O Dia da Mentira, celebrado internacionalmente em 1º de abril, tornou-se o tradicional dia das pegadinhas. Mas, e quando a mentira vai além de uma brincadeira? Um estudo da Universidade Federal do Ceará reforça a máxima do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: a mentira é a “conservação da espécie humana”.
Segundo uma pesquisa da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, quanto mais conexões uma pessoa tiver, maior o potencial de mentir. A pesquisa descobriu que, ao longo de uma semana, as pessoas mentem cerca de um quinto do tempo para 30% de suas interações sociais.
De acordo com um estudo publicado na Nature Neuroscience, quanto mais inverdades uma pessoa conta, mais fácil e frequente se torna mentir. Os resultados também indicaram que o interesse próprio parece alimentar a desonestidade. Embora o estudo não tenha analisado especificamente a mentira patológica, ele aponta algumas das habilidades de um mentiroso em potencial:
Apesar da frequência de mentir ser praticamente igual entre os gêneros, os propósitos mudam: mulheres costumam mentir para agradar ou evitar ferir os sentimentos alheios. Já os homens, costumam mentir sobre si mesmos, para impressionar os outros.
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Neurocirurgião explica o que de fato acontece no cérebro do mentiroso
Segundo o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP, existe um circuito cerebral responsável por esta ação que é capaz de criar um fato e ao mesmo tempo ter a noção do perigo dessa inverdade. E como o nosso senso crítico nos permite criar sem perder o juízo?
São os lobos frontais são os grandes responsáveis pela manipulação dos pensamentos, que representam uma importante aquisição neurobiológica da espécie humana. “É nesta região onde a decisão de omitir um fato, criar uma história ou mentir, acontece. Bem perto dali, o nosso senso crítico, famoso juízo ou bom senso também habita, nos mesmos lobos frontais, e nos permitem escutar o nosso bom senso”, explica Dr. Fernando.
Claro que existem pessoas que vivem mais no mundo da fantasia e criam tantas mentiras que acabam acreditando nelas. É aí que mora o perigo. “De fato usar o cérebro para aumentar imaginar histórias ajudam a aumentar a criatividade, mas é importante fazer isso com cautela. Brincar de mentir é saudável, só não pode ultrapassar as barreiras e acreditar naquilo que não existe de verdade”, completa o neurocirurgião.
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O dom de enganar: frequência leva à excelência
Colunista do VIDA E AÇÃO, a psiquiatra Danielle H. Admoni, pesquisadora e supervisora na residência de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM, explica que quem mente com frequência, torna o hábito cada vez mais normal.
O indivíduo que conta mentiras o tempo todo não precisa de tanto esforço para manter o controle emocional, monitorar a reação do outro e lembrar das histórias falsas que são contadas. Ou seja, ele já chegou ao ponto de criar narrativas convincentes com muita naturalidade”, frisa a especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).
Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, indicou que reduzir a quantidade de mentiras contadas por dia pode melhorar a saúde física e mental. O estudo avaliou indivíduos que reduziram propositadamente a quantidade de mentiras contadas semanalmente por um período de 10 semanas.
Entre os pesquisados, 35% eram adultos e 65% estudantes universitários, com idades que variavam de 18 até 71 anos, e uma média de 31 anos. Ao final das 10 semanas de testes, os participantes relataram melhoras tanto na saúde mental quanto na física, como tensão e melancolia, além de queda nos casos de dores crônicas.
Quando mentimos, o cérebro fica sobrecarregado, pois precisa ativar diferentes áreas, simultaneamente, para suprimir a verdade, disfarçar o estresse, criar imagens mentais, monitorar erros e controlar nosso comportamento”, explica a psiquiatra Danielle Admoni.
Confira a coluna Família no Divã, da psiquiatra Danielle Admoni
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A relação com a personalidade e a falta de comprometimento moral
Juliana Santos Lemos, psicóloga clínica, especialista em Psicopatologia e Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUC/RS, reforça que desde cedo, em todas as culturas, somos ensinados a mentir, uma vez que a mentira é um ato instintivo e funciona como uma estratégia de preservação social.
A especialista acredita que ter mais habilidade para mentir pode estar relacionado com a personalidade do indivíduo. “Por exemplo, pessoas impulsivas, arrogantes e criativas (ou seja, aquelas com imaginação vívida para interpretar e distorcer a verdade) costumam ter mais sucesso com as mentiras”.
A moralidade é a barreira que impede a maioria das pessoas de mentir sem escrúpulos e com mais frequência do que poderiam, explica a psicóloga Juliana Lemos. “Entretanto, o que mais vemos é a falta de ética e integridade, a ponto de a pessoa passar por cima dos seus próprios valores”.
No extremo dessa escala, encontram-se os psicopatas e/ou sociopatas, indivíduos manipuladores, frios e calculistas, que mentem de forma muito elaborada e não poupam esforços para atingir seus objetivos.
Contudo, dentro de limites moderadamente elevados de desinibição ou desengajamento moral, há várias pessoas ‘comuns’ que conseguem distorcer a realidade a seu favor ao interpretar seu próprio comportamento de maneira egoísta ou egocêntrica”, pontua Juliana Santos Lemos.
Pessoas com inteligência emocional podem detectar mentiras
Para Monica Machado, psicóloga, fundadora da Clínica Ame.C, e pós-graduada em Psicanálise e Saúde Mental pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, a sociedade tolera o ato de mentir se a intenção, o propósito ou a consequência forem benéficos, ao invés de egoístas, tóxicos ou antissociais.
Dessa forma, alguém que se abstém completamente da mentira, quando necessário, pode causar mais danos à sociedade do que aquele que opta por sacrificar a verdade em prol do bem alheio”, finaliza a psicóloga.
No entanto, há bons motivos para condenar a mentira, independentemente do tipo e dos fatores envolvidos. Segundo ela, muitas pessoas têm uma facilidade maior que outras para mentir, sem deixar margem a dúvidas. “Elas manipulam de tal forma que não há como questionar suas versões”, completa.
Pessoas com inteligência emocional têm mais capacidade para identificar os agentes estressores a sua volta e saber como agir diante deles. “Por outro lado, indivíduos com baixo coeficiente emocional tendem a revelar com mais facilidade sua tensão em determinadas situações, podendo até ter sua veracidade questionada”, reflete Monica Machado.
CURIOSIDADE
Dia da Mentira: qual a origem da data?
Ana Beatriz Dias Pinto, especialista em Teologia e Cultura dos Povos e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), esclarece os motivos que levaram a uma mudança de calendário e, consequentemente, ao costume popular mundial de se fazer brincadeiras no início do mês de abril.
1) Quando surgiu o “Dia da Mentira”?
Antes da introdução do Calendário Gregoriano, o calendário mais amplamente utilizado no mundo ocidental era o Calendário Juliano. O Calendário Juliano foi instituído por Júlio César em 45 a.C. e era baseado no ciclo solar, com um ano de 365 dias dividido em 12 meses. No entanto, o Calendário Juliano não levava em consideração a diferença entre o ano solar e o ano trópico, o que resultava em um descompasso gradual entre o calendário e as estações do ano.
Foi então que, no dia 24 de fevereiro de 1582, o Papa Gregório XIII decretou uma mudança na contagem do tempo. A alteração foi determinada por meio da bula papal chamada “Inter Gravíssimas”. O documento criou o Calendário Gregoriano, para ajustar o ano civil ao ano solar, período que a Terra leva para dar uma volta ao redor do Sol. A contagem dos dias do Calendário Gregoriano leva em conta o ciclo solar, que possui 365 dias e 6 horas. Aí, essas 6 horas que sobram são acumuladas e se transformam em 1 dia a cada 4 anos. Por isso que existem os anos bissextos.
O primeiro país a adotar o calendário depois da Itália foi a França. Mas, quando o rei da França, Carlos IX, o instituiu, houve muita confusão! Afinal, até esta data, todo “Ano Novo” se iniciava no dia 1° de abril. Com a modificação, a tradicional troca de lembrancinhas de “boas entradas” pela passagem do ano (como doces, champagnes e até mesmo itens de luxo, como joias e pedras preciosas) transferiu-se, com o novo calendário, para o dia 1° de janeiro.
2) Mas por que foi chamado de dia da mentira?
Porque alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo – e até mantiveram a troca e festas nessa data, de 1º de abril.
Para se ter uma ideia do conservadorismo francês, basta lembrar a História: até a entrada em vigor da moeda europeia, o Euro, muitos franceses ainda calculavam e referiam-se como moeda “oficial” da França ao Antigo Franco, uma moeda que foi substituída em 1958 pelo novo Franco, que depois deu lugar ao Euro entre 1998 e 1999. Ou quando a Igreja em 1965 instituiu, pelo Concílio Vaticano II, a missa “de frente para o povo”, com o padre não mais de costas, houve muita gente que não gostou e até hoje só vai à missa de rito tridentino.
Pois bem… lá no século XVI, quem era “menos tradicional”, para ridicularizar os que resistiram ao novo calendário, passou a enviar presentes esquisitos e até mesmo convites para festas inexistentes. E essas brincadeiras ficaram conhecidas como plaisanteries. Ou seja: “piadas”, “charadas”.
Foi então que, pouco a pouco, outros monarcas foram adotando o calendário gregoriano e a brincadeira do trote do 1° de abril espalhou-se pelo mundo, atingindo inúmeras outras culturas para além do cristianismo católico. Afinal, esse calendário passou a ser a “nova” realidade mundial. Como o ato de fazer piadas caiu no gosto popular, especialmente aqui no Brasil, que é um país no qual o povo tem frequentemente gosto pela diversão e pela chacota, a coisa se espalhou.
3) Então, de maneira geral, o Dia da Mentira tem início com uma questão religiosa?
Sim, tem a ver com uma questão religiosa! Paradoxalmente, o dia do trote e da mentira tem a ver com a Igreja Católica e seu calendário oficial, que é o gregoriano. Mas também tem a ver com o uso da Ciência por meio da Religião. Foi por meio de cientistas, com a observação do sol, que a Igreja Católica adotou o novo calendário.
Porém, é importante lembrar: a religião não apoia esse tipo de brincadeiras, especialmente as mais exageradas. Já se passaram cinco séculos desse episódio… E nem sempre todo mundo gosta dessas brincadeiras de trolagem ou pegadinhas. Aliás, todo excesso que uma pessoa comete, por mais que seja uma data “leve”, pode trazer consequências e repercussões negativas para si mesma. Por isso, o 1º de abril poderia muito bem ser conhecido atualmente como “o dia da realidade” ou mesmo como o “Dia do Diálogo entre Ciência e Fé”.
4) Outras religiões também possuem seus calendários?
Sim! Existem inúmeros! Vou citar outros três, que são os mais conhecidos:
- O chinês é o mais antigo que se tem notícia. Ele surgiu entre 2697 e 2597 antes de Cristo. O Calendário Chinês é lunissolar, ou seja, considera tanto os ciclos do Sol quanto os da Lua. Além disso, conta o tempo em ciclos de 12 anos. Cada um tem o nome de um animal e é daí que vem o horóscopo chinês. Os animais são: Boi, Cão, Carneiro, Cavalo, Coelho, Dragão, Galo, Macaco, Porco, Rato, Serpente e Tigre. A partir do dia 10 de fevereiro de 2024, entramos no ano 4722 do calendário chinês, no qual se comemora o Ano do Dragão
- O Calendário Judaico, que também é lunissolar, mas seus ciclos dão uma variada entre 12 e 13 meses. Ele foi criado na época do Êxodo, por volta de 1447 antes do nascimento de Cristo. Só pra se ter uma ideia, o dia 1 de abril de 2024 do Calendário Gregoriano é o primeiro dia do mês de Nisan de 5784 no Calendário Judaico. Israel usa esse calendário há mais de 3 mil anos. Os meses do Calendário Judaico são Nisan, Iyar, Sivan, Tammuz, Av, Elul, Tishrei, Cheshvan ou Marcheshvan (dependendo se é um mês de 29 ou 30 dias), Kislev, Tevet, Shevat e Adar. Em anos bissextos, um mês extra chamado Adar II é adicionado após o mês de Adar. Este sistema visa sincronizar o calendário lunar com o calendário solar, garantindo que as festas religiosas ocorram nas estações corretas do ano. Cada mês judaico tem sua importância cultural e religiosa, com festivais, celebrações e rituais específicos associados a eles.
- Por fim, o Calendário Islâmico, que surgiu em 633 depois do nascimento de Cristo, quando o profeta Maomé fugiu da cidade de Meca pra Medina. Esse é um calendário lunar, com 12 meses de 29 ou 30 dias. Seus anos têm entre 354 e 355 dias. Quem é muçulmano ortodoxo comemora as datas religiosas e festivas com esse calendário, como o mês do Ramadã, que é o Ano Novo islâmico. Em 2024, o Ramadã provavelmente começará ao entardecer do dia 2 de abril de 2024 (1º de Ramadan 1445 AH) e terminará ao entardecer do dia 1º de maio de 2024. Estas datas podem variar ligeiramente dependendo da observação da lua em cada região. É importante ressaltar que as datas exatas do Ramadã são determinadas pela observação da lua nova, e a confirmação oficial do início do Ramadã é anunciada pelas autoridades islâmicas competentes.
Com Assessorias

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