Dia da Mentira: como as fake news e os trotes afetam a saúde pública

Samu-Rio teve 40 mil chamados falsos de emergência em 2023. Pesquisadores lançam guia contra as fake news na saúde – veja as que mais circulam

Ambulâncias do Samu: serviço de emergência recebe muitos trotes no Rio (Foto: Gabriela Sampaio / Ascom MS)
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O Dia da Mentira, celebrado no Brasil em clima de brincadeira neste 1º de abril, não é nada engraçado para quem trabalha na saúde. Em 2023, o Samu – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência recebeu quase 40 mil trotes só na cidade do Rio de Janeiro, em meio à luta contra o tempo para prestar socorro a vítimas que correm risco de vida em toda a capital.

De acordo com informações da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ), a Central 192 recebeu 673 mil ligações e quase 40 mil deste total foram identificadas como trotes, prática que causa prejuízos incalculáveis às ocorrências reais, atrasando ou impossibilitando o atendimento de quem está em situação de emergência.

Somente de janeiro a março deste ano, foram registradas 10.693 ligações falsas, número que representa mais de 5% do total de chamadas e a prática pode impactar no atendimento à população, O perfil dos “trotes” passa por palavras obscenas, ocorrências com crianças, além de falsos pedidos de socorro.

Os treinamentos ajudam na identificação da falsa ligação, evitando o acionamento das equipes nas ruas. Além disso, as equipes trabalham na conscientização da população. O Samu da capital vem realizando treinamentos nas escolas públicas para educar as crianças e adolescentes e conscientizá-las da importância do atendimento e o quanto o trote pode prejudicar a rotina do serviço.

O coordenador geral do Samu-RJ, Luciano Sarmento, fala dos desafios da equipe em lidar com a falsa comunicação de demandas.

“Quando empenhamos recursos em um evento que não existe, ou seja, é um trote, o cidadão que realmente necessita pode ficar sem atendimento ou ter o seu socorro em um tempo maior do que deveria ser.  Em casos graves pode levar à morte, pois o menor tempo de resposta no atendimento é fundamental”, disse.

No ano passado, o Samu-RJ registrou mais de 194 mil atendimentos em todo o estado. Todos os eventos são regulados por 11 médicos que ficam 24 horas disponíveis na central de regulação. Atualmente, o Samu-RJ tem uma frota de 70 ambulâncias e 30 motolâncias. Somente nos três primeiros meses deste ano foram registrados mais de 50 mil atendimentos.

Desinformação: pesquisadores lançam guia para profissionais de saúde

Elaborado por um consórcio de pesquisadores do Rio de Janeiro, acaba de ser lançado o guia Desinformação sobre saúde: vamos enfrentar esse problema?, voltado para profissionais de saúde. A publicação tem como objetivo preparar os trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS) para o diálogo com os usuários sobre temas controversos e com potencial de impactar o bem-estar da sociedade.

A publicação chama a atenção para conteúdos nocivos à saúde da população que circulam em grupos de WhatsApp e nas redes sociais, como InstagramFacebookTik Tok YouTube. Por exemplo: falsos medicamentos, campanhas contra as vacinas, tratamentos milagrosos sem comprovação científica e receitas mágicas para emagrecer. O

O guia traz uma curadoria de cursos de educação midiática, indica espaços para checagem de informação de notícias sobre saúde e sugere uma lista de fontes confiáveis acerca da temática. O material está disponível no Repositório Institucional Arca – a principal iniciativa da Política de Acesso Aberto, da Fiocruz, que completa 10 anos em 2024 – e pode ser baixado gratuitamente.

O conteúdo foi elaborado por pesquisadores e professores da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS), do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e de três Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia – Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) e Disputas e Soberanias Informacionais (INCT-DSI).

‘Saúde com Ciência’ combate fake news contra vacinas

Já se sabe que a propagação de fake news é um dos fatores que impacta na adesão da população às campanhas de imunização. Por isso, em outubro de 2023, o Governo Federal lançou o programa Saúde com Ciência, uma iniciativa inédita em defesa da vacinação e voltada ao enfrentamento da desinformação em saúde.

A proposta faz parte da estratégia para recuperar as altas coberturas vacinais do Brasil diante de um cenário de retrocesso, principalmente nos últimos dois anos, quando foram registrados os piores índices.

 

Com o objetivo de fortalecer as políticas de saúde e a valorização do conhecimento científico, o Saúde com Ciência é composto por cinco pilares, que envolvem cooperação, comunicação estratégica, capacitação, análises e responsabilização.

O Saúde com Ciência tem forte atuação no ambiente digital. Alertas e análises sobre desinformações identificadas em diferentes mídias são publicadas nas redes sociais do Governo Federal e em plataformas de mensagens, como WhatsApp.

Além disso, o portal do Saúde com Ciência concentra informações confiáveis sobre vacinação e as notícias falsas que circulam na internet sobre o tema. No portal também é possível enviar, por meio de um formulário, informações duvidosas para que a equipe do Ministério da Saúde responda em seus canais.

O site ainda traz um passo a passo sobre como denunciar os conteúdos enganosos, contribuindo para reduzir a sua disseminação na internet.

Quais são as fake news mais populares? 

Entre os meses de julho e setembro deste ano, o Ministério da Saúde realizou um mapeamento diário nas mídias sociais e plataformas digitais das narrativas relacionadas à vacinação. Foram identificados mais de 6,8 mil conteúdos com desinformação sobre vacinas, impactando mais de 23,3 milhões de pessoas. As fake news mais recorrentes e de maior alcance são:

❎ Vacinas contra Covid-19 são experimentos e não têm comprovação científica: utilizam supostos estudos estrangeiros para reforçar o falso discurso de que as vacinas de Covid-19 são ineficazes e não foram testadas de forma suficiente, alegando que não têm comprovação científica. Existe uma forte narrativa de que a população foi manipulada com dados e informações falsos sobre a pandemia e a Covid-19 em si, como o rápido contágio e forte disseminação, por exemplo, apenas para servir de cobaia para vacina experimental;

❎ Vacinas causam doenças, como câncer, aids ou diabetes: afirmam que algumas vacinas, principalmente as contra Covid-19, podem desencadear diversos tipos de doenças nos pacientes após a dose. Algumas das mais citadas são câncer, aids, diabetes e pneumonia. Dizem também que é comum gerar sequelas gravíssimas e permanentes no corpo;

❎ Vacinas de Covid-19 causam modificações na corrente sanguínea ou no DNA: alegam que a vacina poderia causar danos ao paciente após ter contato com a corrente sanguínea. Mais especificamente, o imunizante seria capaz de fazer alterações no sangue, como contaminá-lo (e depois os órgãos) e até mudar o DNA da pessoa. Ainda, alguns defendem que a vacina depositaria fortes toxinas na corrente sanguínea;

❎ Após aplicação das vacinas, a população passa a ter um chip no corpo: teorias falsas de que governos de alguns países estavam utilizando vacinas como desculpa para implantar algum tipo de chip no corpo humano foram umas das primeiras a surgir e seguem em alta até hoje. Este seria um meio, segundo os publicadores, de controlar a mente dos cidadãos e localizar a pessoa em qualquer lugar. Alguns chamam de “chip do diabo”;

❎ Número de mortes por Covid-19 foi falsificado para assustar a população e aplicar vacina experimental: afirmam que algumas informações sobre a pandemia de Covid-19 foram alteradas/falsificadas, sobretudo o número de mortes teria sido aumentado, para causar medo na população e levá-los a se vacinar. Os publicadores falam que médicos foram alguns dos principais responsáveis por divulgar número falso de mortos e chegaram até a dizer que os mortos por outras doenças morreram de Covid-19 apenas para aumentar o número de óbitos. Alguns chamam de “fraudemia”;

❎ Teorias da conspiração sobre Bill Gates e uma suposta dominação mundial por meio do uso de vacinas: publicadores afirmam que foi o bilionário americano Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft, o responsável pela pandemia de Covid-19. Eles dizem ter recuperado supostas postagens de Gates afirmando que ele estava por trás da criação da doença para beneficiar uma futura vacina e até despovoar o mundo. Regiões mais pobres da África e Filipinas são os supostos alvos mais citados pelo público. A notícia falsa mais recente ligada a ele é de que, junto à Organização Mundial da Saúde (OMS), Gates estaria pressionando o envio de adesivos de vacina mRNA diretamente para a casa de pessoas pobres, visando maior adesão.

Com informações da SES-RJ e Fiocruz

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