Febre maculosa: qual é o número real de casos no RJ?

Em junho, havia 8 casos confirmados em 5 municípios; agora Estado confirma 4 casos em 3 cidades. Mas número de mortes é o mesmo: 2 em Itaperuna

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Está difícil saber qual é o número real de casos de febre maculosa no Estado do Rio de Janeiro este ano, apesar de a doença ser de notificação obrigatória. Isso porque os próprios números nos quais a Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) se baseia para informar a população podem sofrer alterações sobre as quais a pasta não tem controle, pois dependem da inserção de dados pelos municípios no sistema gerido pelo Ministério da Saúde.

No dia 19 de junho, a SES-RJ divulgou que, este ano, até aquela data, foram confirmados oito casos e duas mortes em cinco cidadesItaperuna (onde houve três casos, sendo dois óbitos), Nova Iguaçu (2), Angra dos Reis (1), Itaocara (1) e Natividade (1), conforme publicamos aqui. Ao todo, eram mais de 40 casos suspeitos até 14 de junho.

Porém, nesta segunda-feira (24/7), a Secretaria informou outros números: o Estado do Rio tinha apenas quatro casos confirmados da doença em três municípios –  somente o número de mortes (2) se mantém o mesmo, na mesma cidade (Itaperuna).

“Até o momento, quatro casos da doença, dois em Itaperuna, um em Barra Mansa e um em Angra dos Reis, e dois óbitos, ambos em Itaperuna, foram confirmados”, afirma trecho da nota sobre o Painel de Rumores, recém-criado pela SES-RJ justamente para detectar informações falsas ou equivocadas na área de saúde.

O texto reforça que “por se tratar de uma doença de notificação compulsória, ou seja, todo caso a partir de sua suspeita precisa ser obrigatoriamente informado às autoridades estaduais, a febre maculosa possui um painel exclusivo de monitoramento epidemiológico da SES-RJ“.

Questionada pelo Portal ViDA & Ação, a Secretaria informou que “os dados são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), uma ferramenta do Ministério da Saúde que contém informações alimentadas pelos municípios”. E explicou que “a SES-RJ consulta e repassa essas informações, mas não são dados elaborados pela Secretaria”.

Ainda segundo a pasta, “no Rio de Janeiro, os exames para a confirmação de casos de febre maculosa são feitos pela Fiocruz“. Procurada, a assessoria da Fundação Oswaldo Cruz não retornou até o fechamento desta matéria.

Portanto, ainda não sabemos se, de fato, foram oito casos confirmados este ano (até 19 de junho) ou quatro (até 24 de julho) e se outros casos suspeitos estão sob avaliação.

‘Painel de Rumores’ da SES não detectou notícia falsa

Painel de rumores da Secretaria de Estado de Saúde detecta 38 notícias em uma semana, nenhuma falsa, mas números sobre febre maculosa divergem (Foto: Divulgação SES)

O painel digital para registro dos rumores criado pelo Centro de Inteligência em Saúde (CIS-RJ) da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) identificou que febre maculosa e influenza aviária foram os assuntos mais capturados da última semana. Segundo a nota, “nenhuma notícia falsa foi identificada até o momento”.

Recém-criada, a iniciativa é considerada pioneira em Vigilância Epidemiológica e detectou, segundo a SES, 38 notícias em saúde entre os dias 15 e 21 de julho. Desse total, cinco foram relacionados à influenza aviária e três à febre maculosa. Assuntos como chuvas, terremotos e ciclone também foram observados.

Destaque da semana, a influenza aviária é monitorada pela secretaria através do CIS com rastreamento dos focos da doença no estado. “Até o momento, apenas casos em aves foram confirmados e seis casos em humanos foram descartados”, diz a nota.

Como funciona?

O Painel de Rumores da SES-RJ usa duas ferramentas para monitoramento de assuntos na internet, o Google Alerta e o EIOS, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

A partir disso, é inserido um filtro para rastrear doenças de interesse em saúde pública e os nomes dos 92 municípios fluminenses.

Desta forma, técnicos do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS) da Secretaria realizam uma triagem inicial para verificar se as notícias capturadas pelas ferramentas são verdadeiras.

Núcleo da UFRJ registrava 6 casos e 1 óbito em junho

Em nota técnica emitida no dia 16 de junho, o Núcleo de Enfrentamento e Estudos de Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes (Needier) da UFRJ informava que, no Estado do Rio de Janeiro, até aquela data, seis casos e um óbito haviam sido registrados em 2023, de acordo com a última atualização disponibilizada pelo Sinan. 

A Prefeitura de Angra dos Reis informou na ocasião que recebeu quatro notificações e apenas um caso positivo (com local provável de infecção no município de Ubatuba/SP, em que o paciente ficou curado). Em 2022, Angra teve oito casos suspeitos, dos quais sete foram descartados e um confirmado. O paciente iniciou o tratamento em tempo oportuno e se curou.

ViDA & Ação ainda apura diretamente com os demais municípios sobre os casos que teriam sido registrados em Nova Iguaçu, Itaocara e Natividade – conforme o comunicado de junho da SES-RJ – e que não constavam mais nos dados divulgados pela Secretaria em julho. Também checa com o município de Barra Mansa, que passou a constar na nova comunicação da SES.

Casos podem ser confundidos com dengue

No mês de junho, casos de óbitos por febre maculosa em São Paulo acenderam o alerta das autoridades médicas e de saúde, e despertaram o interesse da população em conhecer mais a doença, considerada pouco difundida.

De acordo com a Fiocruz, entre 2000 e 2022, a doença provocou 2.636 infecções, com 920 óbitos em todo o país. A maior concentração de casos é nas regiões Sudeste e Sul. Em 2023, o país já registrou 49 casos e 6 mortes, de acordo com dados do MS e de Secretarias Estaduais de Saúde.

O primeiro caso de febre maculosa em território nacional ocorreu em 1929. Passados mais de 90 anos, a falta de informação continua sendo um dos maiores desafios no enfrentamento da doença.

Com quadro clínico marcado por febre alta, dores de cabeça, náuseas e vômitos, o diagnóstico correto depende do conhecimento dos profissionais de saúde sobre este agravo, que compartilha os mesmos sintomas com diversas doenças.

Segundo informações da Fiocruz, no Estado do Rio de Janeiro, nas últimas décadas, praticamente todos os casos de óbito por febre maculosa tiveram o diagnóstico inicial de dengue.

“As manifestações iniciais geralmente são leves e inespecíficas (febre, mal-estar, dor de cabeça, dores no corpo), além de facilmente confundíveis com outras doenças febris agudas (como dengue, zika, chikungunya, gripe, covid-19, entre outras)”, ressalta a nota técnica do Needier/UFRJ.

Atenção especial durante as férias em áreas rurais

Independentemente de quantos casos e onde foram oficialmente registrados no Estado do Rio até o momento, a dúvida acende um sinal de alerta, já que ainda estamos em período de férias escolares, mês em que muitas famílias procuram atividades de lazer ao ar livre, especialmente no campo, onde a transmissão da doença é mais comum.

A febre maculosa é causada por uma infecção pela bactéria Rickettsia rickettsii, que pode ser transmitida por picadas de carrapatos do gênero Amblyomma, conhecidos popularmente como carrapato-estrela, micuim, carrapato-do-cavalo, entre outros.

“A exposição dos humanos ao carrapato envolve principalmente atividades ocupacionais e recreativas em áreas rurais, onde animais como cavalos e capivaras podem servir de hospedeiros para essas espécies”, orienta o Needier/UFRJ. “Entretanto, a transmissão também pode ocorrer por exposição domiciliar mediada por cães e gatos infestados”, acrescenta.

Para evitar a contaminação, é recomendável evitar a exposição ao carrapato. “Para indivíduos residentes ou visitantes de áreas infestadas por esses insetos, recomenda-se o uso de vestimentas apropriadas para a proteção, como roupas de cores claras (para facilitar a identificação dos carrapatos), camisas de manga comprida, calças compridas, macacões, meias e botas de cano alto”.

Doença tem alto índice de letalidade

Também é importante lembrar que esta é uma doença de diagnóstico e tratamento difíceis, com índice de letalidade que pode passar de 40%, conforme mostramos no Especial Febre Maculosa, que publicamos em junho aqui no ViDA & Ação.

De acordo com o Needier/UFRJ, o tempo decorrido entre a infecção e o aparecimento de sintomas da febre maculosa varia de dois a 14 dias. “Contudo, pode ocorrer rápida progressão para formas graves (falência dos rins, falência respiratória, sangramentos anormais)”, ressalta a nota.

As manchas na pele (exantema) geralmente só aparecem entre o terceiro e quinto dia da doença, como pequenas pintas ou semelhantes a picadas de mosquito, atingindo palma das mãos e plantas dos pés e progredindo para tronco e face.

“A ausência de manchas não deve afastar o diagnóstico. A febre maculosa tem tratamento antimicrobiano específico (doxiciclina), mas é crucial que o antibiótico seja introduzido logo no início dos sintomas”, pontua.

Após a confirmação de sete casos e quatro óbitos por febre maculosa no município de Campinas (SP), a nota técnica do Needier fazia alertas para a relevância das medidas profiláticas e procedimentos em caso de exposição.

“As pessoas que apresentem quadro febril e tenham visitado áreas com risco potencial de exposição a carrapatos devem se dirigir ao Needier para avaliação clínica, investigação diagnóstica e orientações pertinentes”, dizia o documento.

O Needier também recebe encaminhamento de casos suspeitos externos à UFRJ. O núcleo está localizado no Polo de Biotecnologia (Av. Carlos Chagas Filho, 791, Cidade Universitária, Rio de Janeiro/RJ). O atendimento funciona de segunda a sexta-feira, das 8 às 16h. O contato prévio com a equipe do Needier pode ser realizado pelo WhatsApp (21) 96845-8188 ou pelo e-mail consulta@needier.ufrj.br.

Perguntas e respostas

O Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), por meio do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses, que atua como Serviço de Referência junto ao Ministério da Saúde (MS) para Rickettsioses, preparou um amplo material sobre a doença, com vídeo e perguntas e respostas. A pesquisadora Elba Lemos esclarece dúvidas e alerta para a prevenção da doença – veja aqui.

Com informações da SES-RJ, Needier e Fiocruz

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