O uso de canetas emagrecedoras ganhou projeção entre celebridades nos últimos anos, mas relatos recentes passaram a expor um efeito pouco discutido fora do meio médico: o efeito rebote, caracterizado pelo ganho de peso após a interrupção do medicamento. O tema voltou ao debate público quando figuras conhecidas decidiram falar abertamente sobre o que aconteceu depois que pararam as aplicações, mostrando que a perda rápida nem sempre se sustenta sem um plano de manutenção.

A apresentadora Oprah Winfrey, de 71 anos, relatou ter ganhado cerca de 9 kg depois de interromper o uso das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos injetáveis baseados em GLP-1, amplamente usados para perda de peso. Oprah contou que começou o tratamento em 2023, quando chegou a pesar 107 kg, e chegou a perder 23 kg com o uso da medicação, antes de decidir pausar as aplicações no início de 2025.

Em entrevista ao programa “Today”, a americana explicou que manteve uma rotina saudável durante o período sem a medicação, incluindo alimentação equilibrada e exercícios, mas ainda assim viu o peso voltar. Mesmo mantendo exercícios e hábitos considerados saudáveis, ela descreveu que o apetite retornou gradualmente até perceber que o controle não era mais o mesmo sem o remédio. 

Fiquei sem tomar os medicamentos durante todo o ano passado e engordei 9 quilos porque queria testar”, disse Oprah, refletindo sobre a dificuldade de manter os resultados sem o apoio farmacológico. 

Outros casos de efeitos rebote após uso dos medicamentos

O impacto do depoimento foi amplificado pelo histórico público de Oprah com o peso, tornando o caso um dos símbolos do debate atual.  Também nos Estados Unidos, a influenciadora Remi Bader também relatou ter engordado novamente após interromper o uso do Ozempic.

Segundo ela, o retorno da fome foi intenso e dificultou a manutenção do padrão alimentar, levando a um ganho de peso maior do que o esperado. O relato reacendeu discussões sobre dependência metabólica e emocional associadas ao uso dessas medicações.

O ator e comediante Tracy Morgan abordou o assunto em tom bem-humorado ao dizer que chegou a engordar cerca de 18 quilos, chamando atenção para o fato de que o medicamento, por si só, não garante resultado quando o comportamento alimentar não muda. O comentário acabou reforçando a ideia de que a caneta não atua de forma isolada e pode ser “contornada” por hábitos incompatíveis com o tratamento.

No Brasil, o cantor MC Binn também falou publicamente sobre o rebote. Após emagrecer, ele contou que relaxou a rotina, voltou a ganhar peso e chegou novamente à casa dos 132 a 133 quilos, descrevendo o processo como um impacto físico e emocional. O relato evidenciou o risco do efeito sanfona quando o emagrecimento não é sustentado ao longo do tempo.

Estudo revela maior rapidez na recuperação do peso perdido com canetas

O caso reforça achados científicos recentes que mostram que a interrupção de tratamentos com análogos de GLP-1 pode levar a uma recuperação de peso mais rápida do que a observada em quem perde peso apenas com mudanças de hábitos.

Uma pesquisa divulgada no último dia 7 de janeiro pelo British Medical Journal, aponta que pessoas que interrompem o uso de canetas emagrecedoras, como Mounjaro e Wegovy, tendem a recuperar o peso perdido até quatro vezes mais rápido do que aquelas que emagrecem apenas com dieta e exercícios.

Segundo os dados, durante o tratamento os pacientes perdem cerca de um quinto do peso corporal, mas, após a suspensão, o reganho médio é de aproximadamente 0,8 kg por mês, o que pode levar ao retorno ao peso anterior em cerca de um ano e meio.

O estudo, baseado em uma análise de 37 ensaios clínicos com mais de 9 mil pacientes, também destaca que a recuperação de peso após dietas convencionais ocorre de forma mais lenta, em média cerca de 0,1 kg por mês, e alerta que os resultados analisados vêm de ensaios clínicos, não de situações da vida real, o que reforça a necessidade de mais pesquisas sobre os efeitos de longo prazo dessas medicações.

O que explica o reganho de peso após a interrupção do medicamento

Para o médico Marcelo Carneiro, do reality Quilos Mortais Brasil, especialista em tratamento da obesidade e diretor da Obesicenter, os números reforçam um ponto central que muitas vezes não fica claro para os pacientes: a obesidade é uma condição crônica que frequentemente demanda acompanhamento contínuo, e a simples suspensão do medicamento pode resultar em ganho de peso significativo.

As canetas emagrecedoras representam um avanço importante e realmente entregam perdas expressivas, em torno de 15% a 20% do peso, enquanto o tratamento é mantido. O desafio é que a obesidade é uma doença crônica. Quando a medicação é interrompida, o organismo tende a voltar ao padrão metabólico anterior, o que explica o reganho de peso observado nos estudos”, afirma.

Segundo o Dr. Marcelo, isso ajuda a explicar por que muitos pacientes precisam de uso prolongado ou contínuo das canetas para manter os resultados, o que envolve custo mensal elevado e acompanhamento médico constante. Além de destacar os riscos do efeito sanfona após a interrupção e da expectativa de que os injetáveis substituam a bariátrica, ele ressalta a importância de estratégias de longo prazo no tratamento da obesidade.

Para o médico Gabriel Almeida, especialista em emagrecimento, os casos ajudam a esclarecer o que está por trás do fenômeno. Ele explica que o efeito rebote é esperado quando a interrupção ocorre sem estratégia clínica.

Essas medicações reduzem a fome e alteram a saciedade. Quando a pessoa para sem planejamento, o apetite volta e o corpo tenta recuperar o peso perdido”, afirma. Segundo ele, o problema se agrava quando há perda de massa muscular durante o processo. “Ao interromper, o ganho costuma ser principalmente de gordura, o que piora o metabolismo”, diz.

O médico reforça que o tratamento da obesidade deve ser encarado como um processo contínuo e individualizado. “O medicamento pode ser uma ferramenta importante, mas não funciona sozinho. Sem mudança consistente de hábitos e acompanhamento adequado, o ganho de peso acaba sendo apenas uma questão de tempo”, conclui.

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Reganho de peso é a resposta do organismo

Para a endocrinologista  Alessandra Rascovski, o ganho de peso após a suspensão das canetas emagrecedoras não deve ser interpretado como falta de disciplina ou esforço individual. Os análogos do GLP-1 atuam diretamente nos mecanismos hormonais ligados à saciedade, ao controle do apetite e ao gasto energético, promovendo alterações metabólicas que tendem a se reverter quando o medicamento é retirado.

“Quando há a interrupção da medicação ou depois de se perder muitos quilos, principalmente, o paciente volta a ter uma diminuição da queima calórica e uma mudança do controle de fome e saciedade, que vai levar a um ganho de peso posterior. Então, esse é um fator esperado”, explica a autora do livro “AtmaSoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor”.

Quando a retirada acontece de forma abrupta, o apetite tende a se intensificar, aumentando o risco de compulsão alimentar e de um reganho mais acelerado, especialmente nos casos em que o tratamento não foi acompanhado por mudanças alimentares e comportamentais estruturadas.

Obesidade não é uma condição transitória

O relato de Oprah reforça a compreensão de que a obesidade não pode ser tratada como um problema passageiro. “Assim como a diabetes, a condição é uma doença crônica recidivante, que muitas vezes não pode ser tratada somente com mudança de hábitos”, afirma Rascovski.

Estudos indicam que pessoas que interrompem o uso das canetas emagrecedoras podem recuperar peso em ritmo mais acelerado do que aquelas que emagrecem apenas com dieta e atividade física. Em média, o reganho pode chegar a 0,8 kg por mês após a suspensão da medicação, o que ajuda a explicar por que muitos pacientes retornam ao peso anterior em cerca de um ano e meio.

Nesse contexto, o foco do tratamento passa a ir além da perda inicial e se desloca para a fase de manutenção e no acompanhamento após a retirada do medicamento, consideradas decisivas para a sustentação dos resultados ao longo do tempo.

Planejamento, acompanhamento e o pós-uso da medicação

Segundo Alessandra, a interrupção do uso das canetas emagrecedoras precisa ser encarada como parte do tratamento, e não como seu fim. Estratégias como ajustes graduais da medicação, acompanhamento clínico contínuo, prática regular de atividade física e mudanças alimentares estruturadas tendem a reduzir o risco de reganho significativo de peso.

A endocrinologista também chama atenção para os riscos do uso sem indicação médica. “O uso sem indicação, por outro lado, acende alertas. A automedicação e o consumo motivado por fins estéticos podem trazer riscos metabólicos e efeitos adversos”, ressalta. “A utilização prolongada sem controle adequado pode alterar funções metabólicas, resultando em complicações, além de causar possíveis efeitos colaterais.”

Ao comentar casos como o de Oprah, a médica destaca que a discussão central não está em simplesmente parar ou continuar a medicação, mas em como conduzir o acompanhamento após a suspensão.

A grande verdade é entender que reganho de peso é a regra, não a exceção, e que é sobre isso que deveríamos trabalhar no pós-uso da medicação, como vai ser seguido individualmente para cada paciente, para que ele continue tendo o resultado”, conclui.

Com Assessorias

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