das promessas de lucro. |
| Discutir riscos reais | Explique o impacto da perda de dinheiro e como o jogo compulsivo afeta a mente. |
| Monitoramento ativo | Acompanhe contas digitais e utilize ferramentas de controle parental. |
| Ambiente seguro | Deixe claro que o jovem pode pedir ajuda sem medo de julgamentos caso se sinta pressionado. |
O caminho para a recuperação e prevenção
A recuperação do vício em jogos é complexa e exige uma abordagem multidisciplinar. Especialistas recomendam:
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Reconhecimento do vício: O primeiro passo é admitir a perda de controle sobre o hábito.
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Apoio especializado: Busca por psicólogos, psiquiatras e participação em grupos como Jogadores Anônimos.
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Regulação de propaganda: Urgência na discussão sobre limites para anúncios de apostas em horários nobres e redes sociais.
Com Assessorias






