A demência por corpos de Lewy (DCL), diagnosticada no cantor Milton Nascimento, de 82 anos, após diversos exames e testes clínicos, é um distúrbio neurodegenerativo caracterizado por declínio nas funções de pensamento, movimento, comportamento, cognição e humor. É uma doença sem cura, mas os medicamentos adequados podem atenuar os sintomas e retardar a perda cognitiva.
A recente notícia trouxe luz a uma das formas de demência menos conhecidas, mas que afeta milhões de pessoas no mundo.  De acordo com a Lewy Body Dementia Association, a DCL é a segunda forma mais comum de demência degenerativa após a Doença de Alzheimer, e estima-se que ela esteja presente em 10% dos casos.
Não há dados oficiais de quantas pessoas têm demência no Brasil, mas os estudos mais recentes estimam que elas afetem entre 12,5% e 17,5% da população idosa do país. Atualmente, o Alzheimer, DCL e outras demências afetam cerca de 55 milhões de pessoas no mundo, número que pode ultrapassar 150 milhões até 2050, segundo a Organização Mundial da Saúde.
No Brasil, 1,2 milhão de pessoas convivem com algum tipo de demência Estima-se que 8,5% da população idosa brasileira já seja afetada pela doença, e as projeções apontam para mais de 5,7 milhões de casos até 2050.
O quadro demencial vem somar-se ao quadro de Parkinson que Milton Nascimento já possuía. Segundo pesquisa divulgada na revista SciELO, estimativas indicam que DCL e a Demência da Doença de Parkinson (DDP) juntas respondem por até 31% dos casos de demência neurodegenerativa em pessoas com mais de 65 anos em todo o mundo.  A DCL tem sintomas parecidos com os do mal de Alzheimer e, no que diz respeito às questões motoras, ao Parkinson.
‘Eu sabia que aquela viagem seria uma despedida desses momentos’

O diagnóstico do cantor foi revelado pelo seu filho e empresário, Augusto Nascimento, em perfil no Instagram, e confirmado por ele em entrevista à revista Piauí. Augusto Nascimento – que tem 31 anos e foi adotado por Milton em 2018 – detalhou o quadro de saúde do cantor.

Ele afirmou que Milton começou a apresentar comportamentos diferentes no final do ano passado, mas nada que fosse alarmante. Com o tempo, entretanto, as alterações foram se acentuando. “O Parkinson, diagnosticado em 2022, avançando, e as pequenas atividades do dia a dia sofrendo impacto.”

Augusto revela que fez uma viagem de motorhome com o pai no exterior em maio. “Rodamos aproximadamente 4.000 km, eu dirigia com ele sempre ao meu lado de copiloto e escolhendo as músicas – tal qual sempre fizemos em nossas boas viagens pelo mundo. De alguma forma, eu sabia que aquela viagem seria uma despedida desses momentos“, afirmou o filho.

Segundo ele, dentro das limitações, Milton se divertiu muito e costumava dizer que aquela “havia sido a melhor viagem da vida dele.” De volta ao Brasil, Augusto afirma que estava em uma viagem a trabalho quando foi obrigado a retornar para casa às pressas. Milton precisava de apoio por causa de uma desidratação, fruto da dificuldade que ele vem tendo de tomar líquido e se alimentar.

Dali para frente, entramos em uma montanha russa, e absolutamente tudo mudou de forma extremamente rápida: veio, então, o duro diagnóstico de demência“, declarou o filho.

O empresário e filho do cantor prossegue: Nossos diálogos, desde então, têm sido, em sua maioria, silenciosos ou um pouco confusos. Meu pai me chama e tenta falar comigo, mas nem sempre consegue se expressar.

As inúmeras ligações a cada vez que eu viajo para trabalhar, já não existem mais, nem mesmo a curiosidade por boas fofocas da vida, ou a espera ansiosa por cada vez que eu retorno para casa em que ele me aguardava com uma camiseta com a nossa foto, ou a curiosidade travessa de me perguntar se eu tinha batido em todo mundo nas voltas dos treinos de jiu-jítsu”, completou Augusto.

Leia mais

Milton Nascimento: o corpo adoece, mas os ‘sonhos não envelhecem’
Parar de fumar faz bem à mente e reduz o risco de demência
Metade dos casos de demência em hospitais não é percebida
Solidão crônica pode aumentar o risco de morte e demência 

Nem sempre o declínio cognitivo típico da idade vem junto com demência

De acordo com o médico André Felício, coordenador da pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica, é esperado que o desempenho cognitivo seja afetado pela velhice, mas nem sempre isso significa um quadro demencial.

A suspeita vem no momento em que esses problemas cognitivos, por exemplo, perda de memória para fatos recentes, ou não conseguir mais prestar atenção ou entender as coisas que lê, começam a interferir na rotina e os mais próximos precisam supervisionar o que você faz. O ponto chave que diferencia alguém com demência e sem demência é independência”, explica o neurologista.

No entanto, muitas condições podem impactar o desempenho neurológico dos idosos, por isso é necessário que um especialista conduza uma investigação a partir da observação de sintomas, associada a testes neuropsicológicos e exames de imagem. Esses testes avaliam os campos cognitivos, ou seja, a memória, a linguagem, a atenção.

Já os exames ajudam tanto a confirmar a demência, quanto a especificar de que tipo ela é. A ressonância magnética de crânio, por exemplo, na doença de Alzheimer, mostra atrofia em uma região do cérebro, nos lobos temporais, onde fica o hipocampo. E a gente não vê isso na demência por Lewy, por exemplo”

Doença geralmente é associada ao Parkinson

Outra coisa é o exame de avaliação da dopamina no cérebro, que em Lewy está alterada e em Alzheimer, não. Essa alteração de dopamina explica outra importante característica da demência por corpos de Lewy: os sintomas parksonianos, ou seja, característicos da doença de Parkinson.

Quando a gente faz um diagnóstico de Lewy, é muito comum que essas pessoas antes tenham sido diagnosticadas com Parkinson. Na verdade, elas sempre tiveram Lewy, mas o quadro cognitivo ainda não tinha se manifestado.”

O próprio Milton Nascimento se encaixa nesse padrão, já que foi diagnosticado com Parkinson há cerca de dois anos. Os principais sintomas são tremores e rigidez muscular.

Diagnóstico e tratamento

O neurologista da Afya Educação Médica, Philipe Marques da Cunha, informa que a Demência por Corpos de Lewy é uma doença neurodegenerativa progressiva causada pelo acúmulo da proteína alfa-sinucleína (corpos de Lewy) no córtex cerebral.

Essa é a principal diferença em relação à Doença de Alzheimer, caracterizada pelo acúmulo de placas beta-amiloides e emaranhados neurofibrilares, e à Doença de Parkinson, que também apresenta corpos de Lewy, mas localizados na substância negra do cérebro”.

O médico também esclarece que entre os sintomas da condição, destacam-se as flutuações cognitivas, alterações de atenção, alucinações visuais precoces e detalhadas, lapsos de memória e distúrbios do sono.

Do ponto de vista motor, a doença pode apresentar rigidez muscular, bradicinesia (lentidão dos movimentos) e instabilidade postural, sintomas semelhantes ao parkinsonismo. Outro aspecto relevante é a sensibilidade acentuada a neurolépticos, medicamentos frequentemente utilizados no manejo de sintomas comportamentais, o que exige atenção especial no tratamento desses pacientes”, complementa o neurologista da Afya.

Dr Philipe destaca que o diagnóstico da Demência com Corpos de Lewy é principalmente clínico, baseado na identificação de sintomas como flutuações cognitivas, alucinações visuais e parkinsonismo, mas pode ser desafiador nas fases iniciais devido à variabilidade e sutileza das manifestações.

Para aumentar a precisão diagnóstica, especialmente nos estágios iniciais, utilizam-se exames complementares como a ressonância magnética (RM), a cintilografia cerebral com traçador dopaminérgico (DaTscan), a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a polissonografia, que pode confirmar a presença de distúrbios do sono.”

Já o prognóstico, segundo o neurologista da Afya, varia de 5 a 12 anos após o diagnóstico, geralmente com progressão mais rápida que a Doença de Alzheimer, levando à perda funcional progressiva, dependência crescente e comprometimento cognitivo, motor e autonômico.

Como diminuir os riscos da demência por corpos de Levy

Apesar de a ciência ainda não ter desvendado as causas da demência, André Felício destaca que alguns fatores que diminuem ou aumentam o risco são conhecidos.

Parece redundante falar, mas a gente vai voltar ao básico, aos hábitos de vida saudável. A gente sabe que exercício físico é neuroprotetor. A gente sabe que o sono é neuroprotetor. A gente sabe que uma alimentação que lembra a dieta mediterrânea e que você criar uma reserva cognitiva ao longo da vida são neuroprotetores. Assim como a gente sabe o contrário: o álcool vai piorar isso, o sedentarismo, a hipertensão, o diabetes, a obesidade e por aí vai”

As orientações do especialista vão ao encontro dos resultados de um estudo recente, liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo, que concluiu que 60% dos casos de demência podem ser atribuídos a fatores modificáveis e, portanto, poderiam ser prevenidos.

Da Agência Brasil, com Assessoria da Afya e Redação

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *