A intolerância religiosa permanece como uma marca profunda na sociedade brasileira. De acordo com levantamento inédito da Croma Consultoria “Oldiversity”, apenas 28% dos brasileiros consideram o país tolerante em relação às crenças e práticas religiosas, enquanto 35% afirmam que o Brasil é intolerante. O estudo revela que, embora parte da população acredite em avanços no futuro, o presente ainda é marcado por desigualdade, discriminação e pela dificuldade de convivência entre fé e diversidade.

Mais da metade dos brasileiros reconhece que minorias religiosas continuam sendo vistas de forma negativa pela maioria. Essa percepção é especialmente alta entre pessoas LGBTQIAPN+ (66%) e pessoas com deficiência (61%), o que evidencia a sobreposição de vulnerabilidades em grupos historicamente expostos à exclusão. Entre pessoas negras, o índice chega a 54%, enquanto entre os brasileiros com mais de 61 anos cai para 48%, sinalizando um maior distanciamento do tema entre as gerações mais velhas.

A influência da fé também aparece de forma desigual no consumo. 52% das pessoas LGBTQIAPN+ e 46% das pessoas com deficiência afirmam perceber impacto de crenças religiosas nas decisões de marcas e produtos, o que reforça como identidade e religiosidade continuam moldando comportamentos de consumo e percepções de marca.

No campo social e político, 47% das pessoas negras e 44% das pessoas com deficiência afirmam sentir discriminação associada à religião, confirmando que esses grupos estão mais expostos às tensões de fé e pertencimento.

Quando se olha para o futuro, o país se divide entre esperança e pessimismo. Na somatória, 36% dos brasileiros acreditam que a sociedade será mais tolerante nos próximos anos, enquanto 35% preveem um aumento da intolerância. Entre católicos, há leve predomínio do otimismo 39% acham que serão mais ou muito mais tolerantes, mas entre evangélicos 40% enxergam um cenário de retrocesso.

Entre pessoas sem religião, o pessimismo é ainda maior: 45% acreditam que a intolerância vai crescer e apenas 29% esperam melhora. Esses dados indicam que os debates sociais e políticos continuam moldando a percepção pública sobre respeito e liberdade de crença.

Entre os que acreditam que os brasileiros são mais intolerantes em relação às crenças e religiosidade, o grupo LGBTQIAPN+ se destaca: 52% veem um cenário de intolerância generalizada, contra uma média nacional de 45%. Pessoas com deficiência (45%) e pessoas negras (40%) seguem a mesma linha. Ainda assim, 40% das pessoas LGBTQIAPN+ demonstram otimismo e acreditam que o país pode se tornar mais tolerante nos próximos anos, um sinal de esperança em meio a um contexto de polarização e exclusão.

Compreender a diversidade religiosa é essencial nas empresas

O estudo da Croma Consultoria evidencia que, embora o país reconheça a intolerância, há também disposição para o diálogo e para a mudança. A fé, ao mesmo tempo em que conecta e orienta valores, continua sendo um marcador de desigualdades.

Para Edmar Bulla, fundador da Croma Consultoria, “a diversidade religiosa é um dos grandes espelhos da complexidade social brasileira. Quando fé e preconceito se cruzam, revelam-se não apenas as diferenças de crença, mas também as desigualdades de pertencimento. Reconhecer essas nuances é fundamental para construir pontes de respeito e empatia que possam transformar a convivência social e as estratégias das marcas.”

Para marcas que desejam se posicionar de forma consistente, compreender a diversidade religiosa é essencial. Acolher diferentes crenças com respeito, sem transformá -las em estereótipos de marketing, é fundamental para construir conexões autênticas com públicos diversos”, explica o especialista.

Para empresas, instituições e lideranças sociais, compreender a diversidade religiosa e acolher diferentes expressões de fé, ou de ausência dela, é essencial para construir conexões autênticas e consistentes em uma sociedade que ainda busca equilibrar espiritualidade, respeito e convivência.

Mais sobre o estudo

Foram realizadas 2.000 entrevistas entre os dias 19 e 28 de agosto de 2025, em todo o Brasil, utilizando painel on-line, com cotas específicas considerando as faixas geracionais, gênero, classe social e região geográfica.

Foram realizadas entrevistas procuradas (booster) para comporem as avaliações por etnia, orientação sexual e pessoas com deficiência. Margem de erro de dois pontos percentuais para a amostra total, com nível de confiança de 95%.

Palavra de Especialista

A complexa relação entre o Estado Laico e as Religiões de Matriz Africana no Brasil

Por Tamara Henriqueta da Silva Ojeda*

O Estado laico, consagrado na Constituição Federal de 1988, estabelece a separação entre Igreja e Estado. Isso significa que o Estado não deve ter nenhuma religião oficial, nem favorecer ou privilegiar nenhuma crença em detrimento de outras. Em teoria, esse princípio garante a liberdade religiosa de todos os cidadãos, incluindo os adeptos das religiões de matriz africana (RMAs), como Candomblé e Umbanda.

No entanto, a prática nem sempre acompanha a teoria. As RMAs, historicamente marginalizadas e vítimas de preconceito e intolerância, ainda lutam por pleno reconhecimento e respeito por parte do Estado brasileiro.

Desafios e conquistas

Discriminação e intolerância: Apesar da laicidade, as RMAs ainda enfrentam discriminação em diversos âmbitos da sociedade, desde o constrangimento no local de trabalho até a violência física contra seus terreiros. A falta de reconhecimento e proteção legal contribui para esse cenário.

Luta por reconhecimento: As RMAs travam uma árdua batalha por reconhecimento oficial como religiões, o que lhes garantiria direitos como acesso a políticas públicas e proteção contra a intolerância. Avanços importantes foram feitos, como a criação do Dia Nacional das Tradições das Raízes Africanas e Nações do Candomblé em 2023.

Combate à desinformação: A desinformação e os estereótipos negativos sobre as RMAs ainda persistem, alimentando o preconceito e a intolerância. Combater essas narrativas falsas e promover o conhecimento sobre as RMAs é crucial para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Papel do Estado

Garantir a liberdade religiosa: O Estado tem o dever de garantir a liberdade religiosa de todos os cidadãos, combatendo a discriminação e promovendo a tolerância religiosa. Isso inclui a proteção dos terreiros de RMAs e o combate à violência contra seus adeptos.

Promover o diálogo inter-religioso: O diálogo entre diferentes crenças é fundamental para construir pontes e superar preconceitos. O Estado pode fomentar iniciativas que promovam o diálogo inter-religioso e o respeito à diversidade religiosa.

Implementar políticas públicas inclusivas: As políticas públicas devem ser implementadas de forma a contemplar as necessidades e especificidades das RMAs, garantindo seu acesso a direitos básicos como educação, saúde e cultura.

Conclusão

A relação entre o Estado laico e as religiões de matriz africana no Brasil é complexa e marcada por desafios e conquistas. Apesar dos avanços, ainda há um longo caminho a ser percorrido para que as RMAs sejam plenamente reconhecidas e respeitadas.

O Estado tem um papel fundamental a desempenhar nesse processo, garantindo a liberdade religiosa, combatendo a discriminação e promovendo o diálogo inter-religioso. Somente com um compromisso conjunto do Estado e da sociedade civil é possível construir um Brasil verdadeiramente plural e inclusivo, onde todas as crenças sejam respeitadas e valorizadas.

Leis importantes

Lei 14.519/2023: Institui o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé.

Lei 14.523/2023: Dispõe sobre a proteção da liberdade religiosa e o combate à intolerância religiosa.

*Tamara Henriqueta da Silva Ojeda – Formada em Direito pela Universidade Metodista de São Paulo, pós-graduada na Universidade Presbiteriana Mackenzie em Direito Processual Civil, pós-graduada na Universidade Metropolitana em Direiro Civil e Contratos e atua como Coordenadora no Vigna Advogados Associados.

Com Assessorias
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