Todos os dias, cerca de 85 brasileiros passam pelo processo de amputação. Dados da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) mostram que, em 2022, foram realizadas mais de 31 mil amputações no país. Seja por complicações decorrentes de doenças como diabetes e problemas vasculares, por acidentes ou outras condições, a perda de um membro traz mudanças que vão além do corpo.

Para muitos, encarar essa realidade significa reaprender a caminhar, a trabalhar e a se movimentar. Retomar a autonomia e a confiança no próprio movimento se torna um desafio diário. É nesse contexto que a campanha Abril Laranja ganha força. A iniciativa, encabeçada no Brasil por instituições como a Associação Brasileira de Ortopedia Técnica (Abotec), busca ampliar a informação sobre prevenção e reabilitação de pessoas amputadas.

O Abril Laranja alerta para a amputação e o impacto que ela causa, mas também reforça que a vida continua. Muitas amputações poderiam ser evitadas, especialmente as causadas por diabetes e acidentes de trânsito – só em São Paulo, são 1.200 mortes por ano”, explica Peter Kuhn, ortesista, protesista e presidente da Abotec.

‘Não chorei quando descobri que iam cortar minha perna’

Entre aqueles que enfrentaram esse caminho está o paratleta Vinicius Rodrigues. Vice-campeão paralímpico, ele amputou a perna esquerda aos 19 anos, após um acidente de moto em Maringá, no Paraná. O impacto da amputação, no entanto, foi menos sobre o físico e mais sobre a incerteza do futuro.

Eu não chorei quando descobri que iam cortar minha perna. Chorei quando vi minha mãe chegando. Ela veio: ‘meu filho’, e eu disse: ‘não vou morrer não, só vão cortar minha perna. Não chora que eu vou chorar‘. Ela chorou e eu desabei. Imagina, a gente era duro, como ia comprar uma perna?“, relembra ele.

Foi com a indenização do acidente que o atleta decidiu mudar de vida. Partiu para São Paulo e encontrou no esporte um caminho.  “Engraçado que muitas pessoas perdem um dedo e se aposentam. Eu, ao contrário, perdi uma perna e construí uma carreira. Recebi uma indenização pelo acidente e com esse dinheiro fui pra São Paulo. Treinei, fiquei quatro anos, treinava na academia. Ia pro centro olímpico, enfim, a amputação nunca me limitou“, reforça.

Vinicius chamou atenção ao participar do Big Brother Brasil, edição 2024, onde mostrava o funcionamento das próteses e dos equipamentos que levou para o programa, que são essenciais tanto para sua rotina fora da casa, nas competições em que participa e nas provas realizadas durante o reality show.

 

‘Depois de três meses, eu já estava andando e com a prótese’

A trajetória de superação também é compartilhada por Sabrina Custódio. Em 2010, aos 22 anos, ela sofreu um acidente doméstico que resultou na amputação de ambos os braços e da perna esquerda. Durante a recuperação, encontrou no esporte uma forma de ressignificar sua vida. Assim como Vinicius, ela contou com o apoio incondicional da mãe para encarar a nova rotina.

Depois de três meses em recuperação, eu já estava andando e com a prótese. Fui a uma feira de reabilitação e lá tinham vários tipos de esportes: vôlei sentado, basquete para cadeira de rodas, corrida. Naquela época eu queria fazer tudo o que aparecesse, não queria perder nenhuma oportunidade”, conta Sabrina.

Com o apoio de sua mãe e de figuras como o maratonista Paulo de Almeida, que lhe forneceu uma lâmina para a prótese da perna, Sabrina iniciou no paradesporto. Hoje, é recordista brasileira nos 200, 300 e 400 metros do salto em distância e campeã brasileira de ciclismo.

Minha mãe me apoia até hoje. Eu sou filha única, e ela sempre esteve comigo, cuidando de mim e fazendo de tudo. Quando comecei a praticar esporte, ela foi a primeira a me apoiar, me acompanhar nas competições, nos treinos, dando a maior força”, finaliza a atleta.

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Órteses e próteses cada vez mais avançadas

Com objetivo de conscientizar sobre a prevenção e a importância da reabilitação de pessoas amputadas, o Abril Laranja a acontece ao longo de todo o mês e mobiliza profissionais de saúde, pacientes e instituições ligadas à ortopedia técnica. O movimento cresce a cada ano e já chegou à Argentina e à Bolívia.

A campanha também destaca a importância do avanço da tecnologia para a mobilidade de pessoas amputadas. Hoje, próteses mais leves, responsivas e adaptadas às necessidades individuais fazem toda a diferença no processo de reabilitação.

A tecnologia tem evoluído e oferece cada vez mais soluções para garantir mobilidade e independência. Nosso objetivo é ampliar essa mensagem e mostrar que é possível seguir em frente”, diz Peter Kuhn, ortesista, protesista e presidente da Abotec.

A iniciativa tem apoio de marcas como a Ottobock, que desenvolve próteses e órteses no Brasil. Thomas Pfleghar, diretor técnico da América Latina da Ottobock. alerta para a necessidade de políticas de acesso a próteses de qualidade.

A pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias são fundamentais para oferecer mais conforto, segurança e desempenho aos usuários de próteses”, disse. Segundo ele, são soluções que ampliam a mobilidade e a qualidade de vida das pessoas amputadas, possibilitando que elas sigam seus caminhos com autonomia“, afirma 

Para Thomas, é preciso comprometimento de toda a sociedade na conscientização da relevância da pesquisa nesta área. “O poder público, instituições, empresas precisam dar visibilidade à causa, e a campanha surge como essencial para essa discussão”, diz o executivo.

Para saber mais sobre a campanha, acesse www.abrillaranja.org.br.

Com Assessorias

 

 

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