Em 30 de maio é lembrado o Dia Mundial da Esclerose Múltipla (EM) para esclarecer sobre essa doença que afeta o sistema nervoso central, causando uma variedade de sintomas e desafios para os pacientes. Essa é a doença neurológica que mais atinge jovens adultos no mundo, sendo a maioria mulheres de 20 a 40 anos – a relação é de 3 mulheres para cada homem. E representa hoje a segunda causa mais comum de incapacidade em jovens, precedida apenas pelos traumatismos.
No Brasil, a EM ganhou visibilidade com o diagnóstico da atriz Claudia Rodrigues, a eterna Marinete de “A Diarista” e, recentemente, da atriz curitibana Guta Stresser, que deu vida à Bebel, de “A Grande Família”. Estima-se que a doença afete entre 15 e 27 pessoas a cada 100.000 habitantes, com uma prevalência crescente nas últimas décadas.
Segundo a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem), existem cerca de 40 mil pessoas vivendo com a enfermidade no Brasil, enquanto no mundo, há mais de 2,8 milhões de casos. Embora seja considerada uma das desordens neurológicas mais comuns em adultos jovens no mundo, a esclerose múltipla ainda é uma doença pouco conhecida pela população.
Mesmo que não haja cura para a EM, muitos pacientes conseguem gerenciar seus sintomas e levar uma vida plena e gratificante. Por isso, o Dia Mundial da Esclerose Múltipla desempenha um papel importante no enfrentamento da doença, ao destacar a conscientização e o apoio aos pacientes, promovendo compreensão e solidariedade em relação à enfermidade.
Uma doença sem cura, mas com tratamento
“Antigamente a Esclerose Múltipla era vista como um problema que levaria a sequelas, como o uso de cadeira de rodas. Mas hoje é possível que a pessoa tenha uma vida normal, com qualidade de vida”, diz o neurologista Iron Dangoni Filho, especialista que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia.
Segundo ele, desde 2012 a EM é uma doença diferente. Hoje há tratamentos denominados de alta eficácia e que são modificadores da doença. “Conseguimos hoje fazer tratamento de barreira que impede inflamação e a ocorrência dos surtos, que são os responsáveis pela estigmatização de quem sofre desse problema”, relata.
“Existe muita inovação, inclusive com lançamentos frequentes de medicamentos frequentes, como é o exemplo da Cladribina. O importante é que seja bem indicado, por um profissional com experiência e habilitado. O preconceito deve ser combatido todos os dias e por todos nós”, destaca.
Como evitar as recaídas
João Carlos Moraes, médico neurologista da Clínica Censo, em Parauapebas (PA), explica a importância do diagnóstico e tratamento para evitar sequelas para o resto da vida nos pacientes.
“Inicialmente, o organismo é capaz de interromper o dano causado à bainha de mielina, reduzindo a inflamação e distanciando a frequência dos sintomas. Mas é preciso estar atento, pois se não diagnosticada e tratada, a doença pode deixar sequelas permanentes”, alerta o profissional.
Um dos principais benefícios do tratamento é a redução das recaídas. As recaídas são episódios de piora dos sintomas ou surgimento de novos. Elas podem variar em intensidade e duração, impactando na saúde e qualidade de vida dos pacientes. O tratamento ajuda a diminuir a frequência e a gravidade das recaídas, permitindo maior qualidade de vida.
Embora ainda não haja cura para a Esclerose Múltipla, o tratamento adequado desempenha um papel fundamental na manutenção da saúde do paciente. “Quando confirmado o diagnóstico, o tratamento tem o objetivo de abreviar a fase aguda da doença e aumentar o intervalo entre os surtos”, explica o neurologista.
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Entenda a doença
Considerada uma doença autoimune, crônica e inflamatória, a EM tem como característica o ataque do sistema imunológico às células da bainha de mielina, que é extremamente importante para a condução dos impulsos nervosos. Devido ao processo de inflamação, desmielinização e alterações degenerativas, a doença pode levar à perda funcional permanente, principalmente jovens entre a segunda e a terceira década de vida.
“A EM afeta o Sistema Nervoso Central (SNC), podendo acometer cérebro e medula espinhal. Trata-se de uma condição multifatorial, autoimune, que se caracteriza por ter componente inflamatório, degenerativo e desmielinizante, afetando o cérebro, tronco encefálico e medula espinhal. É a doença desmielinizante do SNC mais prevalente”, explica Mirella Fazzito, médica neurologista da Clínica Araújo & Fazzito.
A doença deve ser acompanhada de perto por um médico especialista e normalmente tem um controle clínico e evolutivo adequados. Por isso, é muito importante o acompanhamento do paciente, diagnóstico adequado e o início do tratamento precoce. “Infelizmente ainda não existe cura para a EM, mas existem tratamentos que têm por objetivo manter o controle da doença e, principalmente, a qualidade de vida desses pacientes”, pontua.
Sintomas variam e podem se agravar
Formigamento, dormência, dor, fraqueza muscular nos braços, pernas, tronco ou face, problemas de visão, alterações de sensibilidade, fadiga, perda do equilíbrio, vertigem, tremor e até depressão podem ser sinais iniciais de esclerose múltipla, sobretudo em pacientes jovens, podendo levar à deficiência progressiva e dependência de cuidados.
“Os sintomas variam de pessoa para pessoa, de acordo com o grau do dano já causado. Não há cura para a esclerose múltipla, mas existem tratamentos que ajudam na redução e gravidade dos surtos bem como reduzindo chances de novos surtos e progressão da doença”, explica o neurologista e professor do curso de Medicina da Faculdade Pitágoras, Frederico Lacerda.
Ele destaca ainda alguns sinais de atenção. Confira:
- Sensitivos: dormências ou formigamentos; dor ou queimação na face;
- Visuais: visão borrada, mancha escura no centro da visão de um olho, visão dupla;
- Motores: perda da força muscular, dificuldade para andar, espasmos e rigidez muscular;
- Além disso, pode apresentar sintomas associados, sendo rara a sua apresentação de forma isolada, tais como:
- Esfincterianas: dificuldade de controle da bexiga ou intestino;
- Cognitivos e comportamentais: problemas de memória, de atenção, do processamento de informações,
- Mentais: alterações de humor, depressão e ansiedade.
Os sintomas também podem causar:
- neurite óptica (inflamação do nervo óptico),
- paresia (restrição/diminuição do movimento),
- parestesia (sensação de formigamento ou dormência) de membros,
- mielites (distúrbio neurológico, marcado por inflamação focal que, em geral, atravessa os dois lados da medula espinhal),
- espasticidade (aumento involuntário da contração muscular);
- disfunções da coordenação e equilíbrio,
- ataxia: dificuldade ou mesmo incapacidade de se manter a coordenação motora como normalmente, como falta de coordenação dos movimentos finos ou para andar e desequilíbrios.
É importante ressaltar que os sintomas são variáveis, de acordo com a localização das lesões apresentadas pelos pacientes e não costumam se instalar de maneira súbita, como nas doenças vasculares.
“Geralmente os sintomas ocorrem de maneira progressiva, piorando no decorrer das horas ou dias. A intensidade e os sintomas variam de acordo com cada paciente”, esclarece a Dra Mirella.
Diagnóstico: EM pode ser confundida com outras doenças
A EM tem uma prevalência de 15 casos para cada 100 mil habitantes e muitas vezes é subdiagnosticada ou confundida com outras doenças. A investigação já tem início no consultório médico, com a coleta de história clínica detalhada, entendendo todo histórico do paciente, além de exame físico e neurológico.
Os critérios diagnósticos se baseiam nos sintomas clínicos, alterações nos exames de imagem (ressonância de crânio e medula) e achados laboratoriais (alterações no exame de líquido cefalorraquidiano – líquor).
“A ressonância magnética de cérebro, coluna cervical e torácica o exame complementar mais importante para o auxílio no diagnóstico, mas é essencial um exame físico bem feito”, explica a médica neurologista.
Desta forma, é essencial que mediante qualquer suspeita, ocorra a busca por um especialista, sobretudo após a apresentação de um sintoma novo e agudo, pois o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são determinantes para gerenciar a doença e melhorar a qualidade de vida do paciente.
Tratamento de longo prazo
O tratamento da EM envolve uma abordagem terapêutica, para tratar os surtos e proporcionar cuidados de longo prazo. Matheus Ferreira Gomes, neurologista do Mater Dei Santa Genoveva, explica que existem várias opções disponíveis, como medicações injetáveis e por via oral. O tratamento é individualizado, baseado no tipo e na evolução da doença, seguindo os protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas.
Os profissionais de saúde exercem um papel fundamental em auxiliar os pacientes com EM. Eles oferecem suporte emocional, informações sobre a doença e orientações para o gerenciamento dos sintomas. A equipe multidisciplinar, composta por fisioterapeutas, fonoaudiólogos e psicoterapeutas, pode ser essencial para ajudar os pacientes a manter sua qualidade de vida.
Recomendações
• Mantenha a prática de exercícios físicos. Eles ajudam a fortalecer os ossos, melhoram o humor, ajudam no controle do peso e contra sintomas da doença, como a fadiga;
• A fisioterapia é uma grande aliada. Ela ajuda a reformular o ato motor, dando ênfase à contração dos músculos ainda preservados;
• Repouse. Em crises agudas da doença, recomenda-se que o paciente permaneça em repouso.
“Os cuidados multidisciplinares, como a fisioterapia e suporte psicológico são abordagens complementares essenciais para ajudar os pacientes a lidar com os desafios físicos e emocionais associados à doença, promovendo sua independência e bem-estar geral”, completa o médico.
Avanços no tratamento e apoio a familiares e pacientes
Os avanços na pesquisa da EM têm proporcionado tratamentos cada vez mais eficazes e seguros. Dr. Matheus destaca que os tratamentos atuais visam controlar a progressão da doença, garantindo uma boa qualidade de vida para os pacientes. “A relação médico-paciente é fundamental para o sucesso do tratamento, juntamente com uma equipe multidisciplinar, que ofereça suporte individualizado”, recomenda o médico.
Para obter apoio e recursos adicionais, pacientes e familiares podem contar com organizações como o Comitê Brasileiro de Tratamento e Pesquisa em Esclerose Múltipla (BCTRIMS). Essa associação sem fins lucrativos oferece informações atualizadas sobre a doença, auxílio no diagnóstico, debates e capacitação de neurologistas brasileiros. “O BCTRIMS é referência em pesquisas neuroimunológicas, incluindo a Esclerose Múltipla e a neuromielite óptica”, diz Matheus.
Com Assessorias