Bitucas de cigarro: uma tragédia para o meio ambiente

300 mil toneladas/ano de microplástico são despejadas só de bitucas de cigarro. Ecotóxico, produto traz riscos à saúde individual e coletiva

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O Dia Mundial Sem Tabaco, 31 de maio, traz também um alerta sobre os riscos ambientais e para a saúde associados ao microplástico presente no cigarro. Todos os anos, cerca de 300 mil toneladas de fibras microplásticas originárias exclusivamente de bitucas de cigarros são descartadas indevidamente no meio ambiente, segundo publicado neste mês pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Esse volume equivale a toda coleta de lixo domiciliar no período de um mês pela Prefeitura de São Paulo – uma das 5 maiores cidades do mundo.

Apesar da crescente atenção para o tema, a correlação com o tabagismo ainda não é amplamente conhecida. Estudos dos Estados Unidos e da Alemanha apontaram que de 57% a 71% dos fumantes não sabem que os filtros de cigarro contêm material plástico.

“O tabagismo é recorrentemente associado à dependência de nicotina e às doenças crônicas e graves, como o câncer. É importante conscientizar as pessoas também de que, ao fumar, elas podem ingerir essas partículas tóxicas para humanos e para a natureza”, explica Clauber Bonalume, líder da Divisão de Análise Química na Thermo Fisher do Brasil.

Bituca ou guimba são os nomes populares dados ao filtro do cigarro. Cada bituca de cigarro contém 15 mil fibras poliméricas, que com a ação do tempo e ambiente, podem se tornar microplásticos – que inclusive podem se soltar e deslocar aos pulmões dos fumantes. Elas integram um combo de 4 mil substâncias presentes exclusivamente no filtro.

Os microplásticos são polímeros sintéticos com dimensões com poucos milímetros – inclusive chegando à escala micrométrica – e lentamente degradáveis. Esses fragmentos são oriundos de plásticos maiores, desgastes de tecidos, microesferas de produtos de higiene como sabonetes e esfoliantes, pneus, impressoras e outros itens cotidianos – até mesmo no setor de alimentos e bebidas. Justamente por isso, estão presentes no meio ambiente e na cadeia alimentar, configurando riscos à saúde humana, animal e do ecossistema.

Na União Europeia, as bitucas são classificadas como resíduo perigoso de longo prazo, tanto pelas substâncias que o compõem, como a nicotina, quanto pelo potencial ecotóxico – especialmente pelo impacto em espécies aquáticas, sendo o principal lixo encontrado em praias segundo a organização americana Ocean Conservacy.

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Filtro de papel fica presente por anos no ambiente

Todos os materiais orgânicos ou inorgânicos passam por processos de degradação. No caso do filtro, o principal componente é o acetato de celulose, que possui sobrevida significativa mesmo sendo um polímero de celulose.

”Ele é muito quebradiço e seus fios se rompem com facilidade. Isso significa que ele não deixa de existir, apenas se fragmenta e fica presente por anos no ambiente”, explica o químico e cientista de aplicações de campo da empresa, Bruno Zornio.

Por isso, muitas vezes são recolhidas amostras de água ou solo, que ao passarem por uma separação química e física para diferenciar o que é orgânico, detrito, sedimento de pequenos pedaços de plástico.

“A partir disso pode-se identificar a composição, além de traçar a característica morfológica e a origem dessas substâncias, compreendendo seu tamanho e distribuição”, explica.

Cultivo do tabaco contribui para crise alimentar

Em todo o mundo, a epidemia do tabaco causa mais de 8 milhões de mortes todos os anos – incluindo quase 200.000 a cada ano apenas no Brasil. Além desse catastrófico problema de saúde pública, o cultivo e a produção de tabaco contribuem para a crise alimentar mundial.

Com base em dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o Brasil ocupa o 3º lugar mundial (atrás de China e Índia) em área dedicada à produção de tabaco, correspondendo a 357 mil hectares. A região das Américas ocupa o 3º lugar no mundo em termos de área de terra usada para o cultivo de tabaco e o 2º em termos de número de países produtores de tabaco.

Além disso, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Brasil perde R$ 56,9 bilhões por ano com o tabagismo, sendo 39,4 bilhões com custos médicos e 17,5 bilhões com perda de produtividade.

No dia 31 de maio é comemorado o Dia Mundial Sem Tabaco, com o tema da campanha “Precisamos de comida, não de tabaco”. A data foi criada em 1988 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com o intuito de chamar atenção global para a epidemia do tabaco e as mortes e doenças evitáveis que ela causa.

A campanha de 2023 busca informar o governo e a população sobre a necessidade de acabar com os subsídios ao tabaco e incentivar os agricultores a cultivarem alimentos que melhorem a segurança alimentar.

Campanha pelo cultivo sustentável

O Instituto para o  Controle Global do Tabaco (IGTC, na sigla em inglês), da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, é um Centro Colaborador da OMS e está participando da campanha com recursos destinados a comunicar como a indústria do tabaco impacta negativamente no crescimento de culturas sustentáveis. Para ajudar na conscientização, o IGTC desenvolveu diversos materiais de campanha que podem ser acessados no site do Instituto.

Profissionais de saúde pública, pesquisadores, educadores, legisladores e aqueles que desejam saber mais sobre o tema podem acessar o infográfico que mostra quantos quilos de arroz poderiam ser comprados pelo preço médio de um maço de cigarro em dez países, incluindo o Brasil, e o questionário para testar o conhecimento sobre os efeitos nocivos da cultura do tabaco sobre os agricultores, nossa saúde, o planeta e muito mais.

Os recursos do IGTC para o Dia Mundial Sem Tabaco fornecem informações sobre os efeitos nocivos do cultivo do tabaco e evidências para justificar uma mudança de política, priorizando o cultivo sustentável.

“Em meio a uma crise alimentar global, é essencial promover e incentivar uma mudança cultural que valorize a produção de alimentos em detrimento da produção de tabaco e crie sociedades mais saudáveis”, afirma o Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health.

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