O recente vídeo do youtuber Felca reacendeu o debate sobre a adultização infantil, um fenômeno caracterizado pela exposição precoce de crianças a comportamentos, responsabilidades e expectativas que deveriam ser próprias da vida adulta. Esse processo pode incluir desde a antecipação de papéis sociais até a sexualização precoce, sendo apontado por especialistas como um fator de risco para o desenvolvimento saudável.
Segundo Nicollas Rosa de Souza, psicólogo e fundador da BRAPSI, plataforma digital dedicada à educação em psicologia e saúde mental, a adultização infantil pode gerar impactos profundos no desenvolvimento emocional, cognitivo e social das crianças.
A exposição precoce a papéis e conteúdos que não correspondem à fase de desenvolvimento compromete a formação da identidade, pode gerar traumas, favorecer comportamentos de risco e prejudicar a capacidade de estabelecer limites saudáveis. Além disso, contribui para a perpetuação de ciclos de violência e vulnerabilidade”, afirma.
Transtorno de Estresse Pós-Traumático
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública reforçam a gravidade do cenário, onde entre 2021 e 2023, foram registrados 164.199 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, sendo que apenas 8,5% chegaram ao conhecimento das autoridades policiais.
Em meio a esse contexto, polêmicas recentes envolvendo redes sociais e produções culturais têm intensificado o debate sobre os limites entre a liberdade de expressão artística e a necessidade de proteção da infância. Para a psicóloga Êdela Nicoletti, especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e em Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), a discussão precisa ir além da indignação momentânea.
Em contextos de abuso sexual, online ou offline, há forte associação com TEPT e dissociação, e parte dos estudos também liga esse histórico à desregulação emocional e a traços de personalidade borderline na vida adulta. Não são certezas para todos os casos, mas evidências consistentes mostram que o risco é elevado”, explica.
Nenhuma visualização ou monetização justifica o risco para uma criança
Êdela ressalta ainda outro ponto que merece destaque: o uso da internet como ferramenta de conscientização. “Quando figuras públicas expõem práticas nocivas com dados e contexto, contribuem para gerar mudanças e pressionar por medidas de proteção efetivas. Mas isso exige responsabilidade e compromisso ético”, ressalta.
Os especialistas reforçam que o caminho mais eficaz é a prevenção, aliada à educação e à atuação integrada de famílias, escolas, autoridades e plataformas digitais. “Depois que o dano está feito, o processo de reconstrução é mais longo e doloroso. Nenhuma visualização ou monetização justifica o risco para uma criança“, conclui Êdela.
Pesquisadores e profissionais da área alertam para esses riscos há anos
O psicólogo Vinícius Dornelles, da DBT Brasil e mestre em cognição humana, também vê o episódio como um retrato do momento que o país vive. “É simbólico que um vídeo de influenciador tenha conseguido mobilizar até a Câmara dos Deputados para discutir o tema, quando pesquisadores e profissionais da área alertam para esses riscos há anos sem a mesma resposta”, observa.
Para ele, a situação evidencia o poder das redes sociais na definição da agenda institucional e a necessidade urgente de que a ciência seja valorizada como principal balizadora das decisões de proteção à infância. “Se dependermos apenas da viralização de um conteúdo para que o poder público aja, corremos o risco de perder tempo precioso e vidas que poderiam ser salvas”, afirma, lembrando que os índices de condutas autolesivas entre crianças e adolescentes no Brasil têm crescido de forma preocupante.
Para o psicólogo Nicollas Rosa de Souza, é fundamental ampliar a discussão pública e oferecer à sociedade subsídios técnicos e científicos para prevenção e intervenção. Diante disso, no dia 19 de agosto, às 20h, a BRAPSI promove a palestra “Os impactos da adultização infantil no desenvolvimento e segurança das crianças”, ministrada pela psicóloga Júlia Karolline de Araújo Vieira. “Ao levar o tema para espaços de debate qualificado, como eventos e palestras, é possível construir caminhos mais seguros para a infância”, conclui Nicollas.
Entenda
Vídeo-denúncia de Felca desencadeou mobilização política e judicial
O vídeo-denúncia publicado pelo influenciador Felipe Bressanim, mais conhecido como Felca, sobre casos de exposição e sexualização de crianças nas redes sociais trouxe à tona um tema urgente e ainda pouco enfrentado com a seriedade necessária. A gravação, que já ultrapassa 36 milhões de visualizações no YouTube, revelou conteúdos em que menores de idade são expostos de forma inapropriada e, em alguns casos, inseridos em ambientes e dinâmicas de conotação sexual.
A repercussão foi imediata e ganhou novos desdobramentos. No Congresso, 32 projetos de lei foram apresentados à Câmara dos Deputados para criminalizar a adultização infantil, suspender a monetização de conteúdo produzido por menores e criar exigências legais para publicações envolvendo crianças.
O presidente da Casa, deputado Hugo Motta, declarou que o tema entrou na pauta prioritária. No Senado, 70 parlamentares já assinaram o pedido de abertura de uma CPI para investigar o papel de influenciadores e plataformas na exploração infantil online.
Na esfera judicial, a Justiça da Paraíba determinou a interrupção da monetização dos conteúdos ligados ao influenciador Hytalo Santos, proibiu o contato dele com menores e instaurou investigação sobre possível omissão dos pais das vítimas. Nesta semana, Hytalo foi preso no âmbito das apurações, reforçando o peso das denúncias e a gravidade do caso. Gigantes da tecnologia, como Meta e Google, também foram instadas a explicar quais ações tomaram para conter a propagação de conteúdo denunciado.
Com Assessorias




