A saúde pública e privada do Distrito Federal foi abalada nesta semana pela revelação de um caso estarrecedor de crimes em ambiente hospitalar. Três técnicos de enfermagem foram detidos durante a Operação Anúbis, suspeitos de causar a morte de pelo menos três pacientes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga.  As investigações da Polícia Civil sugerem um cenário de crueldade que ultrapassa as barreiras da negligência, configurando homicídios dolosos.

Comparado ao sinistro histórico de Charles Cullen (retratado no filme O Enfermeiro da Noite), o principal suspeito, Marcos Vinícius Barbosa, de 24 anos, é acusado de utilizar logins de médicos para prescrever ilegalmente substâncias letais. Em uma das vítimas, uma idosa de 75 anos, o suspeito teria injetado desinfetante doméstico por mais de dez vezes após o término do medicamento indevido.

Segundo o delegado Wisllei Salomão, o técnico injetava doses elevadas de medicamentos que, embora comuns em UTIs, provocam parada cardíaca imediata se administrados diretamente na veia sem critério clínico. A Polícia Civil analisará agora celulares e computadores apreendidos para entender a extensão real do grupo e se houve falhas sistêmicas que permitiram a atuação dos criminosos por tanto tempo.

O caso levanta debates urgentes sobre o controle de acesso a sistemas hospitalares e a fiscalização de profissionais de saúde. Para a advogada e especialista em Direito Médico, Samantha Takahashi, o episódio expõe não apenas a responsabilidade individual dos profissionais, mas também falhas institucionais graves nos protocolos de segurança hospitalar.

O “modus operandi” da crueldade

Os detalhes revelados pelos investigadores são perturbadores:

  • Uso de desinfetante: Em uma das vítimas, uma idosa de 75 anos, o suspeito teria injetado desinfetante doméstico por mais de dez vezes após o término do medicamento indevido.

  • Simulação de socorro: Imagens de câmeras de segurança mostram que, após as aplicações, o técnico aguardava o monitor acusar a parada cardíaca e fingia realizar manobras de ressuscitação apenas quando outros funcionários entravam no quarto.

  • Conivência: Outras duas técnicas (de 22 e 28 anos) teriam auxiliado Marcos Vinicius na retirada dos medicamentos da farmácia e vigiado o corredor para evitar flagrantes.

Vítimas identificadas e rastro de suspeitas

Até o momento, três óbitos ocorridos entre novembro e dezembro de 2025 foram confirmados como criminosos:

  1. Miranilde Pereira da Silva (75 anos): Professora aposentada.

  2. João Clemente Pereira (63 anos): Servidor público.

  3. Marcos Raymundo Fernandes Moreira (33 anos): A vítima mais jovem identificada.

A polícia agora amplia o foco para outros 20 óbitos suspeitos em diferentes unidades de saúde por onde o trio passou nos últimos cinco anos. O risco era iminente: antes de ser preso, Marcos Vinícius trabalhava em uma UTI neonatal, o que apressou a ação da polícia para evitar que bebês se tornassem novas vítimas.

Resposta institucional e motivação

O Hospital Anchieta informou que identificou “circunstâncias atípicas” por meio de seu comitê de auditoria interna e demitiu os envolvidos, acionando imediatamente as autoridades. Em nota, a instituição se declarou vítima da ação dos ex-funcionários e afirmou estar colaborando com as investigações, que correm em segredo de Justiça.

Quanto à motivação, os depoimentos são contraditórios. Inicialmente, o suspeito alegou cansaço no plantão; posteriormente, tentou justificar os atos como uma forma de “aliviar o sofrimento” das vítimas. No entanto, a polícia contesta a versão da “eutanásia”, destacando que uma das vítimas estava consciente e internada apenas por uma constipação intestinal quando foi morta.

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Especialista aponta falhas graves na segurança do paciente

Prisões de técnicos de enfermagem após mortes em UTI levantam questionamentos sobre dever de vigilância, falhas estruturais e responsabilidade institucional na segurança do paciente

A advogada e especialista em Direito Médico, Samantha Takahashi, que analisa o caso sob a ótica da responsabilidade civil, administrativa e da gestão da segurança do paciente. Segundo a especialista, embora haja responsabilidade direta dos técnicos de enfermagem, que já foram presos e afastados da instituição, o caso revela fragilidades estruturais que não podem ser ignoradas.

Os óbitos aconteceram na Unidade de Terapia Intensiva, exatamente o setor hospitalar que exige vigilância contínua, 24 horas por dia, por equipe multidisciplinar especializada. Civilmente, existe responsabilidade direta do hospital por falha no dever de vigilância e segurança, o que implica na possível indenização por danos morais e materiais às famílias das vítimas”, explica.

A especialista chama atenção ainda para informações divulgadas pela Polícia Civil, segundo as quais um dos técnicos teria utilizado um sistema de prescrição aberto para prescrever, administrar e retirar o medicamento na farmácia.

Aqui surge a primeira falha estrutural: esse sistema não era seguro e permitia o acesso irrestrito às prescrições? O técnico burlou o sistema ou houve falha humana, como o uso indevido de login e senha deixados abertos por outro profissional?”, questiona.

Falha estrutural na prescrição de medicamentos

Ela aponta ainda uma segunda falha estrutural relacionada à checagem da prescrição. “Existe um fluxo protocolar que vai desde a prescrição até a administração do medicamento: o médico prescreve, o enfermeiro faz a verificação das prescrições, a farmácia faz a dispensação e o técnico administra. Se essa etapa de verificação ou a etapa seguinte de checagem antes da dispensação, falharam, há responsabilidade institucional”, destaca.

Samantha Takahashi lembra que toda administração de medicamentos deve seguir a regra dos chamados “cinco certos”: paciente certo, medicamento certo, dosagem certa, via de administração certa e hora certa. “Essa regra existe justamente para evitar eventos adversos graves, especialmente em ambientes críticos como a UTI”, reforça.

A especialista também alerta sobre a condução institucional diante das mortes. Segundo ela, embora o hospital tenha informado, em nota, que instaurou comissão interna após identificar condições atípicas nos óbitos, esse procedimento não pode ser tratado como exceção.

Toda instituição hospitalar é obrigada a manter uma Comissão de Revisão de Óbitos, composta por no mínimo um médico, um enfermeiro e outro profissional de saúde, com o dever de analisar todos os óbitos ocorridos, identificar falhas assistenciais, causas evitáveis e incidentes de segurança do paciente, portanto, se os dois primeiros óbitos aconteceram no dia 17/11 e o terceiro no dia 01/12, houve um hiato entre os eventos. Se a instituição percebeu condições atípicas já nos dois primeiros, o dever era de investigação imediata”, explica.

Nesses casos, se algum óbito demanda esclarecimentos adicionais, o fluxo correto, segundo Samantha, seria a comunicação imediata ao Diretor Técnico da instituição. “Ele pode, se entender necessário, encaminhar os fatos para apuração pelo Conselho Regional de Medicina. O que se percebe, nesse caso, é uma grande fragilidade nos protocolos de segurança do paciente e nas barreiras estruturais que poderiam ter evitado esse evento tão grave e fatídico”, conclui.

Por fim, Samantha esclarece que “grande parte dos danos decorrentes de eventos adversos em saúde tem origem em falhas nos protocolos institucionais de segurança do paciente. Nesse cenário, duas pontas são atingidas: o paciente, exposto ao risco assistencial, e os profissionais de saúde, que passam a atuar como reféns de um sistema mal estruturado e deficientemente gerido.”

Com informações de Assessorias e agências

 

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