Em média, cerca de quatro mulheres foram assassinadas por dia em 2024 em razão do gênero, totalizando 1.459 mulheres foram vítimas de feminicídios. Além das mortes, cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras vivenciaram um ou mais episódios de violência doméstica nos últimos 12 meses, conforme o Mapa Nacional da Violência de Gênero. O ano de 2025 já registra mais de 1.180 feminicídios.

Em protesto contra esses números alarmantes, milhares de mulheres e homens foram às ruas em diversas capitais brasileiras neste domingo (7 de dezembro). O Levante Mulheres Vivas, um grito nacional contra os feminicídios e a violência de gênero, clamou por mais proteção e ação do Estado. Os protestos, realizados em pelo menos nove capitais, incluindo Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, foram catalisados por uma onda recente de casos emblemáticos que chocaram o país.

Na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, o ato Na Rua por Mulheres Vivas! reuniu centenas de manifestantes, incluindo sobreviventes que transformaram sua dor em militância. A agente de educação infantil Evelyn Lucy Alves da Luz, de 44 anos, compartilhou seu testemunho emocionante. Em 6 de fevereiro de 2017, ela sofreu uma tentativa de feminicídio quando seu ex-marido desferiu três tiros contra ela em frente à sua casa, em Vila Isabel.

Ele desferiu os tiros na frente da criança. Ela presenciou a mãe sendo quase morta, tornando esse crime ainda mais cruel”, contou Evelyn à Agência Brasil. Ela disse que perdeu o baço, parte do fígado e um ovário, e carrega marcas físicas e emocionais.

Evelyn, que ficou 21 dias internada, 11 deles na UTI, enfatizou a importância do apoio: “Poderia ter virado uma estatística, mas estou aqui porque sou realmente uma sobrevivente de tentativa de feminicídio”. Ela, no entanto, criticou a omissão do Estado, relatando que não recebeu apoio psicológico, financeiro ou de organizações governamentais para se reerguer.

A militante Vanderlea Aguiar, de 49 anos, ao lado de Evelyn, reforçou a urgência da mobilização: “A gente está cansada de ver as mulheres morrendo simplesmente pelo fato de serem mulheres e porque os homens acham que são donos da nossa vida e do nosso corpo”.

Em Brasília, a denúncia da violência e da omissão estatal

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres.
 Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sob forte chuva, a capital federal também sediou um grande protesto na Torre de TV, com a presença de lideranças populares, ministras do governo federal e a primeira-dama Janja Lula da Silva. A manifestação ecoou falas críticas à violência do Estado e à negligência das instituições. A doutora em ciências sociais Vanessa Hacon, do Coletivo Mães na Luta, denunciou a violência processual no sistema de Justiça, que, segundo ela, frequentemente deslegitima denúncias e culpa a própria vítima.

Leonor Costa, militante do Movimento Negro Unificado (MNU), destacou o impacto do patriarcado na “epidemia” de feminicídios e sublinhou a necessidade de políticas de educação para mudar a cultura.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, citou o assassinato de sua irmã Marielle Franco e da Mãe Bernadete, afirmando que os crimes são um recado de violência que as mulheres se recusam a aceitar: “A gente tá aqui hoje pra dizer que vai permanecer viva, de pé, lutando, ocupando todos os espaços”.

São Paulo (SP), 07/12/2015 - Ato nacional pelo fim da violência contra as mulheres, com o tema Basta de feminicídio. Queremos as mulheres vivas!, na Avenida Paulista.  Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil© Rovena Rosa/Agência Brasil

Propostas e reivindicações: mais acolhimento e orçamento

As manifestantes em todo o país apresentaram uma lista de reivindicações que vão além da punição, focando na prevenção e acolhimento:

  • Penas Mais Duras: A primeira-dama Janja Lula da Silva e as manifestantes clamaram por penas mais severas para os crimes de feminicídio.

  • Investimento na Rede de Acolhimento: A psicóloga Adriana Herz Domingues, do Coletivo Juntas, e outras lideranças pediram mais investimentos, concursos públicos para profissionais e a ampliação do número de Casas das Mulheres.

  • Emancipação Econômica: Foi destacada a necessidade de garantir emprego pleno e bolsas para mulheres em situação de violência, como uma ferramenta crucial de emancipação.

  • Educação e Cultura: A professora Jessica Torres e a representante do MNU, Leonor Costa, defenderam o debate sobre violência de gênero, machismo e misoginia nas escolas e em campanhas governamentais.

  • Orçamento Público: A escritora Renata Parreira, do Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocídio e Transfeminicídio, frisou a urgência de reforçar o orçamento público para criar políticas públicas efetivas de prevenção.

A mensagem unificada da manifestação foi de que a luta contra a violência de gênero é uma luta de toda a sociedade, incluindo a participação ativa dos homens para refletir e mudar a “masculinidade tóxica”, como sugerido pela escritora Renata Parreira.

 

São Paulo (SP), 07/12/2015 - Ato nacional pelo fim da violência contra as mulheres, com o tema Basta de feminicídio. Queremos as mulheres vivas!, na Avenida Paulista.  Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Ato nacional pelo fim da violência contra as mulheres, com o tema Basta de feminicídio. Queremos as mulheres vivas!, na Avenida Paulista. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Casos recentes motivaram levante

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres.
 Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A mobilização nacional foi convocada após uma onda de feminicídios recentes que abalaram o país. No final de novembro, Tainara Souza Santos teve as pernas mutiladas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro, enquanto ainda estava presa embaixo do veículo. O motorista, Douglas Alves da Silva, foi preso acusado do crime.

Na mesma semana, duas funcionárias do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-RJ), no Rio de Janeiro, foram mortas a tiros por um funcionário da instituição que se matou em seguida.

Na sexta-feira (5), foi encontrado, em Brasília, o corpo carbonizado da cabo do Exército Maria de Lourdes Freire Matos, 25 anos. O crime está sendo investigada como feminicídio, após o soldado Kelvin Barros da Silva, de 21 anos, ter confessado a autoria do assassinato.

Basta ao feminicídio. Queremos as mulheres vivas!  

Fonte: Agência Brasil

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