O setor da saúde em São Paulo foi abalado por um crime brutal que expõe as vísceras de um problema crônico: o controle de verbas públicas por Organizações Sociais – as famigeradas OSs. O assassinato de dois médicos, cometido por um colega de profissão, no último dia 16 de janeiro, transcende a violência interpessoal e revela um suposto esquema de propinas e desvios que teria sido o estopim da discussão fatal.
O que deveria ser uma noite de sexta-feira comum em um restaurante de luxo em Alphaville, em Barueri, na Grande São Paulo, transformou-se em uma cena de crime brutal que chocou a comunidade médica. O assassinato dos médicos Luís Roberto Pellegrini Gomes (43) e Vinicius dos Santos Oliveira (35), cometido pelo colega Carlos Alberto Azevedo Filho (44), revela um pano de fundo sombrio de disputas comerciais e graves suspeitas de irregularidades em contratos públicos.
A tragédia na sexta (17) abriu as portas para uma investigação que atinge o coração da gestão da saúde pública, descortinando um cenário de disputas milionárias e suspeitas de corrupção. A morte de Luís Roberto e Vinicius é um capítulo sombrio que reforça a necessidade de maior transparência nos contratos das OSs e um controle mais rígido sobre o acesso a armas por indivíduos com histórico de comportamento violento.
O episódio de Alphaville deixou de ser apenas uma tragédia local para se tornar um dossiê sobre a infiltração do crime organizado na gestão da saúde pública.
A dinâmica do crime: do bate-papo à execução em 20 segundos
Segundo as investigações da Polícia Civil, o conflito começou com um bate-boca dentro do um restaurante uruguaio em Alphaville. Imagens de câmeras de segurança mostram que o crime foi precedido por uma discussão intensa.
Carlos Alberto aproxima-se da mesa das vítimas, onde se iniciou uma discussão que evoluiu para agressões físicas. Após a intervenção de funcionários e da Guarda Municipal — que chegou a revistar os envolvidos, mas não encontrou armas naquelas circunstâncias —, os médicos foram orientados a sair.
O desfecho fatal ocorreu na calçada: segundo o delegado Andreas Schiffmann, Carlos Alberto teria recebido uma bolsa a masculina (que testemunhas afirmam ter sido entregue por uma mulher) contendo uma pistola 9mm.
Em uma ação que durou entre 15 e 20 segundos, o atirador descarregou a arma contra os colegas. Ao todo, efetuou cerca de dez disparos: oito atingiram Luís Roberto e dois atingiram Vinicius. Ambos morreram no pronto-socorro. Carlos Alberto foi preso em flagrante.
O estopim: o submundo das OSs e o esquema de propina
A principal linha de investigação da Polícia Civil aponta que a motivação foi uma “rixa” comercial antiga. O atirador e as vítimas geriam empresas que competiam por licitações e parcerias com Organizações Sociais (OSs). O atirador e as vítimas eram sócios de empresas de gestão médica que competiam por contratos públicos na área de saúde.
Contudo, o caso vai além de uma disputa de mercado. Carlos Alberto e sua empresa, a Cirmed, foram citados em investigações da Polícia Federal sobre um esquema de pagamento de propina envolvendo a Fundação ABC, uma Organização Social (OS) que gere diversas unidades de saúde em São Paulo.
De acordo com as investigações iniciais, o conflito entre os médicos estaria diretamente ligado a divergências sobre a execução desses contratos e possíveis denúncias de irregularidades administrativas ou desacordos sobre o fluxo de caixa desses contratos milionários.
Além dos disparos: a ficha criminal do atirador, um histórico de agressividade
O atirador revela um perfil que desafia os órgãos de fiscalização e a ética médica. Carlos Alberto Azevedo Filho possui registro de CAC (Colecionador, Atirador e Caçador), mas não tinha licença para andar armado. As investigações revelaram que o ‘médico-empresário’ não era um estranho às páginas policiais.
Este não foi seu primeiro incidente com as autoridades: em 2025, ele já havia sido preso em flagrante por racismo e agressão contra funcionários de um hotel em Aracaju (SE). Seu perfil, descrito como instável e autoritário, agora é analisado sob a ótica de um possível crime planejado, dadas as ameaças prévias que as vítimas vinham sofrendo.
O médico apontado como autor do crime possuía um perfil que misturava a atuação técnica com uma forte influência política dentro das Organizações Sociais. Descrito por colegas como alguém de temperamento volátil, ele ocupava cargos de confiança que lhe davam acesso direto ao fluxo de caixa da unidade.
Relatos indicam que o profissional já apresentava sinais de comportamento autoritário, utilizando sua posição para intimidar subalternos e garantir que irregularidades administrativas não fossem questionadas.
O papel da Justiça e dos Órgãos de Classe
Diante de um crime que mistura homicídio qualificado e corrupção, as medidas esperadas são rigorosas:
Esfera Judicial
A Justiça converteu a prisão de Carlos Alberto em preventiva. Além da condenação pelos assassinatos, ele deve responder por lavagem de dinheiro e organização criminosa. A investigação agora busca o esclarecimento sobre a origem da arma e a participação de terceiros na entrega da bolsa ao atirador. A polícia quer identificar quem entregou a bolsa com a arma ao médico no momento do crime, o que pode configurar coautoria.
Conselhos de Medicina (CRM e CFM)
A sociedade cobra uma postura firme do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp):
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Interdição ética: A suspensão imediata do registro profissional para impedir que o agressor continue atuando ou gerindo empresas médicas.
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Cassação definitiva: O processo administrativo deve culminar na expulsão do médico dos quadros profissionais, dada a gravidade e a reincidência em crimes violentos.
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Fiscalização de empresas: Há uma necessidade urgente de os conselhos monitorarem médicos que atuam mais como empresários de mão de obra do que como clínicos, para evitar conflitos de interesse letais.
Outros episódios: a sombra da violência na medicina
A tragédia em Alphaville traz à tona outros episódios em que a gestão da saúde pública foi manchada pelo sangue. A execução de médicos por motivações externas à prática clínica tem se tornado um tema alarmante.
Ao longo dos últimos anos, diversas investigações nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro demonstraram que a disputa pelo controle de verbas da saúde frequentemente envolve milícias e grupos de pressão que utilizam a violência para garantir contratos.
Operações da Polícia Federal já desmantelaram esquemas que drenaram milhões de hospitais públicos, revelando que a disputa pelo controle de unidades de saúde movimenta interesses de grupos que utilizam métodos criminosos para garantir fatias do orçamento público.
Este não é um caso isolado de violência ou corrupção no setor:
- Violência em Unidades de Saúde: Episódios de agressões entre funcionários e de pacientes contra médicos têm crescido, muitas vezes motivados pelo estresse gerado pela falta de infraestrutura — que é consequência direta do desvio de verba.
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Operações contra fraudes em OSs: No Rio de Janeiro, a Operação Tris in Idem revelou como OSs eram usadas para desviar milhões da saúde estadual. Em São Paulo, a Fundação ABC (citada no inquérito atual) tem sido alvo recorrente de auditorias que apontam superfaturamento e falta de comprovação de serviços prestados.
- Caso Barra da Tijuca (2023): Três médicos ortopedistas foram mortos em um quiosque no Rio por milicianos que os confundiram com rivais. Embora tenha sido por erro de identificação, o episódio expôs a fragilidade da segurança para profissionais em trânsito.
Como funciona o esquema de corrupção nas OSs
O caso de Alphaville expõe a “caixa-preta” das Organizações Sociais (OSs). O esquema investigado, que teria motivado a disputa entre os médicos, funciona geralmente através de três pilares:
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Subcontratação direcionada: A OS recebe recursos públicos e contrata empresas de “parceiros” para fornecer médicos ou insumos, sem a devida transparência ou concorrência real.
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A “rachadinha” de plantões: Médicos são contratados através de empresas intermediárias (como a do atirador). Parte do valor pago pelo poder público é devolvido aos gestores da OS como propina.
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Faturamento de horas inexistentes: O pagamento por plantões nunca realizados, gerando um excedente financeiro que alimenta o caixa dois de grupos políticos e empresariais.
O que fazer diante de irregularidades na saúde?
O caso levanta um alerta sobre a segurança de médicos envolvidos na gestão administrativa e contratos públicos na área de saúde. Especialistas em compliance e gestão hospitalar sugerem que, ao identificar irregularidades, o profissional deve seguir protocolos que garantam sua segurança:
- Canais éticos: Utilizar as ouvidorias internas das unidades de saúde pública, desde que sejam independentes.
- Denúncia ao Ministério Público: Em casos de suspeita de corrupção ou propina, o MP é o órgão mais seguro para formalizar a denúncia por envolver verbas públicas e OSs. O MP possui mecanismos de proteção ao denunciante.
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Registro no Conselho Regional de Medicina (CRM): Conflitos de natureza ética entre colegas e condutas inadequadas devem ser reportadas ao conselho de classe para processos administrativos – no caso, o Cremesp – para que as implicações éticas sejam apuradas.
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Segurança pessoal: Ameaças físicas e intimidações no ambiente de trabalho relacionadas a contratos e disputas comerciais devem ser registradas via Boletim de Ocorrência imediatamente na Polícia Civil, antes que escalem para violência física.
Conclusão: a urgência de uma limpeza no setor
A tragédia em Alphaville é o sintoma mais violento de uma doença que corrói a saúde pública brasileira: a troca da ética pela busca desenfreada por contratos públicos. Enquanto a gestão de recursos vitais for tratada como um balcão de negócios, profissionais éticos continuarão sob risco e a população seguirá desassistida.
O portal Vida e Ação seguirá acompanhando os desdobramentos deste caso, que acende o alerta para a urgência de uma fiscalização mais rigorosa sobre as OSs e para a proteção de profissionais que, no exercício da ética, acabam tornando-se alvos de organizações criminosas infiltradas no sistema de saúde.





