Vacina do HPV: por que crianças acima de 9 anos devem ser imunizadas?

Falsa informação de que vacina estimula início precoce da vida sexual leva a baixas coberturas vacinais e aumenta risco de vários tipos de câncer

Gostou desse conteúdo? Compartilhe em suas redes!

No Brasil, cerca de 10 milhões de pessoas estão infectadas pelo papilomavírus humano, conhecido como HPV. A estimativa é que a cada ano no país surjam 700 mil casos novos dessa infecção, que é transmitida principalmente por meio da relação sexualdesprotegida.  Indicada a crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, a vacina contra o HPV está disponível nos postos de saúde o ano inteiro e o esquema de imunização é de dois doses. Mas, infelizmente, ainda há quem classifique erroneamente a vacinação como um modo de estimular o início precoce da vida sexual.

O HPV é a principal causa de câncer de colo de útero, além de ter relação com outros tipos de câncer em homens e mulheres e com o surgimento de verrugas na região genital e no ânus. Neste 4 de março, Dia Mundial de Conscientização sobre o HPV, especialistas destacam a importância da prevenção – por meio da vacinação ainda na infância e adolescência – e da detecção precoce da infecção para reduzir os danos relacionados ao vírus.

“A vacina contra o HPV pode evitar o desenvolvimento de cânceres de colo de útero, ânus, vulva, vagina, pênis e orofaringe relacionados ao vírus do HPV. Porém, é deixada de lado devida à desinformação sobre a essencialidade do imunizante e pelo preconceito pela escolha de público-alvo para o esquema vacinal no SUS”,  afirma Ilzo Vianna Júnio, ginecologista do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe).

A cobertura vacinal contra o HPV no Brasil está abaixo da meta de 90%, como recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS). Em 2022, o Ministério da Saúde informou que 75,91% das meninas da população-alvo tomaram a primeira dose da vacina e 57,44% a segunda. O percentual é ainda mais baixo entre os garotos, na primeira aplicação foram 52,26% imunizados e na última apenas 36,59%.

“A baixa adesão está relacionada principalmente à desinformação sobre os efeitos colaterais do imunizante, que são em sua maioria vermelhidão, inchaço ou dor no braço. Porém, os boatos de outros problemas de saúde impactaram nos índices de aplicação da vacina, apesar de terem sido desmentidos por instituições científicas de altíssima confiabilidade no Brasil e em outros países”, explica o médico, que é encarregado pelo Setor de Patologia do Trato Genital Inferior no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).

20% dos cânceres são causados por vírus, metade deles pelo HPV

“É necessário pontuar que 20% dos cânceres são causados por vírus e metade desse número é consequência do HPV. A situação é ainda pior quando se trata do câncer de colo de útero. Nesses casos, a relação com o papilomavírus humano se apresenta em aproximadamente 97% das investigações”, esclarece o médico.

Também atrapalha nas taxas de imunização o estigma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). O vírus do HPV é transmitido principalmente pelo sexo, porém, também pode ser passado pelo contato físico direto e indireto com as verrugas e lesões causadas pela doença.

O Ministério da Saúde identificou que o índice de HPV nas regiões genitais é de 54,4% nas mulheres, que já iniciaram a vida sexual, e de 41,6% nos homens. Além disso, estima-se que 80% da população sexualmente ativa terá contato com o papilomavírus humano em algum momento da vida, ou seja, o HPV é um problema comum na maturidade.

“Por isso, a importância da vacinação daqueles que ainda não iniciaram a vida sexual, principalmente, também, pela quantidade de variantes do vírus. Existem mais de 100 tipos diferentes de papilomavírus humano e estão associados principalmente ao câncer de colo de útero as variantes 16 e 18 e ao condiloma acuminado (as verrugas), principalmente as 6 e o 11″, alerta o médico.

É importante destacar que o HPV e suas variantes podem permanecer no corpo humano sem apresentar nenhum sinal, o que torna ainda mais propicia a prática do sexo desprotegido e a transmissão do vírus para diferentes parceiros.

“Sendo assim, a adesão à vacinação contra o papilomavírus humano deve ser incentivada e a desinformação o preconceito contra a imunização combatidos. Lembre-se: O HPV é um problema comum e precisa da atenção e do empenho de todos! Vacine-se!“, ressalta.

Quem mais pode receber a vacina do HPV

Luiz Augusto Maltoni, cirurgião oncológico e diretor executivo da Fundação do Câncer, também enfatiza a importância da vacina contra o HPV. Segundo ele, ela é altamente eficaz, principalmente para esses tipos do HPV que são os cancerígenos. E, portanto, é fundamental e importantíssimo que as pessoas se vacinem.

“É importante que todos os adolescentes entre 9 a 14 anos sejam vacinados. A importância de fazer isso nessa faixa etária é devido ao fato de estarem se vacinando antes do início da atividade sexual e, portanto, ficarem protegidos da infecção pelo HPV”, esclarece o médico.

Segundo Maltoni, a principal causa para a taxa de imunização baixa é o desconhecimento. Uma pesquisa feita pela Fundação do Câncer indica que as pessoas não sabem que a vacina protege contra as verrugas, contra o câncer do colo do útero, esses cânceres relacionados ao HPV. Elas também desconhecem o fato de que a vacina é extremamente segura e, de fato, protege contra o vírus do HPV

“Infelizmente, a gente tem no nosso meio, e mesmo no mundo, alguns movimentos anti-vacina completamente absurdos. Anti-ciência. As vacinas salvaram milhões e milhões de pessoas em todo o mundo”, alerta Maltoni.

Atualmente, as vacinas disponíveis protegem contra as principais variantes do vírus. No SUS é possível se imunizar com a quadrivalente e no sistema particular com a nonavalente.

Além de crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, podem receber a vacina do HPV pessoas transplantadas; imunossuprimidas (como as que vivem com HIV/Aids), pacientes oncológicos em uso de quimioterapia e radioterapia, pessoas que tenham sido vítimas de violência sexual. No caso dos homens, a vacinação pode ocorrer até 25 anos e nas mulheres até 45 anos.

‘Com oferta de vacina gratuita, número de casos de câncer de colo de útero é inaceitável”

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que em 2024 mais de 17 mil brasileiras vão receber o diagnóstico de câncer de colo do útero. Esse número equivale a uma taxa ajustada de 13 casos para cada 100 mil brasileiras, superando em três vezes a meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de até quatro casos para cada 100 mil mulheres.

Em seu documento, a OMS ressalta a doença como sendo um problema de saúde pública e que seria necessário reduzir a incidência abaixo para este limiar em todos os países até 2030. No Brasil, esse contexto de alta incidência é visto apesar de haver políticas de controle do câncer de colo do útero desde 2008, ano em que o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de combate aos tumores colo-uterinos e da oferta, desde 2014, da vacina gratuita contra o papilomavírus humano (HPV) no Sistema Único de Saúde (SUS).

No entanto, a adesão ao imunizante é baixa, assim como há gargalos no acesso das brasileiras aos exames preventivos, levando aos números ainda distantes da meta estabelecida pela OMS. De acordo com o Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), diante da oferta de vacina gratuita contra HPV no SUS há dez anos, é inaceitável o alto número de casos de câncer de colo do útero no Brasil. Um gargalo que, segundo o EVA, precisa ser alertado neste Dia Nacional de Conscientização sobre o HPV.

10 anos de vacina contra HPV no SUS

Esse futuro sem câncer de colo do útero passa por uma maior adesão à imunização contra HPV. Levantamento feito pelo EVA na base DataSUS mostra que, a cada ano, houve uma permanente diminuição da quantidade de doses aplicadas. O melhor resultado foi obtido justamente em 2014, quando foram aplicadas quase 8 milhões de doses da vacina contra HPV nas meninas brasileiras.

Naquele ano, a imunização foi levada para dentro das escolas públicas. O número caiu para abaixo de 6 milhões de doses no ano seguinte. E, entre 2016 e 2022 o total não superou a marca de 2 milhões de doses. A boa notícia é que em 2023, segundo o Ministério da Saúde, foram aplicadas 5,8 milhões de doses, aproximando-se da marca registrada em 2015.

A imunização contra o HPV é principal forma de prevenção do câncer de colo do útero. A vacina é disponibilizada pelo SUS para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos de idade, pessoas imunossuprimidas – indivíduos que vivem com HIV ou AIDS; transplantados de órgãos sólidos ou medula óssea; pacientes oncológicos; e vítimas de violência sexual de 9 a 45 anos de idade.

Em busca da cobertura 90-30-90

No plano de metas para 2030, a OMS aponta para a necessidade de que 90% das meninas estejam vacinadas com a vacina contra o HPV até os 15 anos; 70% das mulheres sejam examinadas com um teste de alta qualidade aos 35 e 45 anos e 90% das mulheres recebam tratamento no estágio inicial da doença. Nesta meta 90-70-90, a proposta atual para o país, por meio do movimento Brasil Sem Câncer de Colo do Útero, do qual o EVA faz parte, é de uma adaptação para 90-30-90.

Isso porque a OMS defende o rastreamento de câncer de colo do útero com a técnica de HPV DNA, estimando que 70% das mulheres estejam cobertas por este método de rastreamento. No Brasil, a forma de rastreamento disponível no SUS é pelo exame de Papanicolau. Com base nisso, a defesa do movimento brasileiro é pela realização de Papanicolau anualmente por 30% das mulheres, sendo que, em caso de exame negativo, ele pode ser feito a cada três anos. Sendo assim, em um triênio, 90% das mulheres estariam cobertas com essa técnica de rastreamento.

Teste molecular para HPV no SUS

Paralelamente, o Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) defende a incorporação do teste molecular para o HPV no SUS. A boa notícia é que em janeiro de 2024 houve um parecer preliminar favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) à esta incorporação como meio de detecção do papilomavírus humano (HPV) para rastreamento do câncer do colo do útero no SUS.

O órgão reconhece que as evidências científicas mostram que o rastreamento com testes moleculares para detecção da doença é mais eficiente para a identificação de lesões precursoras do câncer do colo do útero e que isso, consequentemente, contribui para a redução de novos casos e da mortalidade pela doença. Além disso, a identificação precoce do câncer e das lesões pré-malignas permite o uso de tratamentos menos invasivos, a melhora da qualidade de vida durante o tratamento e o aumento da possibilidade de cura.

Apesar do teste molecular ser um exame mais caro do que o Papanicolau, quando realizado na periodicidade de cinco anos observa-se que ele é custo efetivo, principalmente levando-se em consideração que o tratamento do câncer de colo uterino envolve alta complexidade e custos, além de impacto pessoal e social imensuráveis.

“O teste de genotipagem do HPV permite identificar de forma bem mais eficiente a população em risco de vir a desenvolver lesões precursoras ou câncer”, explica o cirurgião oncológico Glauco Baiocchi Neto, presidente do EVA.

Escócia mostra que é possível

Um estudo publicado em 22 de janeiro no Journal of the National Cancer Institute por pesquisadores da Public Health Scotland, ligada ao governo escocês, confirma que a vacina bivalente previne o desenvolvimento de câncer de colo do útero invasivo e que mesmo uma ou duas doses com intervalo de um mês conferem benefícios se administradas aos 12-13 anos de idade.

Em idades mais avançadas, são necessárias três doses para uma eficácia da vacina estatisticamente significativa. Ainda segundo os autores, as mulheres de áreas mais desfavorecidas beneficiam mais da vacinação do que as de áreas menos desfavorecidas.

Em resumo, não foram registados casos de câncer de colo do útero em mulheres imunizadas aos 12 ou 13 anos de idade, independentemente do número de doses. Mulheres vacinadas entre 14 e 22 anos de idade e que receberam três doses da vacina bivalente mostraram uma redução significativa na incidência em comparação com todas as mulheres não vacinadas (3,2 casos para cada 100 mil escocesas, dentro da meta da OMS).

Com Assessorias

 

Gostou desse conteúdo? Compartilhe em suas redes!

You may like

In the news
Leia Mais
× Fale com o ViDA!