Fake news sobre mamografia: como combater a desinformação?

Apenas um quarto das mulheres que precisam consegue mamografia pelo SUS. Alerta falso associa exame de rastreamento a disseminação do câncer no lugar de prevenção contra a doença

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Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), foram estimados cerca de mais de 65 mil casos de câncer de mama no Brasil em 2022. O tipo da doença é o mais comum entre as mulheres brasileiras com uma taxa de 43,74 casos por 100 mil mulheres. A mamografia é indicada a todas as mulheres, inclusive quando não apresentam sintomas, porque é um exame de rastreio e pode identificar nódulos ainda muito pequenos.

O Ministério da Saúde e o Inca recomendam a que a mamografia seja realizada anualmente por mulheres com mais de 40 anos. Entre os 50 e 69 anos, o exame deve ser feito a cada dois anos. Mulheres que tenham histórico de câncer de mama na família devem começar a fazer o exame mais cedo, aos 35 anos.

Já a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), recomenda a realização anual do exame a partir dos 40 anos e aos 30 para pacientes consideradas de alto risco. Antes dos 40 anos, a mamografia se mostra menos efetiva, em função das características das mamas das mulheres mais jovens.

No entanto, segundo um levantamento da SBM, em parceria com a Rede Goiana de Pesquisa em Mastologia, menos de 25% da população-alvo brasileira consegue fazer a mamografia no SUS. Os estudos que validaram a mamografia como método de rastreamento demonstraram efetividade quando 70% ou mais realizava a mamografia.

O Outubro Rosa é considerado um dos principais movimentos sociais de conscientização contra o câncer de mama. O laço rosa ganhou força no final da década de 1980 e início da década de 1990, nos Estados Unidos, com a divulgação em massa da importância da prevenção e, na época, do autoexame das mamas. A força da campanha foi tamanha que mais de 30 anos depois, ficou impossível desassociar a cor rosa do mês de outubro.

É fato que muita coisa mudou ao longo desse tempo. Com as pessoas falando mais sobre a doença, a prevenção se torna cada vez mais natural entre as mulheres. Mas em meio a esse cenário preocupante, fake news (notícias falsas) questionam a confiabilidade do exame de mamografia, responsável por detectar com maior precisão os casos da enfermidade.

Compressão das mamas durante o exame causa câncer?

O cenário de desinformação é marcado por declarações que afirmam que o exame de mamografia, feito com tecnologia de raio X, provoca câncer nas pessoas. Outra inverdade sobre o assunto ressalta que a compressão das mamas necessárias para a realização do exame também contribui para o cenário da doença.

A professora de medicina da Unigranrio-Afya, Clara Carvalho, vê como alarmante a circulação desses conteúdos entre a população, especialmente no âmbito digital. A profissional especializada em oncologia informa que não realizar o exame contribui para uma detecção tardia, que dificulta o tratamento da doença.

“A compressão da mama é essencial para qualidade do exame, pois reduz a espessura da mama e evita que ela se mova durante o processo. O câncer de mama ainda mata muito no Brasil porque muitas mulheres já chegam em estadiamento [estadiar um caso de câncer significa avaliar seu grau de disseminação] avançado para o tratamento. Poucas pessoas procuram a orientação médica no momento e, além disso, práticas de autoexame não são divulgadas como deveriam”, conta Clara.

Radiação durante o exame é segura, dizem médicos

Outro mito compartilhado é que a radiação durante a mamografia pode causar câncer. Em relação à necessidade de radiação para a efetuação do exame, quando utilizadas técnicas adequadas e aparelhos calibrados, a professora de medicina da Unigranrio-Afya, Clara Carvalho, afirma que a dose de radiação em um exame de mamografia fica dentro dos limites considerados seguros. “O risco de câncer radiogênico da mamografia é completamente desprezível.

O oncologista Leonardo Silva, do Grupo SOnHe, em Campinas (SP), reforça que a mamografia necessita de pouca radiação para ser executada. “O risco da exposição a esta radiação é baixo e o benefício em muito se superpõe ao risco. Além disso, nunca houve um caso de câncer de mama comprovadamente induzido por radiação da mamografia”, afirma.

O médico também considera necessário reforçar cada vez mais as informações verdadeiras sobre a doença do que tentar desmistificar os boatos.

“É claro que precisamos explicar o que não é correto sobre a doença, mas quando reforçamos a verdade, ela se espalha de forma muito mais convincente, haja vista a campanha Outubro Rosa, que começou com uma ação popular e, rapidamente, se tornou um marco mundial. Todo mundo sabe que a mamografia é necessária”, pontua o médico.

Radiação pode aumentar risco de câncer de tireoide?

Outra fake news sobre o tema afirma que a radiação pode aumentar a probabilidade de um câncer de tireoide. No entanto, o Congresso Brasileiro de Radiologia (CBR) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasco) não recomendam o uso de protetor de tireoide no exame de mamografia.

Segundo os médicos, isso pode interferir no adequado posicionamento da mama, o que reduz a qualidade das imagens e leva à necessidade de repetição de incidências de raio X, aumentando as doses de radiação recebidas pelos pacientes.

“É verdade que a radiação ionizante pode aumentar o risco de desenvolver qualquer câncer, porém, em doses muito maiores do que as utilizadas na mamografia. Sobre a proteção da tireoide, segundo dados da Fiocruz, menos de 1 caso de alteração de tireoide foi identificado a cada 17 milhões de mulheres que realizaram mamografia anual entre 40 e 80”, afirma Clara.

Auto exame não descarta a necessidade de mamografia

Mesmo após três décadas de conscientização por meio do Outubro Rosa, ainda existem muitas dúvidas entre a população

O autoexame é caracterizado pela realização de movimentos circulares ao redor da mama a fim de identificar possíveis nódulos cancerígenos. Clara, no entanto, afirma que as mulheres devem realizar mamografias com frequência anual, antes mesmo de identificar qualquer irregularidade nos próprios seios.

“O importante é realizar o rastreamento das lesões pré-clínicas, ou seja, antes de se tornarem palpáveis. Grande parte da população adota o senso comum de ‘vou fazer o exame para que? Não vou ficar procurando doença’, mas a mamografia é fundamental para a saúde feminina. É melhor iniciar o tratamento para câncer com um nódulo de 2cm do que com um de 6 cm”, conta a médica da Unigranrio.

Hoje, já não precisamos mais insistir no autoexame, explica Susana Ramalho, oncologista clínica do Grupo SOnHe, em Campinas. As mulheres sabem da importância da mamografia e, mais do que isso, entendem que esse exame salva vidas, pois é capaz de diagnosticar o tumor no estágio inicial, enquanto o autoexame identifica o nódulo com um tamanho maior.

“Temos, hoje, uma outra perspectiva e podemos cuidar da paciente desde cedo, porque o comprometimento dela com a saúde existe e já é um hábito”, conta a médica, que ainda reforça o fato de os tumores diagnosticados em estágios iniciais apresentarem 95% de chances de cura.

Desodorante não causa câncer de mama

Recentemente, boatos sobre o câncer de mama voltaram a circular entre a população. Em uma época em que a informação está cada vez mais democratizada, é preciso fazer atenção ao tipo de história que é divulgada e consumida pelas pessoas, como atribuir ao desodorante diário a causa do câncer de mama.

“Não faz o menor sentido compartilhar uma informação como essa! Não há qualquer evidência científica que aponte os desodorantes como causadores do câncer de mama. Os tumores, geralmente, se localizam perto das axilas, porque ali tem uma grande concentração de tecido glandular mamário e não porque existe um acúmulo de toxinas. Aliás, não eliminamos toxinas pela transpiração, mas pelas vias urinária e biliar. A transpiração serve para regular a nossa temperatura corporal”, desmistifica o oncologista Leonardo Silva.

Sendo o tumor mais frequente entre as brasileiras, o câncer de mama exige cuidado. Bem por isso, é preciso seguir as recomendações de exames para cada faixa etária e fazer atenção ao histórico familiar, explica Susana Ramalho.

“Além de termos conseguido avançar no rastreio desse tipo de tumor, por meio da mamografia e do ultrassom, é fundamental conhecer a paciente como um todo, porque a história da família diz muito sobre as expectativas daquela paciente”. Segundo a médica, o avanço da tecnologia também tem sido importante para entender a herança genética de cada mulher e antecipar possíveis decisões.

Sintomas, fatores de risco e prevenção

Não é mito que o câncer de mama é o tumor mais frequente entre as brasileiras depois do câncer de pele não melanoma e que entre 2023 e 2025, são esperados 74 mil novos casos da doença, de acordo com as estimativas do Inca. Também não é mito que práticas saudáveis de vida contribuam para prevenir a doença.

Os sintomas do câncer de mama variam bastante, mas o principal deles é o aparecimento de nódulos palpáveis nas axilas e no pescoço. Em alguns casos, há o enrugamento da pele próxima ao mamilo, vermelhidão nessa região e possível secreção. A cirurgia para a retirada do nódulo é indicada, e geralmente pode ser seguida de quimioterapia, radioterapia e Terapia Endócrina.

Alguns fatores devem ser levados em consideração, como: risco hereditário, genético, epidemiológico e constitucional (mamas densas). Os fatores vinculados a predisposição genética não podem ser minimizados, já que indivíduos com repetidos casos familiares de câncer devem ficar atentos aos sinais do próprio corpo e manter acompanhamento médico.

A prevenção contra o câncer de mama está principalmente relacionada a hábitos que proporcionam qualidade de vida. O controle da obesidade e do estresse, associados ao não consumo de produtos derivados de tabaco e o consumo moderado de álcool contribuem para uma menor possibilidade de desenvolver a doença.

“Manter a qualidade de vida baseada em alimentação saudável, exercício físico e sono de qualidade é a melhor prevenção para uma série de doenças, inclusive para o câncer”, explica Leonardo Silva, oncologista do Grupo SOnHe.

Com Assessorias

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