De acordo com o relatório Born Too Soon, da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil está entre os países com maior número absoluto de nascimentos prematuros no mundo. Os bebês nascidos antes de 37 semanas de gestação enfrentam riscos significativamente maiores à saúde, incluindo complicações respiratórias, cardíacas, neurológicas e atrasos no desenvolvimento cognitivo e motor.
Apesar do alto número de partos antes da hora, a experiência das famílias brasileiros com a prematuridade tem o seu período inicial marcado por medo, preocupação constante, insegurança com os cuidados e, ao mesmo tempo, sentimento de esperança. É o que revela a pesquisa “A Proteção aos Prematuros no Brasil”, realizada pelo Datafolha, que investigou percepções sobre saúde, desenvolvimento, orientações recebidas, barreiras enfrentadas e o entendimento sobre o calendário vacinal específico para prematuros.
O levantamento ouviu pais e mães de crianças entre 0 e 5 anos que nasceram prematuras, distribuídos por todas as regiões do país — majoritariamente mulheres, a maioria com filhos que passaram longos períodos em UTI neonatal. Os resultados revelam um cenário em que a fragilidade do bebê, o trauma da internação e a falta de informações consistentes se combinam e impactam diretamente a adesão ao calendário vacinal, fundamental para esses bebês que têm o sistema imunológico ainda mais frágil.
De acordo com o estudo, 65% dos pais consideram a vacinação uma experiência de estresse moderado a intenso. Quase metade relata medo de reações adversas, 24% sentem ansiedade ou nervosismo e 11% chegam a sentir culpa por acreditar que o bebê está sofrendo. Essa sensibilidade emocional está profundamente conectada à história da prematuridade: 92% dos bebês passaram por internações na UTI neonatal, muitos deles com peso muito baixo, dificuldades respiratórias ou de alimentação e, em alguns casos, risco de vida.
A pesquisa também evidencia percepções equivocadas que atrasam a proteção. Um em cada quatro pais prefere adiar a vacina até que o bebê “fique mais forte”, embora as evidências científicas mostrem que a proteção precoce é fundamental. Além disso, 36% acreditam que prematuros seguem o calendário de bebês nascidos a termo, quando, na verdade, esses bebês têm um calendário vacinal com cuidados específicos, com recomendações relacionados à idade gestacional e peso.
Os atrasos vacinais também são influenciados por barreiras práticas. O estudo mostra que 75% dos pais enfrentaram algum obstáculo para vacinar seus filhos, incluindo falta de vacinas, longas filas, horários incompatíveis e ausência de orientação adequada. Embora a maioria tenha conseguido manter o calendário em dia ou com pequenos atrasos, há casos em que dificuldades estruturais dos serviços de saúde ou inseguranças persistentes contribuíram para adiamentos mais significativos.
Desinformação ou falta de clareza sobre calendário vacinal
Sobre as orientações acerca da imunização fornecidas logo após o nascimento, 70% dizem ter recebido explicações claras sobre o calendário vacinal, mas 24% consideraram as informações confusas ou não receberam qualquer orientação.
A desinformação é outro elemento central explorado no questionário. 43% dos responsáveis ouviram informações contraditórias sobre vacinação de prematuros, originadas principalmente na família, redes sociais e, em alguns casos, de profissionais de saúde.
Além disso, 28% relataram ter visto um profissional demonstrar insegurança diante da vacinação de um bebê prematuro, evidenciando a necessidade de qualificação permanente dos profissionais para a oferta de orientações adequadas.
Mesmo com esses desafios, o sentimento de segurança é significativo: 58% dos pais afirmam se sentir aliviados por entender que estão protegendo seus filhos ao vaciná-los.
Pouco conhecimento sobre os CRIEs
A baixa clareza sobre o calendário vacinal também se relaciona ao conhecimento limitado sobre os CRIEs (Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais), serviços do SUS que integram a RIE (Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais) e são preparados para atender grupos vulneráveis, como prematuros, com imunobiológicos específicos e orientação qualificada.
Embora sejam fundamentais para garantir esquemas adequados a esses bebês, a pesquisa mostra que apenas 39% dos responsáveis conhecem os CRIEs, enquanto 31% apenas ouviram falar e 30% desconhecem totalmente o serviço. Entre aqueles que conhecem, porém, 85% relatam que seus filhos foram vacinados ou orientados no local, evidenciando o potencial desses centros para reduzir inseguranças, corrigir informações contraditórias e apoiar profissionais na comunicação com as famílias.
O estudo ouviu 200 pais e mães de bebês prematuros com até 5 anos, de todas as regiões brasileiras, incluindo capitais, regiões metropolitanas e cidades do interior. Cerca de 70% dos respondentes eram mulheres, 43% tiveram o parto pelo SUS e 92% dos bebês passaram por internação em UTI neonatal.
Especialistas comentam resultados
Para o infectologista pediátrico Daniel Jarovsky, esse impacto emocional precisa ser acolhido e compreendido. “Os pais de prematuros carregam uma memória de fragilidade intensa. Quando chega o momento da vacinação, muitos revivem aquele período crítico. Mas é justamente por terem maior risco de infecções graves que os prematuros precisam ser vacinados no tempo certo e com as recomendações específicas”, afirma.
Segundo Denise Suguitani, diretora executiva da ONG Prematuridade.com, os bebês prematuros têm necessidades de saúde específicas e urgentes, e isso inclui a imunização no tempo correto e com as recomendações adequadas.
Quando quase metade das famílias relata ter recebido orientações contraditórias, fica evidente a necessidade de protocolos unificados e qualificação permanente dos profissionais. É papel de toda a rede garantir que nenhum bebê tenha sua proteção atrasada por falta de informação”, reforça“Informação clara, transmitida com empatia e consistência, transforma a vacinação em uma etapa de confiança, não de temor”, diz.
Documentário explica melhor a prematuridade
Para contribuir com a conscientização sobre o tema levar informação de qualidade à população, o TV Saúde Brasil Net, com apoio da Sanofi, lançou um documentário especial sobre prematuridade como parte da Série Saúde Brasil. Disponível gratuitamente no YouTube, a produção explica os diferentes graus de prematuridade, riscos associados, avanços da neonatologia e direitos das famílias.
O documentário traz entrevistas de profissionais de referência, como Arlley Cleverson Belo da Silva, médico especialista em Obstetrícia, Ginecologia e Medicina Fetal, e Lilian Sadeck, pediatra no Centro Neonatal do Instituto da Criança e Adolescente do Hospital das Clínicas da FMUSP
O filme dedica ainda um espaço essencial à imunização dos prematuros, destacando a importância da proteção contra doenças respiratórias e infecciosas, para as quais esses bebês são particularmente vulneráveis.
Além da visão técnica, o documentário ouve quem vive a prematuridade na prática. Denise Suguitani, diretora da ONG Prematuridade.com, e Kelly Gadelha de Oliveira Diniz, mãe de um bebê prematuro, compartilham suas experiências, desafios e aprendizados — trazendo humanidade, acolhimento e profundidade ao tema.
Com Assessorias




