A adolescência não é um ensaio para a vida adulta, mas um capítulo fundamental dela. Ainda assim, muitas meninas são empurradas para papéis e expectativas que não correspondem à sua idade, como se a aparência física bastasse para definir maturidade. Essa adultização precoce, travestida de “liberdade” ou “empoderamento”, cobra um preço alto, compromete o desenvolvimento emocional, fragiliza a autoestima e expõe a riscos que deixam marcas para a vida inteira.
O alerta é reforçado por profissionais de saúde diante das recentes denúncias envolvendo casos de abuso e da repercussão do vídeo publicado pelo influenciador Felca, que destacou a adultização precoce nas redes sociais e seus impactos. O assunto não é novo, mas ganhou forma e peso na mídia e até diante do poder público após as denúncias. Vídeos compartilhados nas redes sociais concentram mais de 40 milhões de visualizações, reforçando a importância de abrir a roda de conversa com os especialistas e dar nome e sobrenome à exploração e exposição de menores de idade nas redes sociais, o que, inclusive, é crime.
Para a médica Fabiane Berta, sob o olhar da medicina ginecológica, é impossível ignorar que o corpo adolescente está em pleno processo de construção.
Alterações hormonais, amadurecimento ósseo e neurológico acontecem em ritmos diferentes, e forçar essa engrenagem pode ter consequências duradouras, como distúrbios menstruais, impactos na fertilidade e dificuldades na saúde sexual e reprodutiva. Mas o risco físico não é tudo. Quando a sociedade sexualiza e cobra comportamentos adultos de meninas, mina sua capacidade de compreender limites, consentimento e cuidado com elas mesmas”, revela.
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Danos emocionais da adultização para além da adolescência
Para a psicanalista Ana Lisboa, os danos emocionais dessa imposição ultrapassam a fase da adolescência. “Quando a infância é encurtada, a menina aprende cedo que precisa corresponder às expectativas externas para ser aceita. Isso fragiliza sua autonomia emocional, cria padrões de relacionamentos desequilibrados e compromete sua percepção de valor pessoal. É um impacto silencioso que pode acompanhá-la por toda a vida”, afirma.
Ela destaca ainda que a criança aprende como se respeitar observando os pais. “Se não vê cuidado e respeito, cresce sem essa referência essencial, e isso é perigoso para o desenvolvimento saudável”, completa. Outro ponto importante é o peso social. Uma menina “adultizada” é, muitas vezes, tratada como responsável por interações e situações para as quais não tem preparo emocional.
Isso coloca essa menina em desvantagem em relações afetivas, profissionais e até no exercício de sua cidadania no futuro. É como plantar hoje a semente de uma desigualdade que ela terá de carregar por décadas”, pontua a médica que também é especialista em neurociências e comportamento.
Ana Lisboa reforça que combater a adultização é mais do que um ato de proteção, é um investimento no futuro. O barulho em torno da causa é simples e urgente. Proteger a infância e a adolescência não é antiquado, obsoleto ou ultrapassado, é cuidado.
A sociedade precisa garantir que a mulher de amanhã possa olhar para trás e reconhecer que cada fase foi respeitada e que, por isso, hoje ela tem a força, a saúde e a consciência necessárias para decidir o próprio caminho. Respeitar o tempo de cada fase é oferecer a base para que essa menina se torne uma mulher segura, saudável e consciente de suas escolhas. Não é sobre limitar, é sobre garantir que ela cresça inteira”, conclui a psicanalista.
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Meninas com comprometimento neurológico ou puberdade precoce são vítimas
Abuso sexual infantil pode ocorrer sem contato físico e reforça a necessidade de atenção aos sinais e ao que as crianças consomem na internet
Cerca de 70% das vítimas de estupro no Brasil são menores de idade. Isso equivale a pelo menos três ataques por hora envolvendo crianças e adolescentes. Meninas — muitas vezes periféricas, indígenas, com comprometimento neurológico ou puberdade precoce — estão entre as mais vulneráveis.
O endocrinologista pediátrico Miguel Liberato alerta que a maioria dos casos ocorre dentro de casa, cometidos por familiares ou pessoas próximas. Segundo ele, não é preciso contato físico para que uma situação seja considerada abuso sexual infantil. “O termo abuso sexual infantil abrange qualquer ato de conotação sexual envolvendo crianças e adolescentes, com ou sem contato físico”, explica.
O especialista alerta ainda para a importância de se prestar atenção para sinais como queda repentina no rendimento escolar, regressão do desenvolvimento, retorno a hábitos como chupeta ou xixi na cama, além de referências sexuais incomuns em brincadeiras, desenhos ou falas. “Muitas vezes, a criança está reproduzindo algo que vivenciou”, observa o especialista.
Liberato reforça a importância da atenção ao conteúdo que crianças acessam na internet, lembrando que abusos iniciados no ambiente virtual podem evoluir para encontros presenciais.
Todos nós devemos estar atentos aos sinais que a criança pode apresentar. A prevenção é a nossa principal arma, e ela começa com informação e diálogo adequado. Os pais devem conversar desde cedo com os filhos, nomeando corretamente as partes íntimas do corpo e ensinando sobre limites. Isso ajuda a criança a identificar e comunicar situações que fogem do normal”, afirma o endocrinologista.
Com Assessorias




