A interdição de uma clínica de estética clandestina no Centro de Niterói, nesta sexta-feira (16), reacende o alerta para os riscos de procedimentos estéticos realizados em locais não adequados. O estabelecimento funcionava sem licença e oferecia procedimentos estéticos irregulares, além de possuir uma câmara de bronzeamento artificial ilegal. A prática é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em todo o território nacional, devido aos graves riscos à saúde da pele.

Normalmente oferecido em cabines verticais e horizontais, o bronzeamento artificial tem atraído cada vez mais pessoas com a promessa de um bronzeado rápido e uniforme. Ainda que pareça algo prático, essas técnicas utilizam radiação ultravioleta, que pode trazer sérios prejuízos, incluindo o câncer de pele.

Seguindo o exemplo de países como a Austrália e o Irã, o Brasil foi pioneiro ao proibir o uso de câmeras de bronzeamento artificial em todo o território nacional em 2009, por meio da Resolução nº 56 da Anvisa. No entanto, a prática continua sendo realizada em clínicas clandestinas, inclusive com apoio oficial.

Em 2025, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) manifestou seu repúdio e solicitou ao Poder Executivo que vete os projetos de lei criados em alguns municípios brasileiros, que autoriza o uso de câmaras de bronzeamento para fins estéticos, “o que é extremamente preocupante e vai na contramão das políticas de saúde pública”. A entidade disse que continuará empenhada na luta pela proibição das câmeras de bronzeamento artificial e na promoção de ações de saúde pública que priorizem o bem-estar da população.

A SBD tem promovido há 25 anos a campanha Dezembro Laranja, que visa o combate ao câncer de pele e a conscientização sobre a importância da prevenção. A campanha, realizada anualmente no primeiro sábado de dezembro, conta com mais de 100 serviços médicos credenciados no Brasil e já realizou cerca de 19 mil atendimentos em 2023.

Que sigamos sendo reconhecidos pelo protagonismo em banir câmaras de bronzeamento e por promover campanhas de saúde pública dignas de um Guinness, e não por retrocessos que, em prol de interesses estéticos e financeiros, comprometem a saúde da população”, disse o presidente da SBD, Carlos Barcaui.

Bronzeamento artificial: os perigos para a pele e como se proteger

Dermatologista  alerta para o envelhecimento precoce, manchas e risco de câncer, e sugere alternativas seguras para um bronzeado saudável

Segundo a médica dermatologista Fabíola Tasca os danos vão muito além do escurecimento da pele. “O bronzeamento artificial é uma prática prejudicial, que pode aumentar não só as manchas, mas também o envelhecimento precoce e o surgimento de lesões pré-cancerígenas e até de câncer de pele”, explica.

A médica reforça ainda que qualquer dispositivo que use radiação ultravioleta com fins estéticos deve ser evitado. “É preciso tomar muito cuidado. Esses equipamentos aceleram processos que a gente passa anos tentando prevenir no consultório”, conta.

Para quem deseja conquistar um tom dourado sem riscos, a Dra. Fabíolbromzea recomenda alternativas seguras e eficazes. “Se a pessoa quer ficar bronzeada e ela é mais clara, pode recorrer ao uso de maquiagem ou aos autobronzeadores, que são produtos que tingem a pele temporariamente e deixam um aspecto moreno natural”, orienta.

A dermatologista lembra ainda que existem diversas marcas no mercado brasileiro e que essa é uma forma totalmente segura de obter o efeito desejado. “Com orientação adequada, é possível conquistar o visual bronzeado sem comprometer a saúde da pele”, garante a especialista.

Bronzeamento artificial e câncer de pele

O câncer de pele é o tipo mais comum no mundo, com destaque para o carcinoma basocelular, carcinoma de células escamosas e melanoma. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que anualmente surgem 220.490 novos casos de câncer de pele não melanoma e 8.980 de melanoma cutâneo.

O principal fator de risco para todas as formas de câncer de pele é a radiação ultravioleta (UV), que provoca danos cumulativos no DNA, especialmente em casos de exposição intensa e intermitente durante a infância e adolescência.  A radiação UV é reconhecida como um agente cancerígeno, assim como o tabaco é associado a cânceres como o de pulmão.

É fundamental destacar que, embora o câncer de pele seja detectável precocemente, a pele, por ser o maior órgão do corpo e estar diretamente visível, facilita o autoexame e a identificação de sinais de alerta, como feridas que não cicatrizam ou pintas que mudam de aparência”, alerta a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

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Clínica de Niterói foi interditada e o responsável, preso

O fechamento da clínica ocorreu durante uma ação conjunta do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM) da Prefeitura de Niterói, da Polícia Civil e da Vigilância Sanitária.  Durante a operação, foram encontrados materiais e documentos que serão analisados pela Polícia Civil. O estabelecimento foi interditado e o responsável conduzido à delegacia. Outras operações estão previstas para diferentes regiões da cidade.

As irregularidades serão apuradas nos âmbitos administrativo e policial. A operação reforça a atuação integrada dos órgãos municipais e das forças de segurança no combate a práticas ilegais que colocam a população em risco. Durante a ação, a Vigilância Sanitária municipal lavrou autos de infração e termos sanitários contra o estabelecimento.

Um dos autos foi emitido pelo funcionamento irregular da clínica, que realizava atividades de estética e outros serviços de cuidados com a beleza sem licença sanitária e sem responsável técnico legalmente habilitado. Outro auto de infração foi aplicado por causa da câmara de bronzeamento artificial.

Além disso, foi lavrado um Auto de Apreensão e Inutilização dos medicamentos injetáveis encontrados no local. Os produtos estavam armazenados em um estabelecimento que operava de forma clandestina, o que representa risco à saúde pública.

Operação Pharmakon

A ação faz parte da Operação Pharmakon, que tem como objetivo proteger a saúde pública e coibir práticas irregulares.  O nome Pharmakon tem origem na língua grega e carrega um duplo significado — “remédio” e “veneno”. O termo expressa a ambiguidade da medicina, que pode ser usada para curar ou causar dano, simbolizando o risco e o perigo representados por falsos profissionais e clínicas clandestinas que oferecem tratamentos irregulares sob aparência de legalidade.

O secretário do GGIM, Felipe Ordacgy, afirmou que a Pharmakon faz parte da nova linha de operações integradas com as forças de segurança voltadas à área de saúde pública.

Estamos fortalecendo a integração com as forças de segurança e os órgãos de fiscalização municipal para proteger a população e coibir práticas criminosas que colocam a saúde das pessoas em risco. A população procura estes estabelecimentos almejando rejuvenescimento e beleza, mas na verdade são expostos à diversos riscos contra a saúde e a vida”, afirmou o secretário.

Segundo o delegado titular da 81ªDP (Itaipu), Deoclecio Assis, o trabalho integrado entre os órgãos reforça o compromisso com a segurança da população.

Esses locais funcionam à margem da lei e colocam em risco a saúde e a vida de pessoas que buscam tratamento. A integração entre a Polícia Civil, o GGIM e a Vigilância Sanitária é essencial para identificar, interditar e responsabilizar os envolvidos. A polícia civil reafirma seu compromisso institucional de permanecer em defesa de quem precisar”, destacou o delegado.

Dados de câncer de pele no Estado do Rio de Janeiro

A Operação Pharmakon não só busca coibir práticas que colocam em risco a saúde da população, como também se alinha diretamente às estratégias de conscientização do Dezembro Laranja, alertando sobre os perigos da exposição ultravioleta sem proteção e a importância do cumprimento das normas sanitárias.

  • Mais de 21 000 novos casos de câncer de pele não melanoma são esperados a cada ano.
  • O melanoma, embora menos incidente, também representa um número relevante de diagnósticos, com estimativa de cerca de 540 novos casos por ano no estado.
  • Em 2018, foram contabilizadas 173 mortes por câncer de pele não melanoma no estado, dados que evidenciam a necessidade contínua de ações preventivas e de fiscalização.

Esses números reforçam a urgência de campanhas educativas como o Dezembro Laranja, especialmente em regiões litorâneas e ensolaradas, onde a exposição aos raios ultravioleta é mais frequente.

Com Assessorias

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