O recente surto do vírus Nipah na província de Bengala Ocidental, na Índia, acendeu um alerta nas autoridades sanitárias internacionais. Com pelo menos cinco casos confirmados entre profissionais de saúde e cerca de 100 pessoas em quarentena, o episódio mobilizou países vizinhos como Tailândia, Nepal e Taiwan, que já reforçaram protocolos de vigilância em aeroportos.

Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um vírus zoonótico — transmitido de animais para humanos —, o Nipah tem como seu reservatório natural os morcegos frugívoros (que se alimentam de frutas) do gênero Pteropus.

Apesar de não haver o reservatório natural (o morcego Pteropus), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) considera o Brasil um país vulnerável devido à alta conectividade aérea. O foco atual é garantir que, caso um “caso importado” chegue, ele não gere uma cadeia de transmissão local em hospitais.

O vírus pode chegar ao Brasil?

Embora o vírus Nipah figure na lista da OMS de patógenos com potencial epidêmico, o controle rigoroso nos focos atuais na Ásia continua sendo a principal estratégia para evitar que este “vírus silencioso” se torne uma ameaça global.

O cenário gera apreensão, no entanto, especialistas brasileiros avaliam que, apesar da gravidade da doença, o risco de uma pandemia global nos moldes da Covid-19 é considerado baixo.

Para o professor Benedito Fonseca, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia e docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), a probabilidade de uma disseminação em massa no Brasil é pequena. O principal motivo é a dependência do vírus em relação ao seu reservatório natural.

Os vírus normalmente têm uma relação muito íntima com o seu reservatório. E esse morcego tem uma distribuição grande na Ásia, mas não tem distribuição nem na Europa nem nas Américas”, explica Fonseca à Agência Brasil.

Contudo, o especialista faz uma ressalva importante sobre o período de incubação, que pode variar de 4 a 14 dias (chegando a 45 dias em casos raros). Esse intervalo permite que uma pessoa se infecte na Ásia e viaje para qualquer lugar do mundo antes de apresentar os primeiros sintomas, podendo transmitir a doença nesse ínterim.

Como o vírus Nipah é transmitido

A transmissão ocorre de três formas principais:

  • Contato direto: Exposição a secreções ou fluidos corporais de animais infectados, como morcegos e porcos.

  • Alimentos contaminados: Consumo de frutas ou produtos (como a seiva de tamareira) contaminados com saliva ou urina de morcegos infectados.

  • Transmissão entre humanos: O contato próximo com secreções e excreções de pacientes infectados, comum em ambientes domiciliares ou hospitalares.

Sintomas e alta taxa de letalidade

A infecção pelo Nipah é particularmente perigosa devido à sua agressividade no sistema nervoso. Os sintomas iniciais são inespecíficos, assemelhando-se a uma gripe forte: febre, dor de cabeça, mialgia, vômitos e dor de garganta.

No entanto, o quadro pode evoluir rapidamente para:

  1. Encefalite aguda: Inflamação do cérebro que causa tontura, sonolência e alteração do nível de consciência.

  2. Problemas respiratórios: Pneumonia atípica e síndrome do desconforto respiratório agudo.

  3. Coma: Em casos graves, o paciente pode entrar em coma em um intervalo de 24 a 48 horas.

A taxa de letalidade é alarmante, estimada pela OMS entre 40% e 75%, dependendo da capacidade de resposta local. Além disso, cerca de 20% dos sobreviventes podem apresentar sequelas neurológicas persistentes, como convulsões e alterações de personalidade.

Desafios: diagnóstico e tratamento

Atualmente, não existe vacina nem tratamento específico para a infecção pelo vírus Nipah. O manejo médico é focado apenas em cuidados de suporte intensivo para as complicações respiratórias e neurológicas.

O diagnóstico também é um desafio, pois os sintomas iniciais são facilmente confundidos com outras doenças. Os métodos mais eficazes incluem testes de RT-PCR em fluidos corporais e a detecção de anticorpos (ELISA).

Medidas de prevenção

Na ausência de imunizantes, a prevenção baseia-se na conscientização e em barreiras físicas:

  • Consumo seguro: Lavar e descascar bem as frutas; ferver sucos e seivas recém-colhidos.

  • Proteção animal: Uso de luvas e roupas de proteção ao manusear animais doentes, especialmente suínos.

  • Higiene hospitalar: Lavagem rigorosa das mãos e uso de equipamentos de proteção ao tratar pacientes com suspeita da doença.

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Protocolos de vigilância ativa

Atualmente, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Ministério da Saúde mantêm protocolos de vigilância ativa para doenças com potencial epidêmico, como o Nipah, seguindo as diretrizes do Regulamento Sanitário Internacional. No Brasil, o foco principal não é o bloqueio de fronteiras, mas sim a detecção precoce e o isolamento.

Abaixo, detalho como funcionam as medidas para viajantes e os protocolos de resposta no país:

1. Monitoramento no ponto de entrada (aeroportos e portos)

Diferente da Covid-19, onde havia exigência de testes universais, o protocolo para o vírus Nipah baseia-se na autodeclaração e na identificação visual:

  • Avisos aos viajantes: Em períodos de surto na Ásia, são reforçados os avisos sonoros e visuais nos aeroportos internacionais (como Guarulhos e Galeão) orientando passageiros que estiveram em áreas de risco e que apresentem febre ou sintomas neurológicos a procurar o posto médico do aeroporto.

  • Declaração de Saúde do Viajante (DSV): Embora o uso da DSV tenha sido flexibilizado após a pandemia, a Anvisa pode reativar a obrigatoriedade de formulários específicos para voos provenientes de conexões com a Índia e o Sudeste Asiático.

2. Protocolo de identificação de suspeitos a nordo

Se um passageiro apresentar sintomas durante o voo vindo de áreas endêmicas:

  • O comandante da aeronave deve notificar a torre de comando antes do pouso.

  • A Anvisa aciona o Plano de Contingência, e a equipe médica da agência entra na aeronave antes do desembarque dos demais passageiros.

  • O indivíduo é encaminhado diretamente para uma unidade de saúde de referência (como o Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz, no Rio de Janeiro, ou o Instituto Emílio Ribas, em São Paulo).

3. Vigilância epidemiológica pós-viagem

Como o período de incubação pode chegar a 45 dias, a maior preocupação é o passageiro que desembarca assintomático:

  • Rede CIEVS: O Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS) monitora rumores e casos suspeitos em todo o território nacional.

  • Alerta aos Profissionais de Saúde: O Ministério da Saúde emite notas técnicas para que médicos em prontos-socorros questionem o histórico de viagem de pacientes com quadros de encefalite ou problemas respiratórios graves.

4. Barreiras de diagnóstico no Brasil

Em caso de suspeita no Brasil, o protocolo laboratorial é restrito:

  • A coleta de amostras é feita sob rigorosos critérios de biossegurança.

  • O diagnóstico definitivo é realizado em laboratórios de referência nacional (como o Instituto Evandro Chagas ou o Instituto Adolfo Lutz), que possuem níveis de biossegurança adequados para manipular vírus de alta letalidade.

Dicas para quem vai viajar para a Índia ou Ásia

Para brasileiros que pretendem viajar para o Sudeste Asiático ou para a Índia (especialmente a região de Bengala Ocidental), as recomendações não visam o cancelamento da viagem, mas sim a adoção de barreiras mecânicas e comportamentais.

Como não existe vacina, a prevenção é a sua única linha de defesa. Confira os principais cuidados recomendados por infectologistas e autoridades sanitárias:

Cuidados com alimentação e hidratação

Esta é a principal via de transmissão para turistas, já que o contato com morcegos costuma ser acidental ou indireto.

  • Seiva e sucos artesanais: Evite consumir seiva de tamareira ou sucos de frutas vendidos em barracas de rua que não tenham sido fervidos. O hábito de beber a seiva “in natura” é o maior responsável por surtos na Índia e em Bangladesh.

  • Frutas com sinais de consumo: Antes de comprar ou comer qualquer fruta, verifique se há marcas de mordidas ou arranhões. Se houver, descarte-a imediatamente, pois pode estar contaminada com saliva de morcego.

  • Higienização rigorosa: Lave todas as frutas com água potável e descasque-as você mesmo antes de consumir.

Evite locais de alta exposição

  • Cavernas e árvores frutíferas: Evite entrar em cavernas ou áreas com grande concentração de morcegos. Se for realizar ecoturismo, não toque em superfícies que possam estar cobertas por excrementos desses animais.

  • Contato com animais de criação: Evite visitas a fazendas de suínos (porcos) em áreas rurais das regiões afetadas, já que o vírus é altamente contagioso entre esses animais e pode passar para humanos pelo ar ou contato direto.

Protocolos de higiene pessoal

  • Lavagem das mãos: Mantenha o hábito de lavar as mãos com água e sabão frequentemente, especialmente após utilizar transportes públicos ou frequentar locais com grande aglomeração.

  • Máscaras em ambientes de saúde: Se precisar visitar um hospital ou clínica nas regiões de surto, utilize máscaras (preferencialmente do tipo N95/PFF2), pois a transmissão entre humanos ocorre por secreções respiratórias em contatos próximos

O que fazer se você apresentar sintomas?

Se você retornar ao Brasil e, dentro de um período de até 45 dias, apresentar febre, dor de cabeça intensa, tontura ou dificuldades respiratórias:

  1. Procure atendimento médico imediato: Informe ao profissional, logo na triagem, que você esteve em uma região com surto de Nipah. Esse detalhe é crucial para que o hospital adote medidas de isolamento.

  2. Evite contato próximo: Até ser avaliado, utilize máscara e evite compartilhar utensílios com familiares.

  3. Monitore seus acompanhantes: Se você viajou acompanhado, oriente seus parceiros de viagem a também ficarem atentos a qualquer sinal de indisposição.

Fonte: Agência Brasil

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