Apelidado de “Enem dos Médicos”, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) nasceu em abril de 2025 com a missão estratégica de garantir que profissionais recém-formados possuam o conhecimento mínimo necessário para cuidar da vida da população. No entanto, a baixa proficiência apontada em mais de um terço dos cursos regulados pelo sistema federal no primeiro Enamed levanta uma preocupação ética e de segurança pública.
Além disso, a falta de infraestrutura, laboratórios e corpo docente qualificado em muitas instituições privadas e municipais — onde os índices de insatisfação foram maiores no Enamed 2025 — expõe pacientes a diagnósticos imprecisos e procedimentos inseguros, como alertam entidades médicas.

A Associação Médica Brasileira (AMB) divulgou uma nota oficial sobre os resultados do Enamed 2025 em que demonstra sua extrema preocupação com os números apresentados, que revelam “uma realidade gravíssima na formação médica do país”.

O exame, que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina no país, revela um cenário alarmante, que exige respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias”, diz a AMB.

De acordo com César Eduardo Fernandes, presidente da AMB, os resultados apontam que 13.000 médicos não proficientes poderiam, perante a legislação atual, atender pacientes. “A nossa população atendida por esse contingente de médicos não proficientes ficará exposta a um risco incalculável de má prática médica”.

Ele ainda defendeu o exame de proficiência médica como um pré-requisito para o exercício da medicina. “Não comprovada a proficiência médica pelos egressos dos cursos de medicina, não lhes seria concedido o registro profissional pelos CRM (Conselho Regional de Medicina), impedindo-os, desta forma, de atender pacientes”.

Confira a nota oficial completa ao final do texto.

Associações criticam avaliação dos cursos de medicina feita pelo MEC

Já as associações que representam instituições privadas de ensino superior manifestaram preocupação e crítica em relação à divulgação, nesta segunda-feira (19), dos resultados de 351 cursos de medicina em todo o país.

Em nota, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) disse que análises realizadas por instituições espalhadas pelo Brasil indicam divergências entre os dados reportados ao sistema em dezembro do ano passado e os números divulgados agora, especialmente em relação ao total de estudantes considerados proficientes nos cursos.

Diante da avaliação anunciada, a Anup informou que aguarda esclarecimentos técnicos do Ministério da Educação (MEC) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia responsável pela avaliação, antes de se manifestar de forma conclusiva sobre os resultados apresentados.

A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) divulgou nota em que critica a condução adotada pelo MEC e pelo Inep em relação ao Enamed, especialmente após o anúncio de aplicação imediata dos resultados para fins punitivos às instituições de educação superior.

De acordo com a Abmes, a primeira edição do exame, realizada em outubro de 2025, ocorreu antes da divulgação pública de critérios como parâmetros de desempenho, cortes de proficiência e consequências associadas aos resultados. A entidade afirma que a consolidação dessas regras apenas após a aplicação da prova fere princípios de previsibilidade, transparência e segurança jurídica.

Entidades querem adiar efeitos punitivos sobre as faculdades

A associação também é contrária à atribuição de efeitos punitivos já na edição inaugural do Enamed. São as chamadas medidas cautelares, entre elas, restrição de vagas e impedimento de novos ingressos. Na avaliação da Abmes, essa condução, sem período de transição ou validação progressiva, compromete a credibilidade do exame, expõe instituições e estudantes a um cenário de instabilidade regulatória e pode gerar insegurança jurídica e judicialização.

Na nota, a Abmes defende que os resultados do Enamed 2025 sejam tratados como um diagnóstico inicial, voltado ao aperfeiçoamento das próximas edições, com a suspensão imediata dos efeitos punitivos anunciados.

O risco de médicos desqualificados na linha de frente

Ministro pede reflexão e diz que estudantes não serão prejudicados

Ao participar de um evento no Palácio do Planalto, o ministro da Educação, Camilo Santana, comentou sobre a repercussão dos resultados do Enamed. “É fundamental que os médicos tenham uma boa formação para garantir o atendimento nos hospitais, postos de saúde e UPAs. São profissionais que cuidam da vida das pessoas”, destacou.

A ideia é que essas instituições possam fazer a avaliação e garantir qualidade na oferta dos cursos de medicina. Queremos que esses cursos continuem, ampliem suas vagas e ofertem cada vez mais qualidade na formação médica brasileira”, declarou.

Para o ministro da Educação, a avaliação é um diagnóstico necessário e uma ferramenta para o aperfeiçoamento das instituições de ensino. “O governo não promove uma caça às bruxas, mas atua para garantir padrões mínimos de qualidade”. Segundo ele, o Enamed é um instrumento para que possamos identificar correções necessárias e garantir um ensino de qualidade. “Trata-se de uma forma de monitoramento com o único objetivo de melhorar o ensino”, afirmou.

Apresentamos os dados e vamos ter as medidas cautelares necessárias, num processo de transição. Nosso objetivo não é prejudicar ninguém, muito menos o aluno, e nenhum será prejudicado, mas garantir que as faculdades reflitam sobre a qualidade da sua infraestrutura, da sua monitoria, dos seus laboratórios, para a gente ter bons profissionais formados nesse país”, pontuou.

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Abismo entre os cursos de formação médica

Os dados do Inep revelam um abismo de qualidade entre os diferentes modelos de gestão de ensino. Os números mostram que o desafio maior está nas instituições municipais e nas privadas com fins lucrativos, onde quase metade dos alunos não atingiu o nível de conhecimento esperado para o exercício da profissão.

A maior parte dos cursos, 243 no total, tiveram bom resultado na avaliação e um desempenho que garantiu proficiência a, pelo menos, 60% dos estudantes concluintes da formação médica. Outros 107 cursos foram mal avaliados e um não foi avaliado por baixo número de concluintes inscritos.

Os melhores desempenhos foram apresentados pelos 6.502 estudantes de instituições federais, que apresentaram uma pontuação média de 83,1% de proficiência, seguido dos estudantes das estaduais, com média de 86,6%, entre os 2.402 inscritos.

Os piores desempenhos foram dos 944 estudantes da rede municipal, que somaram uma média de 49,7% da pontuação máxima, com resultado médio considerado insuficiente pelo exame. Os 15.409 estudantes da rede privada com fins lucrativos também apresentaram uma média de apenas 57,2% da pontuação máxima.

Universidade mal avaliada pode perder vagas e ficar de fora do Fies e do Prouni

A nota de corte dos estudantes no Enamed passa a ser utilizada para regular a oferta de cursos de Medicina e estabelecer medidas de supervisão, além de penalidades às instituições que apresentarem baixo desempenho no exame (faixas 1 e 2). O exame também passa a integrar o processo de seleção para o Exame Nacional de Residência (Enare).

As universidades mal avaliadas terão um prazo de 30 dias para apresentar defesa. As ações de supervisão terão como foco 99 cursos de Medicina classificados nas faixas 1 e 2 do Conceito Enade 2025, ou seja, aqueles que apresentaram menos de 60% de seus estudantes com desempenho considerado adequado no exame. Esses cursos pertencem a 93 instituições de educação superior, que estarão sujeitas a penalidades como:

  • Impedimento de aumento de vagas.
  • Suspensão de novos contratos do Fies.
  • Suspensão da participação do curso no Prouni.
  • Suspensão da participação do curso em outros programas federais de acesso.

Guia: Tudo o que você precisa saber sobre o Enamed

Médicos chegam ao local de prova para a segunda etapa do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira (Revalida) 2020, em Brasília.

Estudantes de Medicina (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O que é o Enamed?

Criado em abril de 2025,  o Enamed – Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica é a adaptação do Exame Nacional de Avaliação dos Estudantes (Enade) para estudantes concluintes do curso de medicina. Ele funciona como uma modalidade do Enade específica para os cursos de medicina, avaliando anualmente o desempenho dos estudantes e a qualidade das instituições de ensino.

O exame é obrigatório e o resultado obtido pelo estudante pode ser usado para ingressar nos programa de residência médica unificado do MEC, organizado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) por meio do Exame Nacional de Residência (Enare). 

O que acontece com a faculdade que tirou nota baixa?

Cursos com conceitos 1 e 2 são considerados insatisfatórios e entram em regime de supervisão pelo MEC. As punições incluem:

  • Proibição de aumentar o número de vagas;

  • Suspensão de novos contratos do Fies e participação no Prouni;

  • Em casos graves (menos de 30% de aproveitamento), a suspensão imediata de ingresso de novos alunos.

A nota do Enamed serve para a Residência Médica?

Sim. A partir de agora, o Enamed unifica a avaliação teórica para o Enare (Exame Nacional de Residência). Isso significa que o desempenho do estudante na faculdade influencia diretamente sua entrada em programas de especialização em todo o país.

Como saber se o curso de medicina é de qualidade?

O MEC utiliza uma escala de 1 a 5. Notas 4 e 5 indicam excelência. Nesta primeira edição, 13,6% das faculdades atingiram a nota máxima, enquanto 32% ficaram nas faixas de risco (1 e 2).

Por que o Enamed é importante para o paciente?

O exame atua como um filtro de segurança. Ao monitorar a infraestrutura das escolas e o conhecimento dos alunos, o governo tenta reduzir os riscos de erros médicos causados por uma formação deficiente, garantindo profissionais mais qualificados nos hospitais e UPAs.

Nota oficial da AMB sobre os resultados do Enamed 2025 e a qualidade da formação médica no Brasil

O exame, que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina no país, revela um cenário alarmante, que exige respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias.

Após a divulgação dos resultados do Enamed 2025 (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), a Associação Médica Brasileira (AMB) vem a público demonstrar sua extrema preocupação com os números que foram apresentados, que revelam uma realidade gravíssima na formação médica do país.

O exame, que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina no país, revela um cenário alarmante, que exige respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias.

Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (19) pelo Ministério da Educação (MEC), da Saúde e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).  Acreditamos que esta avaliação vem em bom tempo para nos mostrar objetivamente a realidade do ensino de graduação médica em nosso país.

Foram avaliados 351 cursos de Medicina. Desse total, 99 cursos sob regulação federal obtiveram conceitos 1 ou 2, faixas consideradas insatisfatórias pelo Inep. Embora 67,1% dos cursos estejam entre conceitos 3 e 5, a presença de 32,6% de cursos com desempenho abaixo do mínimo aceitável segue preocupante.

Entre os 39.258 estudantes concluintes avaliados, apenas 67% demonstraram proficiência adequada, enquanto cerca de 13 mil alunos não atingiram o nível esperado para o exercício seguro da Medicina.

 Os cursos de medicina no Brasil são terminais. Ou seja, quando o aluno conclui o curso de graduação, ele recebe o diploma de formado em medicina. Com base neste certificado, vai ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu estado, obtém o seu registro profissional e o seu número de inscrição no CRM. Uma vez portador desta documentação, está legalmente habilitado para atender pacientes e exercer a medicina em nosso país.

Nestas circunstâncias, equivale dizer que esses 13.000 médicos apontados pelo Enamed como não proficientes podem, de acordo com a legislação atual, atender pacientes em nosso país. Isso nos permite afirmar, sem sombra de dúvidas, que a nossa população atendida por esse contingente de médicos não proficientes ficará exposta há um risco incalculável de má prática médica.

Esses números apontam claramente para a necessidade de instituirmos o mais breve possível exame de proficiência médica como um pré-requisito para o exercício da medicina. Sendo mais claro, não comprovada a proficiência médica pelos egressos dos cursos de medicina, não lhes seria concedido o registro profissional pelos CRM, impedindo-os, desta forma, de atender pacientes.

Esta seria uma ação muito bem-vinda em direção a proteção e segurança dos pacientes. Esta não é uma medida contra o egresso de medicina. É uma medida com finalidade voltada única e exclusivamente à boa prática da medicina e a segurança dos pacientes.

Os dados do Enamed também evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil. Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos. 

Estes achados reforçam alertas históricos da AMB sobre os riscos da expansão desordenada de escolas médicas, muitas vezes abertas sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica.

O Ministério da Educação anunciou, na direção correta, sanções para as instituições avaliadas com desempenho insuficiente, incluindo suspensão total de ingresso, redução do número de vagas e restrição de acesso a programas federais como o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). As instituições terão 30 dias para apresentar defesa e as penalidades permanecerão em vigor até o próximo Enamed, previsto para outubro de 2026. 

Consideramos essas medidas necessárias para proteger a população e garantir padrões mínimos de qualidade no ensino médico e reforça que o Enamed representa um avanço importante para o país ao oferecer um diagnóstico objetivo da formação médica e ao fortalecer a transparência na avaliação das instituições. 

Porém alertamos que a questão central não é ampliar indiscriminadamente o número de vagas, mas assegurar que cada futuro médico tenha formação adequada, sólida e compatível com as demandas reais do sistema de saúde. Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira.

A Associação Médica Brasileira reitera seu compromisso permanente com a educação médica de qualidade e com a proteção da sociedade. 

Continuaremos trabalhando junto ao MEC, ao Ministério da Saúde, ao Conselho Federal de Medicina, ao Conselho Nacional de Educação e aos órgãos reguladores para aprimorar as diretrizes curriculares, fortalecer os estágios e o internato e estabelecer critérios rigorosos para abertura de novos cursos e ampliação de vagas. 

O país precisa de uma política nacional de formação médica pautada pelo rigor acadêmico, pela responsabilidade social e pelo compromisso com a segurança do paciente.

César Eduardo Fernandes
Presidente

Associação Médica Brasileira (AMB)

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