Unicef: cai o número de crianças sem vacina na pós-pandemia

Coberturas vacinais contra pólio, sarampo e DTP (difteria, tétano e coqueluche) aumentam em 2022, mas ainda estão abaixo de antes da pandemia

Alice Yasmin Martinez, de 3 meses, nos braços da mãe, Maria Martinez, recebia vacina em unidade de saúde de Manaus (Foto: Hiller / Divulgação Unicef)
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No dia 28 de março de 2023, Alice Yasmin Martinez, de 3 meses, nos braços da mãe, Maria Martinez, recebia a primeira dose da Vacina Inativada Poliomielite (VIP) na unidade de saúde do bairro Colônia Antônio Aleixo, zona leste de Manaus (AM). A cena registrada na foto se repete em outros milhares de postos de saúde pelo Brasil afora, diariamente. Uma realidade muito diferente de 2021, quando milhares de crianças deixaram de ser imunizadas por causa da pandemia do coronavírus.

Para a vacina contra a pólio, que evita a paralisia infantil, a cobertura avançou 6 pontos percentuais, entre 2021 e 2022, chegando a 77%. Já a cobertura vacinal para o sarampo chegou a 81% – melhor que a cifra de 73% em 2021, mas ainda aquém dos 91% em 2019.

O número de crianças que não receberam nenhuma dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP) caiu de 710 mil para 430 mil, entre 2021 e 2022, enquanto a cobertura de DTP1 (administrada pelo programa nacional de imunizações como a vacina pentavalente) avançou 5 pontos, chegando a 84%.

Os dados foram divulgados nesta terça-feira (18/7) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e revelam que os países intensificarem os esforços para lidar com o retrocesso histórico na imunização causado pela Covid-19. Os serviços globais de imunização alcançaram 4 milhões de crianças a mais em 2022 em comparação com ano anterior, mas ainda estão abaixo de 2019.

Em números globais, caiu de 24,4 milhões em 2021 para 20,5 milhões em 2022 o número de crianças que deixaram de receber uma ou mais vacinas por meio dos serviços de imunização de rotina. Apesar dessa melhoria, o número ainda é maior do que os 18,4 milhões de crianças que não foram imunizadas em 2019, antes das interrupções relacionadas à pandemia.

Cobertura vacinal contra o sarampo chegou a 81%, mas está aquém de 91% de 2019

A vacinação contra o sarampo – um dos patógenos mais infecciosos – não se recuperou tão bem quanto outras vacinas, colocando mais 35,2 milhões de crianças em risco de infecção. A cobertura da primeira dose da vacina contra o sarampo aumentou para 83% em 2022, em comparação com 81% em 2021, mas permaneceu abaixo dos 86% alcançados em 2019.

Como resultado, no ano passado, 21,9 milhões de crianças não receberam a vacinação rotineira contra o sarampo em seu primeiro ano de vida – 2,7 milhões a mais do que em 2019 -, enquanto outras 13,3 milhões não receberam a segunda dose, colocando crianças em comunidades com baixa cobertura vacinal em risco de surtos.

Segundo o Unicef, a vacina DTP é utilizada como indicador global de cobertura de imunização. Das 20,5 milhões de crianças que perderam uma ou mais doses dessa vacina em 2022, 14,3 milhões não receberam nenhuma dose, conhecidas como crianças ‘zero-dose’. Esse número representa uma melhoria em relação aos 18,1 milhões de crianças sem nenhuma dose em 2021, mas ainda é maior do que os 12,9 milhões de crianças em 2019.

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Desigualdade no processo de recuperação das coberturas vacinais

Dos 73 países que registraram declínios substanciais na cobertura durante a pandemia, 15 se recuperaram aos níveis pré-pandemia, 24 estão a caminho da recuperação e, o mais preocupante, 34 estagnaram ou continuaram em declínio. Isso mostra que os países ainda enfrentam a necessidade contínua de esforços de recuperação, atualização e fortalecimento do sistema.

Segundo os estudos da OMS e do Unicef, as primeiras etapas da recuperação da imunização global não ocorreram de forma igualitária, com a melhoria concentrada em alguns países. O progresso em países bem financiados com grandes populações de bebês, como Índia e Indonésia, mascara uma recuperação mais lenta ou até mesmo declínios contínuos na maioria dos países de baixa renda, especialmente na vacinação contra o sarampo.

“Esses dados são encorajadores e um tributo àqueles que trabalharam tão arduamente para restaurar os serviços de imunização que salvam vidas após dois anos de declínio na cobertura de imunização. Mas as médias globais e regionais não contam a história completa e escondem desigualdades graves e persistentes. Quando os países e regiões ficam para trás, as crianças pagam o preço”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

‘Aviso grave por trás da tendência positiva’, diz Unicef

Essas tendências preocupantes ecoam padrões observados em outras métricas de saúde. Os países devem garantir que estejam acelerando os esforços de atualização, recuperação e fortalecimento para alcançar todas as crianças com as vacinas de que precisam e, aproveitando que a imunização de rotina é um pilar fundamental da atenção primária à saúde, progredir em outros setores de saúde relacionados.

Para Catherine Russell, diretora executiva do Unicef, ‘”por trás da tendência positiva, há um aviso grave”.

“Até que mais países corrijam as lacunas na cobertura de imunização de rotina, as crianças em todo o mundo permanecerão em risco de contrair e morrer de doenças que podemos prevenir. Vírus como o sarampo não reconhecem fronteiras. Os esforços devem ser fortalecidos com urgência para alcançar as crianças que perderam suas vacinações, ao mesmo tempo em que se restaura e melhora ainda mais os serviços de imunização em relação aos níveis pré-pandemia”.

Os países que mantiveram uma cobertura estável e sustentada nos anos anteriores à pandemia conseguiram estabilizar melhor os serviços de imunização desde então, conforme indicado pelos dados. Por exemplo, a Ásia Meridional, que relatou aumentos graduais e contínuos na cobertura na década anterior à pandemia, demonstrou uma recuperação mais rápida e robusta do que as regiões que sofreram declínios prolongados, como a América Latina e o Caribe.

A região africana, que está atrasada em sua recuperação, enfrenta um desafio adicional. Com um aumento na população infantil, os países devem ampliar os serviços de imunização de rotina a cada ano para manter os níveis de cobertura.

Aliança das Vacinas reforça cobertura em países de baixa renda

Pela primeira vez, a cobertura da vacinação contra o HPV superou os níveis pré-pandemia. Os programas de vacinação contra o HPV que começaram antes da pandemia alcançaram o mesmo número de meninas em 2022 do que em 2019.

No entanto, a cobertura em 2019 estava bem abaixo da meta de 90%, e isso se manteve verdadeiro em 2022, com coberturas médias nos programas de HPV atingindo 67% nos países de alta renda e 55% nos países de baixa e média renda.

A recém-lançada revitalização do HPV, liderada pela Aliança Gavi, tem como objetivo fortalecer a entrega dos programas existentes e facilitar mais introduções.

A cobertura da vacina DTP3 nos 57 países de baixa renda apoiados pela Gavi, a Aliança das Vacinas, aumentou para 81% em 2022 – um aumento considerável em relação aos 78% em 2021 – e o número de crianças sem nenhuma dose que não recebem vacinas básicas também diminuiu em 2 milhões nesses países.

No entanto, o aumento na cobertura da DTP3 nos países que implementam a Gavi foi concentrado nos países de renda média-baixa, com os países de baixa renda ainda não aumentando a cobertura – indicando o trabalho restante para ajudar os sistemas de saúde mais vulneráveis a se reconstruírem.

“É extremamente reconfortante, após a enorme interrupção causada pela pandemia, ver a imunização de rotina se recuperando tão bem nos países apoiados pela Gavi, especialmente em termos de redução do número de crianças sem nenhuma dose”, disse Seth Berkley, CEO da Gavi, a Aliança das Vacinas.

No entanto, ressalta, também fica claro a partir deste estudo que é preciso encontrar maneiras de ajudar todos os países a proteger sua população. “Caso contrário, corremos o risco de surgirem duas trajetórias, com países de renda média-baixa maiores ultrapassando o restante”.

IA2030: Campanha global para reforçar imunização

A OMS e o Unicef estão trabalhando com a Gavi, a Aliança das Vacinas, e outros parceiros para implementar a Agenda de Imunização Global 2030 (IA2030), uma estratégia para que todos os países e parceiros globais relevantes alcancem metas estabelecidas para prevenir doenças por meio da imunização e fornecer vacinas para todos, em todos os lugares, em todas as idades.

Muitos interessados estão trabalhando para acelerar a recuperação em todas as regiões e em todas as plataformas de vacinas. No início de 2023, a OMS e o Unicef, juntamente com a Gavi, a Fundação Bill & Melinda Gates e outros parceiros da IA2030, lançaram o movimento  “The Big Catch-Up”.

A campanha global de comunicação convoca os governos a recuperarem as crianças que perderam vacinações durante a pandemia, a restaurar os serviços de imunização aos níveis pré-pandemia e a fortalecê-los para o futuro, através de algumas ações como:

Reforçar o compromisso de aumentar o financiamento para imunização e trabalhar com os interessados para desbloquear recursos disponíveis, incluindo fundos Covid-19, para restaurar urgentemente serviços interrompidos e sobrecarregados e implementar esforços de recuperação.

Desenvolver novas políticas que permitam que os imunizadores alcancem as crianças que nasceram antes ou durante a pandemia e que estão ultrapassando a idade em que seriam vacinadas pelos serviços de imunização de rotina.

Fortalecer os serviços de imunização e atenção primária à saúde, incluindo sistemas de saúde comunitários, e enfrentar desafios sistêmicos de imunização para corrigir a estagnação de longo prazo na vacinação e alcançar as crianças mais vulneráveis.

Construir e sustentar a confiança e aceitação das vacinas por meio do engajamento com comunidades e profissionais de saúde.

Quedas acentuadas acima de 5% durante a pandemia

Sobre os dados do levantamento divulgado nesta terça-feira, OMS e o Unicef explicam que uma diminuição substancial é considerada uma queda de 5 pontos percentuais ou mais em 2020 e/ou 2021 em comparação com 2019. Flutuações menores na cobertura não eram incomuns antes da pandemia.

2019202020212022
Cobertura da DTP386%83%81%84%
Número de crianças com vacinação incompleta18.4m22.3m24.5m20.5m
Cobertura de DTP190%88%86%89%
Número de crianças ‘zero-dose’12.9m16.1m18.1m14.3m

Os dados indicam quantas crianças do grupo etário-alvo para os serviços de imunização de rotina foram alcançadas em 2022. Eles não estão estruturados para capturar a recuperação daqueles que foram perdidos durante a pandemia, já que muitas dessas crianças já podem ter “ultrapassado” a faixa etária dos serviços de imunização locais. No entanto, é possível que algumas recuperações tenham sido registradas como serviços “de rotina” e estejam refletidas nos dados.

Com base em dados relatados pelos países, as estimativas da OMS e do Unicef sobre a cobertura nacional de imunização (WUENIC) fornecem o maior e mais abrangente conjunto de dados do mundo sobre tendências de imunização para vacinas contra 13 doenças administradas por meio de sistemas de saúde regulares – normalmente em clínicas, centros comunitários, serviços de alcance ou visitas de profissionais de saúde. Para 2022, os dados foram fornecidos por 183 países.

Veja os dados da OMSGlobal dashboardFull datasetsinformation page

Do Unicef, com Redação

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