O estado do Rio de Janeiro enfrenta o que especialistas já chamam de uma “explosão silenciosa” na saúde mental. Dados inéditos da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) revelam que, entre 2023 e 2025, as 27 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da rede estadual realizaram 169.838 atendimentos relacionados a sofrimentos psíquicos.

A escalada é clara: o volume de pacientes saltou de 50,6 mil em 2023 para mais de 64,4 mil no último ano. No topo das queixas estão transtornos como ansiedade generalizada, pânico, insônia e estresse pós-traumático.

O perfil da crise: jovens mulheres sob pressão

O levantamento aponta um recorte demográfico sensível. As mulheres entre 20 e 29 anos são as principais usuárias do sistema de emergência por questões emocionais, com um aumento de 38% nas ocorrências deste grupo em três anos.

Segundo gestores da rede, fatores como a sobrecarga de trabalho, responsabilidades familiares e a pressão estética das redes sociais contribuem para este cenário. “Saúde mental é prioridade e precisa ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outra condição clínica”, afirma a secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello.

Emergência e suporte: o papel das UPAs e do Samu

As UPAs e o Samu têm sido a porta de entrada para crises agudas. Das ocorrências registradas:

  • 3.428 casos foram de lesões autoprovocadas ou intoxicações intencionais.

  • 4.509 pacientes precisaram de internação para observação.

  • O Samu realizou cerca de 75,8 mil atendimentos ligados a transtornos mentais no período, representando 12% do total de sua demanda na capital.

Para enfrentar o aumento, a SES-RJ tem investido na capacitação de socorristas e médicos para uma abordagem humanizada, além de articular o encaminhamento desses pacientes para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), garantindo o tratamento contínuo pós-crise.

Notas que curam: o poder do vinil na terapia

Enquanto as UPAs lidam com a urgência, o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), na Gamboa, aposta na arte como ferramenta de reabilitação. A unidade abriga uma discoteca com mais de 5.600 discos de vinil, um acervo raro que serve de ponte para a memória afetiva dos pacientes.

Um dos guardiões desse tesouro é Rafael Carvalho da Silva, paciente da unidade desde 2013, que opera a rádio interna e seleciona trilhas que vão de Milton Nascimento a peças de teatro clássicas.

A gente lê as poesias, ouve, comenta. É uma experiência estética completa”, explica o diretor-geral do CPRJ, Francisco Sayão.

De hospital a Ponto de Cultura

Neste Janeiro Branco, o CPRJ celebra uma nova fase: o reconhecimento oficial como Ponto de Cultura. Com o apoio do prêmio Asas (Política Nacional Aldir Blanc), a unidade planeja abrir o espaço para visitação pública e eventos noturnos, integrando pacientes e a comunidade local.

As comemorações ganham um reforço especial em abril de 2026, quando o grupo musical Harmonia Enlouquece — formado por pacientes e profissionais — completa 25 anos de estrada com o lançamento do álbum “Quinto dos Infernos”.

Leia mais

Onde buscar apoio à saúde mental pelo SUS em Niterói?
Janeiro Branco: como cuidar da saúde mental em 5 passos
Como superar a ressaca emocional e priorizar a saúde mental

Ministério da Saúde vai revisar custeio e diretrizes da rede de saúde mental

Enquanto os números de atendimentos no Rio de Janeiro evidenciam a pressão sobre as UPAs, o governo federal iniciou um movimento para reformular a estrutura da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) em todo o país. Publicada em janeiro de 2026, uma nova portaria do Ministério da Saúde instituiu um Grupo de Trabalho (GT) que terá até 180 dias para propor revisões nas normas de financiamento e organização dos serviços.

O objetivo é atualizar portarias de 2017 para que o sistema público possa responder a novas e complexas demandas surgidas ou agravadas nos últimos anos, como:

  • O aumento de diagnósticos de autismo.

  • Os impactos psicológicos dos jogos e apostas online.

  • A crescente medicalização de crianças e adolescentes.

  • Os desafios de saúde mental enfrentados pela população em situação de rua.

Foco na integração e no cuidado em liberdade

A revisão, que conta com a participação de representantes de estados (Conass) e municípios (Conasems), busca sanar gargalos históricos, como a dificuldade de prefeituras em custear a assistência e a falta de profissionais capacitados em regiões de difícil acesso.

Para os gestores, o foco não é apenas financeiro, mas sim garantir que a rede funcione de forma integrada: desde o primeiro atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) até o suporte especializado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e o atendimento de emergência em UPAs e no Samu.

A iniciativa busca aprimorar a articulação entre os diferentes pontos de atenção, garantindo o cuidado em liberdade e a gestão compartilhada”, informou o Ministério da Saúde.

O que muda para o paciente?

Com a revisão das diretrizes, espera-se que o fluxo de atendimento seja mais fluido, evitando que casos que poderiam ser resolvidos na atenção básica sobrecarreguem as unidades de emergência. A proposta reforça os princípios da Reforma Psiquiátrica, priorizando o atendimento humanizado e comunitário em detrimento de modelos isolados.

As sugestões do grupo de trabalho serão submetidas à Comissão Intergestores Tripartite, o que pode resultar em novos repasses de recursos para que estados como o Rio de Janeiro possam expandir suas equipes e qualificar o acolhimento nas pontas do sistema.

Precisa de ajuda?

Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, procure a UPA mais próxima ou ligue 188 para o Centro de Valorização da Vida (CVV). A saúde mental importa.

Com informações da SES-RJ e Agência Brasil

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *