No verão, o movimento no litoral fluminense aumenta. Na orla da zona sul carioca, a maior concentração de banhistas fica nas praias de Copacabana e Ipanema, mas aos poucos, moradores de várias partes do Rio de Janeiro e também turistas vêm redescobrindo a Praia do Flamengo, que durante muitos anos foi conhecida como ‘brejo’, devido às péssimas condições de balneabilidade, causadas pela poluição da Baía de Guanabara.
A água aqui é mais tranquila e o movimento também é menor nesse período do que em outras praias, como Copacabana”, diz Reginaldo da Silva, frequentador recorrente da Praia do Flamengo.
Mesma impressão teve a comerciária Ana Paula Vicente, de 45 anos, que mora no Rio há mais de 25 e pelo menos há dez não frequentava as praias da cidade. Como outros moradores e visitantes, ela também evitava a Praia do Flamengo, devido aos riscos à saúde por conta da poluição. Mas, incentivadas pelas amigas, resolveu se aventurar no último sábado (10) de forte calor na cidade.
Só ia à praia na Região dos Lagos ou lá no Nordeste. Adorei a Praia do Flamengo: o mar estava muito tranquilo, com água morna e sem ondas. Tinha menos gente que em outras praias que vejo pela TV e me senti muito segura”, contou ela, que ainda aproveitou o festival itinerante Rock 80, que estava montado bem em frente ao Posto 3, onde ficou.
Rio e Niterói têm 18 praias próprias para banho
A Praia do Flamengo está entre as 19 praias das zonas sul e oeste do Rio de Janeiro e da cidade de Niterói consideradas próprias para banho no mais recente boletim de balneabilidade do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), divulgado nesta sexta-feira (16), com validade para o período de 16 a 18 de janeiro A única exceção fica por conta do trecho próximo da foz do Rio Carioca, que infelizmente ainda sofre com o despejo irregular de esgoto.
Outras três praias têm pontos específicos de atenção: as praias da Barra da Tijuca (com exceção do Quebra-mar, em frente à Rua Sargento João de Faria), Copacabana (exceto em frente à Rua Francisco Otaviano) e Botafogo (exceto em frente à Rua Marquês de Olinda). O boletim aponta como impróprias para banho as praias de Barra de Guaratiba, Arpoador e Glória.
Na capital, o instituto aponta condição totalmente favorável em Grumari, Prainha, Pontal de Sernambetiba, Recreio, Reserva, Joatinga, Pepino, Vidigal, São Conrado, Leblon, Ipanema, Diabo, Leme, Vermelha, Urca. Em Paquetá, o Inea informa que todas as praias analisadas estão recomendadas para banho: Imbuca, Ribeira, Grossa, Tamoios, Catimbau, Coqueiros, Moreninha, José Bonifácio e Prainha.
Redução de mais de 90% da poluição na Praia do Flamengo
De acordo com a Secretaria de Estado do Ambiente, desde a concessão dos serviços de saneamento, em 2021, as águas da Baía de Guanabara ganharam destaque em diversas ocasiões, como a volta da balneabilidade em praias como Flamengo e Botafogo, o reaparecimento de espécies marinhas e até mesmo a redução de mais de 90% da poluição na Praia do Flamengo.
Nem sempre foi assim. Durante décadas arriscar-se nas águas da Praia do Flamengo, além de ser um perigo para a saúde, representava um risco à segurança, já que não havia policiamento na região. Hoje, muitos moradores estão desistindo de frequentar praias badaladas, como Ipanema, para aproveitar o verão no antigo ‘brejo’. Ambulantes também lucram.
Trabalho vendendo gelo aqui há 10 anos e dá pra perceber que mais gente tem frequentado, o que ajuda a aumentar nossa renda. Nessas últimas semanas tenho visto muitos turistas, até de fora do país. Hoje mesmo é uma segunda-feira normal, que, em outra época, não teria esse movimento”, comemorou o ambulante José Ricardo.
Algumas obras foram essenciais para que esses resultados se tornassem realidade. Dentre elas, o desvio do Rio Carioca, que escoava para a Praia do Flamengo e que foi desviado para o interceptor oceânico, fez com que fosse evitado o despejo de 20 milhões de litros de água contaminada diretamente na praia. Além disso, o Inea em conjunto com a concessionária, trabalha para identificar os lançamentos irregulares de esgoto nas galerias pluviais e ao longo do Rio Carioca.
Desde que fizeram essas obras para o desvio de esgoto, a gente consegue ver de perto as mudanças na praia. Trabalho aqui há mais de 20 anos e acompanho diariamente esse movimento – completa o baiano Adenilson Santos, dono de uma barraca já conhecida pelos visitantes da praia pelas duas décadas na região.
Saiba onde fica a foz do Rio Carioca? Esse vídeo explica!
Niterói: avanço histórico em 2025, com 11 praias liberadas

Em Niterói, o cenário também é de recuperação ambiental. A cidade colhe os frutos de investimentos recordes em saneamento realizados ao longo de 2025. Um levantamento do Inea mostra que 11 das 14 praias do município melhoraram seus índices de balneabilidade no último ano. “Niterói trata 100% do esgoto coletado e lidera o ranking estadual”, afirmou o prefeito Rodrigo Neves, destacando que a cidade planeja universalizar a coleta até 2028.
A Praia do Sossego, que detém a Bandeira Azul, atingiu 100% de balneabilidade em 2025. Outros destaques positivos são Piratininga, Camboinhas e Itaipu. No mais recente boletim, o instituto classifica como próprias as praias de Gragoatá, Boa Viagem, Flechas, Eva, Adão e Itacoatiara.
Outras duas praias muito frequentadas também estão próprias, com algumas observações: Icaraí (exceto em frente à Praça Getúlio Vargas e à Rua Mariz e Barros) e São Francisco (exceto em frente à Rua Caraíbas). Até mesmo áreas historicamente críticas, como a Praia de Jurujuba, apresentaram evolução, saltando de 23% para 47% de condições adequadas. O banho é desaconselhado em Charitas e Jurujuba.
Cariocas ‘ganham’ uma nova praia
O trabalho tem dado tão certo que o estado reconheceu oficialmente em outubro de 2024, a existência uma nova praia na cidade: a Praia da Glória, vizinha ao Flamengo, que ocupa um pequeno trecho da orla – veja mais aqui.
Apesar de positivo, o cenário ainda exige cautela dos banhistas. A praia aparece como imprópria para banho no mais recente boletim de balneabilidade do Inea, divulgado em janeiro de 2026, junto com as praias de Barra de Guaratiba, Arpoador e Botafogo.
Outros pontos específicos de praias liberadas podem apresentar irregularidades, como é o caso da Barra da Tijuca (em frente à Rua Sargento João de Faria), de Ipanema (em frente à Rua Joana Angélica).
Alerta de saúde: os riscos das águas poluídas
Apesar do entusiasmo com os avanços, o Inea e especialistas em saúde reforçam um alerta crucial: o banho em águas impróprias pode causar sérios problemas de saúde. A poluição hídrica, geralmente causada pelo descarte irregular de esgoto e resíduos, expõe o banhista a bactérias, vírus e protozoários.
As doenças mais comuns incluem:
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Gastroenterites: Causando vômitos, diarreia e febre.
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Infecções na pele e nos olhos: Como dermatites e conjuntivite.
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Doenças graves: Em casos de alta carga poluidora, há risco de hepatite A e micoses.
O órgão ambiental orienta que o banho seja evitado nas 24 horas após a ocorrência de chuvas e que os banhistas nunca mergulhem próximos a saídas de galerias de águas pluviais ou canais de drenagem, onde a concentração de contaminantes é maior.
Como se prevenir de viroses
Durante o verão, muitos turistas escolhem o litoral para descansar e curtir com a família e amigos. Ao mesmo tempo em que o local possa ser bastante divertido, há pequenos imprevistos que podem acabar com o passeio, como as viroses.
No verão de 2025, diversos casos de gastroenterite foram registrados no Brasil, gerando vômitos, febre, diarreia e indisposição, mas os banhistas também podem contrair infecções de pele, garganta, nariz e ouvido.
Para evitar esses problemas e ter um passeio tranquilo, a balneabilidade, que é a condição da água, é a principal aliada, pois é ela que determina as condições e a segurança da água. A cor e a aparência do mar não indicam necessariamente sua qualidade.
Embora não exista uma fórmula que garanta 100% de proteção contra a contaminação, alguns cuidados podem ser tomados para garantir uma experiência alegre e saudável. Confira:
- Na praia, verifique as placas. Elas são colocadas na areia pelas equipes do Corpo de Bombeiros e informam a qualidade atual da água na região;
- Exija transparência no processo de análise em hotéis e pousadas. Caso você esteja hospedado em locais com piscina, verifique a segurança da água;
- Evite alimentos preparados em locais com más condições de higiene, além de crus e mal cozidos;
- Não ingerir bebidas que não estejam lacradas ou que possam ter contato com a água do mar;
- Caso contraia a virose, hidrate-se, evite compartilhar itens de higiene e procure um posto médico se os sintomas evoluírem.
Dica ao banhista: Antes de sair de casa, consulte sempre o boletim atualizado no site oficial do Inea para garantir um lazer seguro e saudável.
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Inovação e tecnologia no monitoramento das águas
O avanço na qualidade das águas fluminenses também é impulsionado pelo uso de tecnologia de ponta. A Cedae, em parceria com o Inea, está ampliando o monitoramento da bacia do Rio Guandu com um sistema que opera 24 horas por dia. Entre as inovações, destacam-se:
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Câmeras Espectrais: Tecnologia similar à utilizada pela Nasa, capaz de identificar até 20 parâmetros físico-químicos da água e detectar rapidamente despejos clandestinos.
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Monitoramento aéreo e naval: Uso de drones e helicópteros para fiscalizar áreas remotas contra desmatamento de matas ciliares, além de sondas flutuantes que emitem alertas em tempo real.
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Laboratório Libra: Criado para o rastreamento ambiental, o laboratório monitora mais de 35 pontos dos mananciais e conta com uma equipe de “sommeliers de água” para o controle sensorial da água tratada.
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Programa Limpa Rio: Entre 2022 e 2025, a iniciativa desassoreou quase 2 mil trechos de rios e canais, retirando mais de 8,3 milhões de metros cúbicos de resíduos em todo o estado.
Essa estrutura tecnológica permite que a água na lagoa de captação do Sistema Guandu seja atualmente considerada tão limpa que é classificada como própria para o banho.
Legislação indica quais bactérias devem ser analisadas
O principal contaminante das praias é o esgoto. Em locais sem saneamento básico, acaba sendo lançado em rios, cujo destino são as praias. Embora a contaminação seja mais frequente no mar devido ao fluxo de água, ela também pode ocorrer em piscinas.
As principais bactérias que causam essas viroses são Escherichia coli e Enterococcus, encontradas em praias com baixa qualidade da água. Um mar próprio para banho apresenta níveis reduzidos dessas bactérias, enquanto os impróprios são poluídos, geralmente com alta concentração de coliformes fecais. A contaminação também pode ocorrer pela ingestão de alimentos ou bebidas contaminados.
As análises microbiológicas são realizadas em laboratórios, a partir de amostras, para identificar a presença de poluentes e coliformes que podem representar riscos à saúde pública. A legislação que estabelece critérios e limites para a balneabilidade é a RDC 274, criada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e é seguida por empresas, como o laboratório Aquavita, que realiza análises ambientais focadas na sustentabilidade e qualidade, com ênfase no bem-estar.
Como são feitos os testes de balneabilidade
Ana Paula Gonçalves Bohm, CEO da Aquavita, explica que a parte bacteriológica e microbiológica da RDC 274 fala de dois tipos de bactérias patogênicas (E. coli e enterococcus) provenientes de contaminação fecal, ou seja, vindas do esgoto. “Realizar uma análise é muito importante, pois é a partir dela que a gente vê se a praia realmente está própria ou não pro banho”, explica.
Para a realização da análise, a Aquavita utiliza diversos insumos e materiais. Na testagem para a identificação da E. coli, o MFC é utilizado para analisar coliformes termotolerantes. Já para a bactéria enterococcus, os meios de cultura e a placa de petri estéril fazem parte dos materiais.
A verdade é que nós, como turistas, raramente vamos olhar que testes são realizados para a balneabilidade das praias, mas acreditamos que os resultados que são entregues são confiáveis. Para que haja essa confiança, os laboratórios e analistas precisam utilizar produtos de ótima qualidade e que façam sentido para a análise em si”, destaca Nathalia Nascimento, assessora científica da Kasvi.
Com informações de Assessorias











