Dengue: médicos de família cobram mais vacinas aos mais vulneráveis

Em três meses, 3 milhões devem estar vacinados pelo SUS. Mas cobertura ainda é pequena, diz sociedade que representa médicos de família

Julianny, de 10 anos, foi a primeira criança a ser imunizada no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação SMS-Rio)
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A vacinação contra a dengue começou na semana em crianças de 10 e 11 anos. Até o fim deste ano, será ampliada para adolescentes de 12, 13 e 14 anos que moram nos 521 municípios selecionados para a etapa inicial da campanha de imunização. O Ministério da Saúde informou que vai enviar doses da Qdenga, nome comercial do imunizante, para mais 29 municípios nos próximos dias. O novo lote vai completar a lista de municípios selecionados para receber as doses até a primeira quinzena de março.
Até o momento, 492 cidades já receberam os imunizantes. O número, no entanto, é insuficiente para fazer frente ao avanço da dengue em todo o país. Pelo menos seis estados já declararam situação de emergência devido aos casos registrados de dengue na população. Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Acre, Goiás e o Distrito Federal estão na lista. A previsão é que somente este ano, 4,2 milhões de casos de dengue sejam notificados em todo o país.

“Daqui a três meses, cerca de 3 milhões de brasileiros e brasileiras devem estar vacinados, considerando o intervalo de três meses entre cada uma das duas doses. Diante da quantidade de pessoas expostas, a cobertura ainda é pequena. É essencial que as autoridades de saúde ajam em conjunto para garantir que a parcela mais vulnerável da população seja priorizada, mas que vacina no braço seja uma realidade de Norte a Sul”, diz Zeliete Zambon, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

Apesar de enfatizar a necessidade urgente de cada cidadão brasileiro fazer sua parte para combater em suas residências os focos do mosquito Aedes aegypti – transmissor da dengue e das arbovirores zika, chikungunya e febre amarela -, Zelite diz que é preciso responsabilizar os governos municipais, estaduais e federal.

“Eles têm de ser cobrados para, por exemplo, estruturar programas de controle e capacitar seus agentes, elaborar medidas emergenciais, adquirir insumos e materiais e contratar serviços capazes de frear o avanço do vírus, e garantir a incorporação no SUS da vacina contra a dengue, Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda”, afirma a médica de família (veja mais no artigo ‘Palavra de Especialista’ ao final do texto).

Restrição da vacina no SUS é por falta de doses da fabricante

De acordo com o Ministério da Saúde, no entanto, a restrição de regiões que vão receber a vacinação foi feita diante das dificuldades apresentadas para produção e oferta da vacina, elaborada pelo laboratório Takeda. A partir da entrega de mais carregamentos, a vacinação será ampliada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o Ministério da Saúde, foram compradas 5,2 milhões de vacinas neste ano. Em 2025, serão mais 9 milhões.

De acordo com a pasta, os 521 municípios foram escolhidos para receber os primeiros lotes das vacinas por estarem localizados em áreas de com alta incidência da dengue tipo 2 (Sorotipo 2), que provoca infecção mais grave da doença. No município do Rio de Janeiro, que declarou epidemia no começo de fevereiro, a vacina para crianças e adolescentes começou nesta sexta-feira (23), de forma escalonada, inicialmente para crianças de 10 anos.

Desigualdades sociais e mudanças climáticas podem agravar epidemia

O aumento médio da temperatura, associado às mudanças nos regimes de chuva observadas nas últimas décadas e o crescimento das desigualdades sociais no Brasil nos últimos anos, com regiões de extrema vulnerabilidade e grande número de chuvas, podem ser a “tempestade perfeita” para o avanço da epidemia de dengue no país.

“Com isso, os casos de dengue também se agravam, visto que nos locais mais distanciados, as medidas de conscientização e alarme sobre a situação não são notáveis. Nas regiões mais vulneráveis do país, é preciso auxiliar essas pessoas que vivem com excesso de lamas, acúmulo de lixo e outras circunstâncias que atrai os mosquitos da dengue”, afirma a a ONG Visão Mundial, organização humanitária que atua no Brasil há mais de 40 anos.

Palavra de Especialista

Dengue: um chamado à ação da SBMFC

Por Zeliete Zambon*

Estou apreensiva, e não sou a única. Como tantos outros e outras que conhecem bem a dor e a delícia de viver neste país, encaro com pesar o surto de dengue que assola diversas regiões, sobretudo por presidir a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). As estimativas alarmantes divulgadas desde o fim de janeiro pelo Ministério da Saúde não mentem: nos vemos, mais uma vez, diante da emergência de saúde pública.

O Brasil pode alcançar, apenas em 2024, ano do fenômeno El Niño – que favorece a elevação das temperaturas, a proliferação dos mosquitos e o consequente aumento de infecções por essa e outras doenças tropicais – a assustadora marca de 4,2 milhões de casos. Até agora, a propósito, foram temos cerca de 750 mil casos prováveis, além de uma centena de mortes e mais de 400 óbitos em investigação.

É claro que ninguém quer passar por essa dor de cabeça. Que também é muscular. Abdominal. E atrás dos olhos. Ninguém quer sofrer com vômitos frequentes, acúmulo de líquidos em cavidades corporais, aumento do tamanho do fígado, letargia, fraqueza, irritabilidade ou qualquer outro sintoma severo da dengue, que ameaça a vida e o bem-estar de milhões de pessoas, e sobrecarrega nossos sistemas de saúde. Ora, se é um consenso a necessidade de combater o Aedes aegypti, que transmite ainda a zika e a chikungunya, o que temos feito de errado?

Uma das explicações para a persistência do mosquito é nossa falta de união ao combatê-lo. Recorro ao apelo à nação feito por Nísia Trindade em pronunciamento na última terça-feira: precisamos nos empenhar para evitar a reprodução do inseto. A Ministra da Saúde destacou que 75% dos focos estão localizados em casa. Dizer que “o inimigo mora ao lado” nunca foi tão correto.

Embora não tenham mudado, as medidas profiláticas devem continuar sendo repetidas à exaustão. Algumas delas são:

  • evitar água parada;
  • tampar e proteger da chuva as lixeiras;
  • limpar recipientes destinados ao uso de animais ao menos duas vezes por semana;
  • manter os vasos de plantas limpos e cheios de areia até a borda;
  • fechar as tampas dos vasos sanitários ou até mesmo vedar, caso o uso seja eventual;
  • guardar baldes, pratos de plantas e garrafas em local coberto, com as bocas para baixo;
  • conservar caixas d’água, cisternas e poços fechados e vedados, cobrindo com tela aqueles que não têm tampa;
  • descartar corretamente lixo e entulhos; e
  • permitir o acesso dos agentes de controle de zoonoses às nossas residências e estabelecimentos comerciais.

Porém, quando pontuo que nós, cidadãos, temos poder para mudar essa situação, não desresponsabilizo os governos municipais, estaduais e federal. Eles têm de ser cobrados para, por exemplo, estruturar programas de controle e capacitar seus agentes, elaborar medidas emergenciais, adquirir insumos e materiais e contratar serviços capazes de frear o avanço do vírus, e garantir a incorporação no SUS da vacina contra a dengue, Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda.

Foram recebidas 757 mil doses do imunizante em janeiro, e mais 568 mil devem chegar em fevereiro. Daqui a três meses, cerca de 3 milhões de brasileiros e brasileiras devem estar vacinados, considerando o intervalo de três meses entre cada uma das duas doses. Diante da quantidade de pessoas expostas, a cobertura ainda é pequena. É essencial que as autoridades de saúde ajam em conjunto para garantir, sim, que a parcela mais vulnerável da população seja priorizada, mas que vacina no braço seja uma realidade de Norte a Sul.

Nesse contexto, faço questão de ressaltar que o trabalho dos médicos e médicas de família e comunidade, seja pela atuação conjunta na Estratégia de Saúde da Família ou na Atenção Suplementar, é fundamental. Os profissionais possuem conhecimento robusto sobre a doença, e auxiliam na prevenção ao promover uma educação em saúde efetiva junto às comunidades que atendem. Afinal, orientar quanto às melhores maneiras de espantar o mosquito, identificar os indivíduos que apresentam risco aumentado para uma evolução desfavorável da dengue e aplicar o tratamento adequado são ações que fazem bastante diferença.

A luta pela vida requer um esforço coordenado entre os vários setores da sociedade. Que aproveitemos o momento de crise para fortalecer nosso compromisso com a saúde de qualidade e implementar mudanças duradouras em nossas ruas, nossos bairros e cidades. Um futuro mais feliz depende de mim, de você, deles e delas. De todos.

  • Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC)

Com Agência Brasil e SBMFC

 

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