
ficiais de quantas pessoas têm demência no Brasil, mas os estudos mais recentes estimam que elas afetem entre 12,5% e 17,5% da população idosa do país. Atualmente, o Alzheimer, DCL e outras demências afetam cerca de 55 milhões de pessoas no mundo, número que pode ultrapassar 150 milhões até 2050, segundo a Organização Mundial da Saúde.
O diagnóstico do cantor foi revelado pelo seu filho e empresário, Augusto Nascimento, em perfil no Instagram, e confirmado por ele em entrevista à revista Piauí. Augusto Nascimento – que tem 31 anos e foi adotado por Milton em 2018 – detalhou o quadro de saúde do cantor.
Ele afirmou que Milton começou a apresentar comportamentos diferentes no final do ano passado, mas nada que fosse alarmante. Com o tempo, entretanto, as alterações foram se acentuando. “O Parkinson, diagnosticado em 2022, avançando, e as pequenas atividades do dia a dia sofrendo impacto.”
Augusto revela que fez uma viagem de motorhome com o pai no exterior em maio. “Rodamos aproximadamente 4.000 km, eu dirigia com ele sempre ao meu lado de copiloto e escolhendo as músicas – tal qual sempre fizemos em nossas boas viagens pelo mundo. De alguma forma, eu sabia que aquela viagem seria uma despedida desses momentos“, afirmou o filho.
Segundo ele, dentro das limitações, Milton se divertiu muito e costumava dizer que aquela “havia sido a melhor viagem da vida dele.” De volta ao Brasil, Augusto afirma que estava em uma viagem a trabalho quando foi obrigado a retornar para casa às pressas. Milton precisava de apoio por causa de uma desidratação, fruto da dificuldade que ele vem tendo de tomar líquido e se alimentar.
Dali para frente, entramos em uma montanha russa, e absolutamente tudo mudou de forma extremamente rápida: veio, então, o duro diagnóstico de demência“, declarou o filho.
O empresário e filho do cantor prossegue: “Nossos diálogos, desde então, têm sido, em sua maioria, silenciosos ou um pouco confusos. Meu pai me chama e tenta falar comigo, mas nem sempre consegue se expressar.”
As inúmeras ligações a cada vez que eu viajo para trabalhar, já não existem mais, nem mesmo a curiosidade por boas fofocas da vida, ou a espera ansiosa por cada vez que eu retorno para casa em que ele me aguardava com uma camiseta com a nossa foto, ou a curiosidade travessa de me perguntar se eu tinha batido em todo mundo nas voltas dos treinos de jiu-jítsu”, completou Augusto.
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Nem sempre o declínio cognitivo típico da idade vem junto com demência
De acordo com o médico André Felício, coordenador da pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica, é esperado que o desempenho cognitivo seja afetado pela velhice, mas nem sempre isso significa um quadro demencial.
A suspeita vem no momento em que esses problemas cognitivos, por exemplo, perda de memória para fatos recentes, ou não conseguir mais prestar atenção ou entender as coisas que lê, começam a interferir na rotina e os mais próximos precisam supervisionar o que você faz. O ponto chave que diferencia alguém com demência e sem demência é independência”, explica o neurologista.
No entanto, muitas condições podem impactar o desempenho neurológico dos idosos, por isso é necessário que um especialista conduza uma investigação a partir da observação de sintomas, associada a testes neuropsicológicos e exames de imagem. Esses testes avaliam os campos cognitivos, ou seja, a memória, a linguagem, a atenção.
Já os exames ajudam tanto a confirmar a demência, quanto a especificar de que tipo ela é. A ressonância magnética de crânio, por exemplo, na doença de Alzheimer, mostra atrofia em uma região do cérebro, nos lobos temporais, onde fica o hipocampo. E a gente não vê isso na demência por Lewy, por exemplo”
Doença geralmente é associada ao Parkinson
Outra coisa é o exame de avaliação da dopamina no cérebro, que em Lewy está alterada e em Alzheimer, não. Essa alteração de dopamina explica outra importante característica da demência por corpos de Lewy: os sintomas parksonianos, ou seja, característicos da doença de Parkinson.
Quando a gente faz um diagnóstico de Lewy, é muito comum que essas pessoas antes tenham sido diagnosticadas com Parkinson. Na verdade, elas sempre tiveram Lewy, mas o quadro cognitivo ainda não tinha se manifestado.”
O próprio Milton Nascimento se encaixa nesse padrão, já que foi diagnosticado com Parkinson há cerca de dois anos. Os principais sintomas são tremores e rigidez muscular.
Diagnóstico e tratamento
O neurologista da Afya Educação Médica, Philipe Marques da Cunha, informa que a Demência por Corpos de Lewy é uma doença neurodegenerativa progressiva causada pelo acúmulo da proteína alfa-sinucleína (corpos de Lewy) no córtex cerebral.
Essa é a principal diferença em relação à Doença de Alzheimer, caracterizada pelo acúmulo de placas beta-amiloides e emaranhados neurofibrilares, e à Doença de Parkinson, que também apresenta corpos de Lewy, mas localizados na substância negra do cérebro”.
O médico também esclarece que entre os sintomas da condição, destacam-se as flutuações cognitivas, alterações de atenção, alucinações visuais precoces e detalhadas, lapsos de memória e distúrbios do sono.
Do ponto de vista motor, a doença pode apresentar rigidez muscular, bradicinesia (lentidão dos movimentos) e instabilidade postural, sintomas semelhantes ao parkinsonismo. Outro aspecto relevante é a sensibilidade acentuada a neurolépticos, medicamentos frequentemente utilizados no manejo de sintomas comportamentais, o que exige atenção especial no tratamento desses pacientes”, complementa o neurologista da Afya.
Dr Philipe destaca que o diagnóstico da Demência com Corpos de Lewy é principalmente clínico, baseado na identificação de sintomas como flutuações cognitivas, alucinações visuais e parkinsonismo, mas pode ser desafiador nas fases iniciais devido à variabilidade e sutileza das manifestações.
Para aumentar a precisão diagnóstica, especialmente nos estágios iniciais, utilizam-se exames complementares como a ressonância magnética (RM), a cintilografia cerebral com traçador dopaminérgico (DaTscan), a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a polissonografia, que pode confirmar a presença de distúrbios do sono.”
Já o prognóstico, segundo o neurologista da Afya, varia de 5 a 12 anos após o diagnóstico, geralmente com progressão mais rápida que a Doença de Alzheimer, levando à perda funcional progressiva, dependência crescente e comprometimento cognitivo, motor e autonômico.
Como diminuir os riscos da demência por corpos de Levy
Apesar de a ciência ainda não ter desvendado as causas da demência, André Felício destaca que alguns fatores que diminuem ou aumentam o risco são conhecidos.
Parece redundante falar, mas a gente vai voltar ao básico, aos hábitos de vida saudável. A gente sabe que exercício físico é neuroprotetor. A gente sabe que o sono é neuroprotetor. A gente sabe que uma alimentação que lembra a dieta mediterrânea e que você criar uma reserva cognitiva ao longo da vida são neuroprotetores. Assim como a gente sabe o contrário: o álcool vai piorar isso, o sedentarismo, a hipertensão, o diabetes, a obesidade e por aí vai”
As orientações do especialista vão ao encontro dos resultados de um estudo recente, liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo, que concluiu que 60% dos casos de demência podem ser atribuídos a fatores modificáveis e, portanto, poderiam ser prevenidos.
Da Agência Brasil, com Assessoria da Afya e Redação






