O Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de novos casos de hanseníase, ficando atrás apenas da Índia, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2025. Apesar de ser uma das doenças mais antigas da humanidade, a falta de informação ainda é o maior obstáculo para o controle da enfermidade no país.
Para a enfermeira Andrea Tavares, da Cuidare Alphaville Pernambuco, o estigma faz com que muitos pacientes evitem falar sobre o assunto, o que atrasa o diagnóstico. “O tratamento tardio torna a condição ainda mais agravada”, alerta. Com o apoio da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), esclarecemos os principais pontos que geram dúvidas na população.
Mitos e verdades
1. A hanseníase é transmitida pelo compartilhamento de objetos?
Mito. A contaminação ocorre exclusivamente pelas vias aéreas (fala, tosse ou espirro) e exige contato próximo e prolongado com uma pessoa doente que não esteja em tratamento. Não se pega hanseníase por abraços ou pelo uso de pratos e talheres compartilhados.
2. A doença é de fácil transmissão?
Mito. Para haver infecção, é necessário conviver por um longo período na mesma residência que o enfermo. Contatos breves ou esporádicos oferecem baixo risco de contágio. Além disso, a maioria das pessoas possui defesa natural contra o bacilo.
3. A hanseníase é hereditária?
Mito. A enfermidade não é transmitida geneticamente de pais para filhos. A transmissão é estritamente respiratória e ambiental.
4. Não existe tratamento para a doença?
Mito. O avanço da ciência disponibiliza hoje a Poliquimioterapia (PQT), um coquetel de três antimicrobianos (rifampicina, dapsona e clofazimina) capaz de destruir o bacilo causador. O tratamento é oferecido gratuitamente e exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
5. O paciente em tratamento continua transmitindo a doença?
Mito. Logo após as primeiras semanas de tratamento correto, a pessoa deixa de transmitir a bactéria. Por isso, não há necessidade de isolamento social ou afastamento do trabalho e da família.
6. A hanseníase não tem cura?
Mito. A doença tem cura total e definitiva, desde que o tratamento seja seguido rigorosamente. O período terapêutico varia de seis meses (casos paucibacilares) a um ano (casos multibacilares).
7. Hanseníase e lepra são a mesma coisa?
Verdade. No entanto, o termo “lepra” foi abolido oficialmente no Brasil em 1995 devido à carga negativa e ao preconceito acumulado ao longo dos séculos. Hoje, o foco é a dignidade do paciente e a saúde pública.
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A importância do diagnóstico precoce
Segundo Arthur Fernandes, diretor de comunicação da SBMFC, a hanseníase não afeta apenas a pele com manchas esbranquiçadas ou avermelhadas; ela também ataca os nervos periféricos. “A doença pode causar dor neuropática, perda de força muscular e formigamento nas mãos e pés”, explica.
O médico de família e comunidade desempenha um papel central nesse cenário, sendo capaz de realizar o diagnóstico clínico nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Quanto mais cedo a terapia começa, menores são as chances de sequelas e maior é a eficácia na interrupção da cadeia de transmissão na comunidade.
Como buscar ajuda e o que esperar no atendimento
Se você identificou alguma mancha suspeita ou perda de sensibilidade, o caminho correto é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o Posto de Saúde mais próximo da sua residência.
1. Onde ir?
A hanseníase é tratada na Atenção Primária. Isso significa que você não precisa de um hospital especializado logo de início. O médico de família ou o enfermeiro da sua unidade de saúde estão capacitados para realizar o primeiro exame.
2. O que levar?
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Documento de identidade.
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Cartão do SUS (se tiver).
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Dica: Se possível, leve anotado quando a mancha surgiu e se você teve contato prolongado com alguém que teve a doença no passado.
3. Como é feito o exame?
O diagnóstico é essencialmente clínico. O profissional de saúde irá:
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Observar a coloração e o formato das manchas.
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Realizar testes de sensibilidade (usando algodão ou objetos de diferentes temperaturas) para verificar se você sente o toque naquela área.
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Avaliar a força das suas mãos e pés.
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Palpar nervos nos braços e pernas para verificar se estão inchados ou doloridos.
4. Diagnóstico confirmado: e agora?
Se o diagnóstico for positivo, o tratamento começa imediatamente:
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Medicação gratuita: Você receberá a primeira dose da Poliquimioterapia (PQT) na unidade e levará o restante para tomar em casa.
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Exame de contatos: O profissional de saúde solicitará que as pessoas que moram com você também compareçam à unidade para uma avaliação preventiva. Isso é fundamental para interromper a transmissão na sua família.
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Caderneta de saúde: Você receberá um documento para registrar as doses e acompanhar sua evolução.
5. Seus direitos
Lembre-se: o sigilo sobre o seu diagnóstico é um direito garantido. Além disso, você não precisa se afastar das suas atividades rotineiras, pois a transmissão é interrompida logo no início do tratamento.




